Por Alexandre Honório - 18/12/2006

Música crua. Os primeiros discos de Nick Cave e seus Bad Seeds transpiravam crueza. Não é, portanto, estranho que Cave, para desviar dos caminhos ora percorridos com discos como Abattoir Blues/The Lire of Orpheus (2005) ou Nocturama (2003), tenha optado por um projeto-paralelo e retomar uma atmosfera mais visceral que já lhe fora particular. Disso, claro, surgiu Grinderman: um quarteto amargo, raivoso e, tanto quanto os primeiros anos de Bad Seeds, visceral.
A banda, na verdade, é o “bom e velho” Nick Cave & Bad Seeds. Uma banda, no entanto, com outra postura; remoendo idéias antigas que mereciam atenção e remontando-as. As canções são secas; ásperas, na realidade. Escutando Grinderman, o álbum homônimo – e que caiu na rede há alguns dias, sendo que somente será lançado em março –, é recorrente a comparação com os primeiros anos de Bad Seeds (notadamente álbuns como From Here To Eternity e Your Funeral…My Trial). Mas é escutando a trilha de A Proposta, longa cujo roteiro foi escrito por Cave, que afundamos um pouco mais no envolvente lodaçal deste novo projeto. Grinderman, o disco, mostra quais cartas Cave traz nas mangas: uma jaqueta surrada, uma garrafa de bourbon, um balcão e a inevitável reunião entre iguais…
Get It On, canção que abre o disco é puro garage – com um gostinho à Cave, claro; a faixa te conduz a um ambiente carregado, enfumaçado e repleto de supostos perdedores. A imagem é irônica: “I’ve got to get out and start all over again/Keep those white mices and black dogs out(…)/ Keep those baboons out and all the motherfuckers in”, reza a abertura do primeiro single da banda.

Outra canção emblemática é No Pussy Blues. Nela Cave canta suas desventuras em tentar conquistar uma, digamos, boa noite de patifaria. “I read her Eliot, I read her Yeats/I tried my best to stay up late/I fixed the hinges on her gate/but still she just never wanted to(…)/I got the no pussy blues”, canta um “ansioso” Nick Cave.
Engraçado, mas esta canção me remeteu a algum conto de Bukowski – outro grande conhecedor da alma feminina e dos livros que importam. Como Bukowski, Cave envereda pelo “caminho dos supostamente derrotados”; No Pussy Blues é, portanto, uma antipática ode à má-vontade feminina. Um detalhe: a faixa abre com batidas de uma velha máquina de escrever…
Em When My Love Comes Down (Vortex), Cave nos mostra o que significa fazer uma canção de dor-de-cotovelo. Vortex é uma das canções que figurariam seguramente em Boatman’s Call (1996). Inspirado, Cave nos conduz por um terreno que, acompanhando a discografia dos Bad Seeds, ele aparenta conhecimento de causa: o amor, seus riscos e, mais que isso, com poucas palavras, suas desventuras. “When my love comes down/Down to see you/I just want to be with you(…)/Come on, come in/Step into the vortex where you belong“.
Daí por diante o álbum segue em um crescendo, como alguns dos discos mais inspirados de Cave – Murder Ballads (1996) e Henry’s Dream (1994). Mesmo sendo um disco-projeto paralelo, Grinderman mostra a boa forma de Nick Cave e seus Bad Seeds: Warren Ellis, Martin Casey e Jim Sclavunos. Mostra também que, diante da pouca inspiração em voga por aí, retomar alguns temas caros à carreira pode render alguns bons frutos..
Alexis comentou em 19/12/2006 às 5:17 am
Vou procurar ouvir. Confesso que tenho uma certa deficiência musical e conheço bem por pouco a obra desse figura. Já tá na hora de corrigir essa p***a!!
Alexis comentou em 19/12/2006 às 5:23 am
I mean, não conhecer bem a obra da criatura citada é que é uma deficiência. Não que eu seja deficiente… ou não. Ah, você entendeu. Bom texto, capitão.
Alex comentou em 19/12/2006 às 2:04 pm
Amigo véio, esse Warren Ellis da banda é aquele que a gente conhece, ou é só mera coincidência?
Alexandre Honório comentou em 19/12/2006 às 2:50 pm
Nã… É só coincidência mesmo…
O cara é violinista e foi o autor da trilha de “A Proposta”. Desde 1995 o figura tá no Bad Seeds e tem uma outra banda chamada Dirty Work…
Aí seria demais, não é?
Alexis comentou em 19/12/2006 às 5:26 pm
Confesso que também pensei nisso.
Carlos Gurgel comentou em 21/12/2006 às 11:57 am
Visceralmente ácido, totalmente lisérgico e absurdamente provocador de revelações e intuições sonoras. Lendo-o é como se tivessemos fazendo parte do front, dos deboches e das infinitas farras, noites sem fim, de quem escolheu o rock como música de cabeçeira.Yeah!
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