Por Alexis Peixoto - 16/12/2007

Os Hives são sobreviventes. Sobreviveram à malfadada “geração de ‘00” porque sempre foram movidos pelo princípio ativo que move todas as boas bandas de rock: a diversão. Sem as idiossincrasias de um White Stripes, a pose forçada dos Strokes ou a absoluta falta de talento dos Vines, a banda corre pro abraço em The Black And White Album, seu quarto rebento.
Porém, há algo de errado no reino escandinavo. A fórmula habitual da banda, calcada em acordes econômicos e melodias lineares não se garante muito além do primeiro single, “Tick Tick Boom”. Espertos, os Hives não querem virar os Ramones desta década, i.e., uma banda que até quem nunca ouviu mais do que uma música sabe o que vai encontrar nos discos, quer eles tenham sido lançados agora ou vinte anos no futuro. O clima de sabotagem benigna dá o tom do álbum em vinhetas instrumentais, pianos, palmas e guitarras mais preocupadas com texturas do que com barulho. O ouvinte desavisado pode até estranhar num primeiro momento, mas depois de uma ou duas audições mais cuidadosas fica difícil imaginar como era possível gostar e aceitar a existência dos Hives sem os teclados à Pixies (circa Bossanova e Trompe Le Monde), sem a veia explicitamente funky, e a influência de Devo, sempre presente, pouco notada e nunca tão escancarada quanto agora.
Óbvio que vai desagradar muita gente. E pra esses, o caminho mais fácil é botar a culpa na produção de Pharrel Williams, e acusar a banda de se associar ao tipo de gente que produz as bundas e os bíceps da moda – tendo aí como o agravante a participação deles no disco de Timbaland, no começo do ano. Nada a ver, pelos seguintes fatores que nomeio a seguir: 1) Por mais que já tenha produzido um monte de porcarias, Pharrel sabe apertar os botões. A prova é que as faixas de The Black And White… que têm o dedo dele estão entre as melhores do disco. 2) Ninguém, em sã consciência, agüentaria outro disco dos Hives falando sobre vagabundagem e delinqüência juvenil embrulhados em três acordes – o que torna, por exemplo, “Square One Here I Come” uma faixa mais ou menos dispensável. Conclusão: as tais inovações estéticas são mais fruto de um (acertado) planejamento artístico da carreira do que de uma tentativa de se integrar ao mainstream.
A mudança, aliás, nem chega a ser tão inesperada assim. Basta ouvir o álbum anterior, o subestimado Tyrannossaurus Hives (2004), pra perceber que a vontade de quebrar o molde já existia ali, ainda que de forma latente. Afinal, é essencial que a banda se interesse pelo que faz para que o tal combustível que a move possa ser extraído. E aqui, mesmo com a velocidade desacelerada, o suco escorre. Vá direto em “T.H.E.H.I.V.E.S.”, a melhor música que os Stones não escreveram na década de 80, e comprove. Ou bata os pés no chão com “You’ve Got it All… Wrong” e acompanhe as palmas e o coro de “Well All Right!”. E pelo amor de Deus, abra logo uma cerveja que Hives não é som pra se ouvir careta.
Segundo bem apontou nosso intrépido colaborador e espeleólogo desportista Tiago Lopes, a chave para se entender The Black And White Album, está escondida no breque de “Try It Again”, quando Howlin’ Pelle Almqvist aproveita a pausa para dar a definição de loucura, segundo os Hives. A saber: continuar fazendo a mesma coisa, mas esperando resultados diferentes. É, de fato, a melhor definição para o disco. The Black and White Album é o Hives de sempre, causando um impacto novo. O resultado é um dos discos mais bem vindos de 2007.
Do jeito que as coisas vão nesses tempos bicudos, esta pode ser a última banda realmente relevante daquela promissora (sic) leva surgida há míseros sete anos atrás, haja vista que foram um dos poucos que perceberam e entenderam a necessidade de uma mudança de rumos na carreira e, entre estes, os únicos que conseguiram realizá-la direito (Kings of Leon, alguém?). O próximo disco, quando vier (e SE vier, nunca se sabe) pode ser definitivo. E tomara que seja mesmo. Os Hives, agora mais do que nunca, merecem ser a sua nova banda favorita.
Fábio Farias comentou em 18/12/2007 às 2:32 pm
ouvir a primeira faixa desse CD já da vontade de se embriagar
Hugo Morais comentou em 21/12/2007 às 7:17 am
BOra tomar uma ouvindo o disco?
Daniel comentou em 22/12/2007 às 7:43 am
Finalmente!
Já era hora de lançarem outro.
Kai comentou em 23/12/2007 às 4:08 pm
“Square one here i come” definitivamente não é uma faixa dispensável. ¬¬”
Adorei a matéria. =P
Marcio comentou em 26/4/2008 às 4:12 pm
Mutcho bom!
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