Por Alexis Peixoto - 15/09/2007

Depois de rodar o país nos principais festivais independentes, ter clipe concorrendo a prêmio no VMB e cunhar o hit indie de 2006, o quinteto cuiabano Vanguart finalmente solta o seu esperado disco de estréia. Pior: não só lança disco, como o faz através da revista da inclassificável criatura Lobão, a já conhecida OutraCoisa, disponível em bancas espalhadas por todo o Brasil.
No papel, parece muito bonito. Uma banda independente de qualidade inquestionável embalada junto a uma revista de distribuição nacional poderia cobrir o terreno que falta para derrubar a barreira entre o underground e o mainstream, consagrando-se de vez no gosto do populacho. De fato, poderia, não fosse a falta de estofo do disco, que passa longe do verdadeiro potencial da banda.
Depois de grande refestelação por parte da crítica, o Vanguart se transformou numa banda se não grande, no sentido mercadológico da palavra, certamente maior do que jamais foi, com passaporte carimbado até para duvidosos especiais-tributo da Rede Globo. “Semáforo”, o tal hit e segundo alguns, “hino da geração 00″, já abre o disco dando a pista de que os integrantes da banda estão muito cientes disso: o “Eu não ouço você” da letra passou do singular ao plural, já que agora eles se apresentam para platéias bem maiores que, por conseguinte, fazem um silêncio maior. Ou algo parecido. A verdade é que Hélio Flanders (vocal e violão, nenhum parentesco aparente com o vizinho carola de Homer Simpson) e seus asseclas estão perceptivelmente mais seguros no novo registro sonoro do que nos EPs que circulam pela internet há algum tempo. Confiança no próprio taco, porém, não é garantia de vitória. Talvez tanto “relax” na hora de gravar tenha feito com que alguns botões na mesa de som tenham saído da experiência intocados. Resultado: um disco com um número de canções aproveitáveis acima da média, mas sem punch, com sonoridade inofensiva de jingle de rádio rural.
Quem já viu o Vanguart ao vivo e já deitou a orelha nas gravações anteriores da banda, sabe que o elemento condutor nos arranjos sempre foi o violão de Hélio. Ora agressivo e cru à Gordon Gano, ora delicado feito Dylan na fase country, o instrumento fazia toda a diferença nas versões originais das faixas que entraram no álbum e até em algumas que ficaram de fora (“Last Express Blues” e “Spanish Woman”, pra citar duas ausências sentidas). No disco, gravado em um estúdio que a matéria da OutraCoisa diz ser “o top de Cuiabá”, as cordas de aço soam tão domesticadas quanto num disco de Bryan Adams. O teclado sempre pertinente de Luiz Lazzarotto também não comparece como deveria. Pode até ter sido opção da banda seguir uma linha mais “clean”, mas que deixou a desejar, deixou.
Os melhores momentos do álbum estão nas incursões pela língua pátria, que compõem quase a metade do repertório. As letras – independente do idioma – seguem poéticas, dramáticas e, vamos admitir, um tanto exageradas. Curiosamente, essas, digamos, peculiaridades literárias, só chegam a incomodar de verdade nas faixas cantadas em inglês. Um verso do quilate de “Dream about the one you love/This way you’re gonna fill the world with love” (“Dream About Your Love”) dói muito mais nos ouvidos do que “Pra trazer uma nova manhã/Pra mim e pra sua irmã” (“Cosmonauta”). Isso talvez se deva a uma vontade de rebuscar demais o texto, o que acaba comprometendo a métrica – e o bom senso – da letra.
Por outro lado, quando escritas e cantadas em português, livre do complexo de Shakespeare juvenil, as canções ficam bem mais resolvidas melodicamente. Composições novas como “Enquanto Isso Na Lanchonete” e “Para Abrir Os Olhos”, dão de capote em velhas conhecidas dos fãs como “Hey Yo Silver” ou irmãs da nova fornada, como a chatíssima “The Last Time I Saw You”. As faixas em português podem até ser só “uma faceta” da banda, como os próprios integrantes fazem questão de deixar claro, mas são, de longe, a melhor justificativa para a existência do disco. Nelas é que a banda consegue apresentar algo realmente novo e empolgante, sem perder de vista as influências óbvias de Dylan, Johnny Cash e Buffalo Springfield, e – detalhe importante – sem jeito de naftalina sonora.
Levando em consideração que Vanguart, o disco, não é exatamente a apresentação da banda, mas sim uma espécie de conclusão de uma fase, fica fácil relevar seus muitos defeitos. Afinal, aqui está uma banda que soube extrair algo em seu favor a partir do súbito interesse no circuito independente brasileiro que acometeu algumas emissoras de TVs e cadernos culturais descolados. Enquanto grande parte de seus colegas de segmento ainda suam os cornos tocando em botecos e festivais mambembes nos cafundós do Judas, o Vanguart segue em trajetória ascendente, ainda que folk-rock não seja exatamente o prato do dia no cardápio da geração orkut.
Que eles serão lembrados como uma das bandas mais interessantes surgidas no Brasil nesta década é algo já garantido. Que este disco venha a ser apontado como um dos pontos altos da carreira da banda é pouco provável. Para o próximo rebento, recomenda-se mais feijão na hora do almoço e menos vinho chileno nas noitadas. Uma “cachaça certeira” talvez seja o que falta para o Vanguart provar que pode ser tão incendiário – e dramático e poético e exagerado – em disco quanto é no palco.
Lex comentou em 19/9/2007 às 6:07 am
Pô, gostei do disco! Realmente as observações que você fez são pertinentes – pra quem é piolho do universo indie. Como não tenho essa preocupação e tive o cuidado meticuloso de perder todos os shows realizados pela banda em Natal, a primeira impressão é a que ficou. E eu adorei o disco, cansado que estou de Cascaduras e guitarradas barulhentas/parecidas/aborrecidas espalhadas pela ‘scene’.
Também reparei na influência do Buffalo Springfield, foi uma das primeiras coisas que me vieram à cabeça durante a audição do disco. O que achei interessante foi que conseguiram isso sem parecer datado.
gabriel comentou em 23/9/2007 às 6:59 pm
o disco eu não ouvi ainda, mas a capa ficou boa!
James comentou em 10/10/2007 às 3:48 pm
Senti falta de Rainy Day Song, Spaniss Woman, Last Express Blues, entre outras, mas acho o cd muito bom e as músicas em inglês melhores que as em português.
Cáh comentou em 10/1/2008 às 9:33 am
poxa vanguart arrasa mesmo…hélio tem uma voz impressionante o que inevitavelmente o torna atraente a nós pobres mortais..rsrsrsrsrs…
alguém tem o email dele??
mandem pra mim por email…bj
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