Musicofilia

Júpiter Maçã – uma certa tarde do c*#@%&$!

Por Alexis Peixoto - 27/05/2008

Logo de cara Júpiter Maçã, finalmente livre de sua porção Apple, entrega suas intenções: “Antes de nada eu gostaria de explicar/ Segue agora um mosaico de imagens mil”. Eis Flávio Basso, o homem por trás dos óculos vintage, explicando Uma Tarde na Fruteira no primeiro verso da faixa de abertura, a já conhecida “A Marcinha Psicótica de Dr. Soup”. No novo disco, seu melhor trabalho desde o já canonizado A Sétima Efervescência, o dândi gaúcho encontra enfim sua vocação: ser uma colagem de tudo que de relevante rolou nos últimos quarenta anos de música pop.

Talvez seja exagero colocar Júpiter Maçã como o compositor com mais personalidade a surgir em terras brasileñas nos últimos tempos. Afirmação assaz perigosa, principalmente se considerarmos que boa parte de sua assinatura nada tem de novo e é fruto de cuidadosa colheita em velhos sessentistas. Ora, a roupagem sonora é o de menos; o discurso idiota, chapado e vazio é tudo. Júpiter Maçã, esse ser andrógino e de cabelo porcamente tingido é um personagem único e solitário que profere bobagens como a música brasileira em trocentos anos de tradição nunca teve coragem de produzir. Quem mais poderia cantar versos do quilate de “Quando você der para outro cara/ Lembre-se que alguém se masturba/ Pensando em você” sem soar cafajeste, mas pior, perfeitamente crível?

Munido dessa certeza, o sujeito prepara outra jarra de chá de cogumelo e decide abandonar suas aventuras anteriores por terrenos pouco seguros (a bossa psicodélica de Plastic Soda e as barulhices eletrônicas de Hisscivilization) e aposta no que sempre soube fazer bem. A saber, rock chapado, garageiro e com ares de “me ouça agora porque posso ter um troço antes do fim dessa frase”. Só que aqui a fórmula é acrescida de uma obsessão súbita pela sonoridade tropicalista e de um verniz, digamos, nacional nas letras que vão de universitários militantes ao aos retirantes nordestinos.

Por essas e outras, Uma Tarde na Fruteira pode e deve ser entendido como uma grande carta de intenções. Nas 14 faixas do disco estão debulhadas todas as referências – sonoras ou não – que compõem o estranho mundo de Júpiter Maçã. Do tropicalismo mutante (“Um sorvete com vocês”, “A Marchinha Psicótica de Dr. Soup”, “Viola de Aço”), aos Beatles fase Rubber Soul (“Beatle George”, “Síndrome do Pânico”), Syd Barret diluído em gauchês (“As Mesmas Coisas”) e desembocando na auto-referência (“A Menina Super Brasil”, espécie de seqüência otimista de “Miss Lexotan 6mg”, de A Sétima Efervescência).

Não pelo acaso desse ser o primeiro trabalho totalmente cantado e falado em português do artista em doze anos, Uma Tarde na Fruteira é o álbum mais brasileiro (tanto nos temas quanto na sonoridade) da interessante ainda que irregular carreira de Júpiter Maçã. Na busca por timbres e referências que o levou da ensolarada Costa Oeste dos Estados Unidos ao clima nublado da Carnaby Street, o chapadão acabou achando o que tanto procurava nos bolsos de seu casaco de veludo roxo.

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