Por Alexandre Honório - 07/04/2007

Foi com golpes de picareta e uma celebração daquelas que a Guerra-Fria se despediu do século passado. Claro, a ressaca dura até nossos dias. Alguns anos se passaram até que nos descobríssemos órfãos ideológicos daquele período em que, preto & branco, o mundo encontrava-se ideologicamente cindido; um vazio ideológico, diga-se.
Talvez este seja o mote de Robbers & Cowards – ou seu fardo -, álbum de estréia do Cold War Kids. Apesar de toda atmosfera descolada que perpassa boa parte do disco, a sensação que temos ao escutá-lo é que, como “filhos da Guerra-Fria”, a banda não ainda encontrou seu lugar no mundo.
Capa do álbum Robbers & Cowards do Cold War Kids
Robbers & Cowards é irregular; como o embate entre capitalistas e comunistas, tem seus altos e baixos. Irregular, é verdade, mas isto não significa que este seja ruim. Como todo disco de estréia, são muitas as direções apontadas pelo quarteto.
Contanto que não sofram do mesmo mal de muitas das bandas college que surgiram nos últimos cinco anos – “primeiros discos, ok; álbuns seguintes, desce a ladeira” -, eles detém um futuro promissor.
Nomes do quilate de Velvet Underground, Bob Dylan e Billie Holliday são apontadas pela banda como suas principais influências; uma espécie de mapa ou definição de sua sonoridade. No entanto, é com seus contemporâneos que o Cold War Kids apresenta certas e descaradas afinidades.
Não é estranho, mas os vocais de Nathan Willett assemelham-se aos de Jack White; o flerte com as raízes do blues – outra fonte de inspiração do quarteto – também é digna de menção pela proximidade do “white stripe-mor“. Isto é ruim? Não, de modo algum…
Como disse, Robbers & Cowards é bacana, mas possui certa irregularidade. É nítida a impressão, lá pela metade do disco – quando chegamos a Passing The Hat -, de que o caldo desandou por algum motivo. Não chega a comprometer a experiência musical, mas é perceptível certa dificuldade em manter a “bolacha” estável e palatável; como se, para garantir uma quantidade de faixas mínimas, tivessem que gravar “qualquer coisa”.
A própria Passing The Hat, mesmo não figurando entre minhas favoritas, detém algum brilho. Como um produto bruto, inacabado, esperando os retoques de seu criador, a canção parece clamar por mais atenção. Robbers & Cowards sofre de mal semelhante.
A grande faixa do disco é Hang Me Up To Dry. Dona de uma levada hipnótica, a canção é o carro-forte do Cold War Kids – ratificando a máxima de que a maioria das bandas desta geração traz em suas mangas um hit como cartão de visitas. Esta dinâmica, por sua vez, não é de toda ruim, já que uma sucessão de one-hit-wonders rende ao menos uma boa coletânea (perguntem-me sobre isso daqui a alguns anos…).
O álbum de estréia do Cold War Kids não salvará sua vida; não tem sequer a pretensão de fazê-lo. Certamente também não passará muito tempo em sua memória. Um dos reflexos do fim da Guerra Fria e do aparente esvaziamento ideológico que se seguiu foi a amplificação de nossa porção mais imediata; a urgência parece ter substituído de uma vez a apreciação.
Robbers & Cowards não vai recompor sua fé no futuro da música – se esta precisa realmente ser recomposta; o álbum demonstra que, sim, continuamos navegando por águas sem maiores novidades, mas garante alguns bons minutos de abstração musical. Seus sentidos podem, afinal, não estar totalmente integrados à ordem vigente. Consuma o álbum…
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Alexis comentou em 9/4/2007 às 5:46 am
Eu acho o nome da banda muito massa. O som dos caras ainda está bem “verde”. O disco é irregular mesmo e algumas faixas merecem realmente a alcunha de ENFADONHAS. Mas, se não supreendem, ao menos prometem. Cumprir, já são outros 500.
[...] Fonte:(Disruptores) [...]
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