Musicofilia

MADA 2007: O futurismo russo acabou nos anos 20

Por Alex de Souza - 07/05/2007

toposabadomada.jpg

Nem tem muito o que dizer das bandas que fecharam a última noite do Mada. E nem domino o idioma indie praticado pelos admiradores do assunto, logo você não vai ver palavras como shoegazer, brit, lo-fi ou supercalifragiliticexpialidoso. Senso de humor até tenho, mas não uso para escrever. Aviso de antemão que perdi os shows de Dalila no Caos e de Jane Fonda. Ou seja, eles vão passar batidos. Se você assistiu e gostaria de emitir alguma opinião a respeito, pode aproveitar o espaço apropriado para isto aqui no site. Aí vão algumas rapidinhas mentais sobre a turma que subiu no palco. Depois vou falar mesmo é do festival.


dsc_8120_small.jpgA terceira banda da noite foi o Belina Mamão. O Belina é uma piada que cansou de si mesma. Ou pior, que começou a se levar a sério. O clima de banda baile que emprega arranjos sofisticados para emular – essa é a palavra – uma sonoridade brega (se considerarmos brega o tipo de música de apelo popular-romântico-cachorro, surgido em meados dos anos 70 no Brasil) não deixa de ter seus méritos, resgatando pérolas como Cofrinho de Amor, de Elino Julião. Agora se vão querer ganhar o mundo com músicas próprias, deviam começar pela Som Zoom Sat. Quero ver o dia em que eles estiverem no Faustão e disserem que foram descobertos no Mada…

dsc_8195_small.jpgAgora, o MQN. Sabe-se lá o que diabos quer dizer a sigla: o que eu sei é que o som dos caras é de fuder. No melhor estilo hard anos 70, “é Slade puro”, balbuciou Moisés Lima, com riff comendo no centro até no baixo, a clássica formação baixo-guitarra-bateria-cantordoidão funciona que é uma beleza. A participação especial de Anderson Foca proporcionou um duelo de panças de proporções eróticas. Foi o melhor show das bandas ‘pequenas’ do festival, se considerarmos que Móveis Coloniais de Acaju é grande no nome, na quantidade de gente e tocou como headliner lado B.

E então, começou o festival de horrores.

Sabe, tirando Superguidis e Cartolas, que apresentaram qualidades, as outras bandas me fizeram pensar que o cenário musical brasileiro passa por uma crise sem precedentes, bem maior que o apagão aéreo. É como se sempre andássemos a reboque do que vêm sendo produzido lá fora, correndo atrás – e pior: continuando atrás.

dsc_8707_small.jpgO Cartolas e seu vocalista, uma cruza de Mick Jaegger com Zeca Pagodinho, garantiram diversão sem grandes pretensões, bem ao gosto da jovem guarda gaúcha do século 21. E o Superguidis me pareceu mais interessante em estúdio. Ao vivo o rapaz tem que comer um dobrado se quiser ficar subindo e descendo notas daquele jeito. Quase comprometeu a apresentação do grupo.

Sabe, desde tempos remotos, o rock primou por falar de coisas fúteis. A gente que só percebeu depois de passar pelo cursinho de inglês. Mas a quantidade de baboseira nonsense que esse povo falou não foi brincadeira. O bicho pegava mais ainda quando inventavam de falar de ‘sentimento’ (foi, por exemplo, a pior parte do show do Cartolas, e a desgraça do Pública).

E a questão dos morros está longe de ser o que há de pior no Rio (alô, Tico Santa Cruz) se aquelas bandas forem realmente a nata da cena independente carioca.

O festival parece se preocupar demais em querer ser um antecipador de tendências no cenário rock, como fez ao trazer gente que estava na ponta da agulha para explodir no mercado pop nacional, como Pitty, Detonautas, Gram. E termina por trazer gente que ou está verde demais, ou que simplesmente não funciona diante das proporções gigantescas que o evento assumiu. É muito bom pra os grupos que eles possam tocar para uma platéia de cinco, seis mil pessoas, mas até que ponto, já que o público raramente sai da apatia? Ficamos então na encruzilhada das grandes multidões, que só reage ao som de verdadeiras máquinas de hits, como o Skank (mesmo que a aparelhagem sonora (bem novinho!) estivesse péssima no começo do show), ou do público de, no máximo, mil pessoas, mas devidamente espremido num espaço mais modesto. Aí tenho certeza que até o furor adolescente do R. Sigma teria funcionado. “Faltou a boyzada tomando Sapupara e agitando”, comentou um amigo. Por que faltou? Respondo: preço do ingresso, localização, custo de insumos básicos do universo rocker (cerveja). Agora me responda você: aqui em Natal, quem tem grana para um rolé desses, escuta o quê, mesmo?

