Musicofilia

Danger Mouse e sua polêmica e alegórica noite sombria da alma

Por Alexandre Honório - 19/05/2009

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E eis que em um ano repleto de possibilidades, novidades e pretendentes ao trono de “Melhor Disco de 2009″:  Danger Mouse And Sparklehorse Present: The Dark Night of Soul, do produtor e entidade onipresente Danger Mouse, surge envolto em polêmica, participações especiais (algumas até difíceis de entender) e uma sonoridade digna de conduzí-lo ao Olimpo das listas de melhores do ano.

The Dark Night of Soul é sombrio na medida certa e envolvente como praticamente todos os trabalhos anteriores de Danger Mouse – seja seu Gnarls Barkley ou seus projetos de produtor. Neste trabalho de “autor” Danger Mouse sacou o Sparklehorse do bolso, convidou interpretes diversos para levar a cabo suas composições e saiu-se com um álbum brilhante.

Entretanto, antes de mesmo de ganhar as lojas, The Dark Side of Soul conquistara seu quinhão de polêmica ao evidenciar a discordância entre Danger Mouse e sua gravadora – a EMI. Mouse decidiu presentear os fãs com um CD-R em branco. Em branco???

Sim, virgem, cristalino e sem dados. Depois de uma briga com o estúdio, Danger Mouse decidiu que o melhor a fazer como protesto contra o tratamento que seu projeto vinha recebendo do estúdio seria entregar ao ouvinte um rico encarte, farto em fotografias e imagens concebidas por David Lynch, e o famigerado CD-R. Um “estímulo” para que o ouvinte possa “preenchê-lo como bem entender” e fincar mais um prego no caixão de uma indústria que não mais consegue perceber seu lugar.

A idéia é não só uma afronta a tal indústria, mas, mais que isso, uma declaração de princípios – uma vez que Danger Mouse foi um dos precursores do mash-ups, quando mixou Álbum Branco dos Beatles com o Black Album do rapper Jay Z e terminou parindo o indispensável The Grey Album, de 2004.

darknight_coverEntretanto, The Dark Night of Soul é sobretudo, mais até que a polêmica que o cerca, um disco irrepreensível em seus propósitos e merece audição urgente dos bons ouvintes deste século. Reunindo nomes como o já citado Sparklehorse e mais Wayne Coyne (The Flaming Lips), Frank Black (Pixies), Iggy Pop, Julian Casablancas (The Strokes) e David Lynch (fazendo alguns vocais e responsável pela concepção gráfica do projeto), The Dark Night of Soul se mantém equilibrado em suas trezes canções nada alegres.

São muitos os pontos altos do disco. Revenge, com o Wayne Coyne, abre o disco de forma magistral. A canção parece saída de algum disco perdido do Flaming Lips – entre o The Soft Bulletin e o Yoshimi Battle The Pink Robots – e logo salta como um dos grandes momentos do disco. Just War, interpretada por Gruff Rhys (Super Furry Animals) salta como outro ponto alto do disco, assim como Angel’s Harp, interpretada por Black Francis (ou Frank Black, se preferir). Como Revenge – remetendo aos trabalhos recentes do Flaming Lips -, Angel’s Harp também detém certa conexão com os trabalhos solo de Black.

As participações de Julian Casablancas (Little Girl) e Iggy Pop (Pain), apesar de bacanas, não surpreendem – no caso deste último surpreendente mesmo é Préliminaires, disco de Jazz do “Iguana” que vem causando um misto de arrepio e curiosidade mundo afora.

Outra participação, por sua vez, que impressiona fica a cargo de Jason Lytle (ex-Grandaddy e atualmente em carreira solo). Jaykub e Everytime, I’m With You despontam. As duas canções demonstram que o talento de Lytle não arrefeceu com o término do Grandaddy. Dois dos melhores momentos do disco.

Saída de algum lugar da Suécia, eis que ressurge Nina Persson emprestando sua voz em duas canções: Daddy’s Gone e The Man Who Played God. Danger Mouse And Sparklehorse Present: The Dark Night of Soul se despede com duas canções do bardo folk Vic Chesnut. Grain Augury e a faixa-título, The Dark Night of Soul, encerram irregularmente o disco.

Danger Mouse And Sparklehorse Present: The Dark Night of Soul, entretanto, além da polêmica que cercou seu lançamento, desponta, como afirmo no início, como um dos melhores discos de 2009. Mesmo que na medida do possível, novamente Danger Mouse acerta a mão – e a polêmica fica a reboque…

Confira Angel’s Harp com Black Francis

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