Confira outras imagens do Festival (Sábado)
Fotos: Kênia Castro

23 Comentários para “MADA 2007: O futurismo russo acabou nos anos 20

Denise comentou em 7/5/2007 às 9:06 am

.
Peguei meu banquinho e tô sentadinha esperando o Festival DoSol.

Alex, quase cai do banquinho quando li o “A participação especial de Anderson Foca proporcionou um duelo de panças de proporções eróticas”!!!

Do todo, acho que faltou o pessoal cuidar da qualidade do som, porque é o que [na minha humilde opinião] mais importa num festival de música.

Enfim…
.

Lex comentou em 7/5/2007 às 9:47 am

A partir do próximo sábado, não percam Disruptores na cobertura do Festival de Música Popular do Beco da Lama, no coração do Centro histórico de Natal. Essa é a nossa chance de conquistar o desprezo também de nossos irmãos compositores. E viva o banquinho e o violão!

Mu comentou em 7/5/2007 às 10:10 am

MQN is the devil

Rodrigo Levino comentou em 7/5/2007 às 10:24 am

Quando é que o rock nacional vai ter culhões hein? Será que vamos ter sempre que citar unicamente o MQN? Senti falta de rock farofa, rock de verdade, mas isso é um sintoma nacional, o mada é apenas reflexo.

Alex, muito boa a fotografia do Festival. Como evento achei nota 10, com exceção apenas do som, que foi nota 07 (conseguir fazer 30 bandas soarem naquela correria é muito difícil).

Falta rock ao MADA exatamente porque o festvial não está sendo montado para o público roqueiro, mas daquele tamanho e com a pretensão de público que pontua o festvial é o jeito.

Não concordo com o formato mas respeito. Novamente a participação das bandas locais ficou em segundo plano (muito por culpa delas mesmas) e vamo que vamo até quando a TIM quiser!

Festoval dosol dias 0, 04 05 de agosto. Pegue ai o link da banda gringa que vai tocar para ir dando uma sacada. ROCK MODE ON!

http://www.myspace.com/thenationblue

é… acabou o MADA 2007 e este ano não tivemos um festival a altura do nome e estrutura a que ele se propõe…isso falando das atrações… pra variar a chuva atrapalhou, a localização (falta ônibus pra galera chegar e sair), o preço dos ingressos e a escalação das bandas atrapalhou bastante.
Também gostaria que tivesse mais rock no festival, mas como a maioria do público só parece ir mesmo pra ver os me(r)dalhões… não dá pra exigir muito mesmo… opa! peraí!!! se o grande público não está nem aí pra maioria das bandas independentes, bem que poderiam fazer uma bela seleção de bandas interessantes não é verdade? bom…pelo menos a cada ano estão vindo mais bandas do sul, coisa que eu sempre quis ver de perto mas a distância impede! ehehehehe
concordo com a crítica quando disseram que o mada se importa em trazer a possível nova banda a estourar nas rádios e mtvs e que as escolhas são infelizes ultimamente… puxa.. uma banda como a R.Sigma ganhar a concorrência de não sei quantas bandas? não consigo nem imagina a qualidade das concorrentes! ahahahahhaah
faz realmente muito tempo que o rio de janeiro não revela uma banda de verdade… acho que a última foi Los Hermanos e mesmo assim não é o som que me empolga…
Sei, por outro lado, que um festival desta magnitude nunca vai agradar aos gregos e troianos, mas poderiam caprichar melhor nas escolhas… afinal deste ano acho que dá pra contar nos dedos de uma mão a quantidade de bandas que realmente foram legais de conhecer o trabalho em apenas 30 min que pareceram pouco quando agradava… acho que na minha avaliação não passou de 5 a quantidade de bandas que tivesse agradado ao meu gosto pessoal.
Parabéns a equipe dos Disruptores pela divertida (e honesta) cobertura do evento!

Lex comentou em 7/5/2007 às 11:27 am

Só espero que depois de ler as resenhas que a gente fez do MADA, Anderson e Denise tenham coragem de liberar o cadastramento da gente pra cobertura do DoSol! Mas, se não derem, a gente compra o ingresso e cobre do mesmo jeito!

gabriel comentou em 7/5/2007 às 11:52 am

Não fui ao Mada, mas fiquei com a impressão que o texto é a radiografia perfeita do festival. Ótima análise!!

gabriel comentou em 7/5/2007 às 11:55 am

PS: Mas afinal, Alex, como foi o tal Russian Futurist? Tu num viu o show não??

Lex comentou em 7/5/2007 às 1:14 pm

Ora, Gabriel, já dediquei o título do artigo à banda. E é muito mais do que o que eles merecem.

Henrique comentou em 7/5/2007 às 1:46 pm

ahhahahhhahaha
é verdade! de futuristas esses caras não tem nada… um som retrô e ruim… tão datado e lento que não tinha como empolgar a galera nem se pagassem ao público pra fazer isso!
se é só pra dizer que teve uma atração internacional no evento… essa atração veio de encontro com resto da escalação: mais uma banda ruim pra completar a relação do pior mada que eu já vi.

Gabriel Medeiros comentou em 7/5/2007 às 2:00 pm

MQN = melhor que nada

foi o que descobri ontem quando perguntei a um amigo meu…
ele disse q foi uma banda de goiania que falo pra ele.

o principal problema do mada é a questão do transporte. não só do mada como do festival dosol e outros shows que acontecem o ano todo.
onde já se viu. o transporte numa capital parar de madrugada. só em interior mesmo.

o preço tá relativamente bom. considerando a quantidade de bandas e o porte do festival. basta comparar aos outros festivais que rolam por ai.
o abril pro rock que recebe 200 mil da prefeitura (ou é do governo) cobra mais caro.

MQN e Superguidis foram os melhores shows do festival pra mim. E que a jornada gonzo continua no MPBeco. Iça!

Cássio Augusto comentou em 7/5/2007 às 7:31 pm

Não é o tipo de som que gosto, mas MQN fez um dos melhores show do Mada. Superguides fez um show bacana, Cartolas também, mas continuo achando que essa galera do sul compoe música juntos. O combo gaúcho não fez feio mesmo assim.

evan comentou em 7/5/2007 às 11:29 pm

esqueceram de citar a pança do cantor do cartolas, não é uma foca ou fabricio mas é bem notavel, principalmente com aquela blusa tamanho mick jagger.

gabriel comentou em 8/5/2007 às 6:19 am

rsrs, Alex, tá legal, tá legal. Pelo que me disseram, nem o título os caras mereciam.

Mas essa questão do acesso ao show que Gabriel Medeiros lembrou é crucial. Na noite da sexta vi muito neguinho saindo do Praia Shopping pra encarar uma pernadinha de mais de cinco quilômetros até o Imirá. E a volta, que nem ônibus tinha.

Isso tb limita o público pra burro. Uma vez eu fui pro Claro que é Rock no Rio de Janeiro. Os organizadores puseram o evento prum domingo à noite na Cidade do Rock, nos cafundós de Jacarepaguá. Superestimaram a atração de público. Esperavam 25 mil e apareceu menos da metade disso.

Os ingressos, vendidos antecipadamente a 100 mangos, à certa altura da noite já eram desovados por cambistas desesperados a nada mais que 2 reais, isso mesmo, R$ 2,00 pra ver de uma vez só Iggy Pop, Sonic Youth, Nine Inch Nails, Flaming Lips, Mike Patton (do FAith no More), Cachorro Grande e Good Charlotte. Pelo que me disseeram, algo parecido aconteceu no Mada na sexta-feira.

Denise comentou em 8/5/2007 às 6:40 am

Na sexta foi isso mesmo, Gabriel, e olhe que não tinha nem uma atração como as citadas no Claro que é Rock pra deliciar o público, hein? Heheheheheh

Mas o sábado foi do MQN, mesmo com Fabrício sem som no microfone na primeira música, e o show não sendo tão perfeito como o do Festival DoSol ano passado. Eu gosto é de rock!

***

Agora bora pro MPBeco, como disse Alexis. Lá, não vai faltar meladinha, pelo menos, pra animar a galera.

Denise comentou em 8/5/2007 às 6:42 am

Sim, e se não matarem os disruptores até agosto, quero ver as resenhas do Festival DoSol, credenciados.
Mas só se chegarem a tempo de assistir desde a primeira banda, hahahahahahaha
=P

Vinícius, o Menna comentou em 8/5/2007 às 7:21 am

O MQN se garantiu. O resto é tudo chupeta de baleia.

MQN = Maximum Quantity of Noise

Acho que é isso.

Hugo Morais comentou em 8/5/2007 às 8:45 am

Como escrevi na minha resenha, o mais animado no show do Russian Futurists era Uillo sobre pernas de pau sacudindo os braços…

Gustavo Vazquez - MQN comentou em 8/5/2007 às 12:14 pm

Parabéns Disruptores, Foca, Denise e obrigado a todos bêbados que enxergam no MQN o que ela é: diversão, bacon e coração de galinha no espetinho!

Denise comentou em 8/5/2007 às 3:25 pm

.
Ei, ia ser muuuuuuuuuuuito mai bacana se as bandas lessem e comentassem, né?
Imaginem aí o rebuliço que ia dar!
Hehehehe

Gustavo, meu filho, a gente é que agradece! =D
.

“duelo de panças de proporções eróticas” :D Morrendo de rir até agora.

Até que enfim, um site que fala o que pensa, sem interferencia politica! Parabéns!

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