Por Alexis Peixoto - 18/11/2006

Certa feita, lá pelas tantas horas de uma noite de quinta-feira, João Gordo entrevistava o filho favorito da família Suplicy. Sem meias palavras, o redondo apresentador perguntou à figura de cabelo loiro e espetado e terno impecavelmente branco se ele se considerava punk. O entrevistado deu de ombros: “O que é punk pra você?”, respondeu simplesmente.
Chegamos aqui a uma encruzilhada. “Punk”, o termo musical, explodiu no fim da década de 1970 e atravessou os anos subseqüentes atachado à nomes como The Clash, Sex Pistols e Ramones. Historicamente, começou mesmo nas garagens sessentistas dos Sonics e Trashmen, pulou pra Nova Iorque, onde o Velvet Underground destilava toda a sua violência artê, e pra Detroit onde MC5 e Stooges se encarregavam de tocar o terror.
No entanto, tamanha explosão cultural não se restringe somente aos acordes esmurrados e as letras niilistas: “punk”, como fênomeno, se alastrou como um verdadeiro vírus que, usando a música como agente transmissor, contaminou a literatura, o cinema, as artes plásticas, a moda e, à frente de tudo isso, o comportamento jovem. Doença, então, das mais hediondas. De súbito, como num filme de ficção científica, todos descobrem que a epidemia que contamina a cidade já existia desde o início dos tempos e que dela é que dependem as engrenagens que mantêm a sociedade funcionando. Trocando em miúdos: o punk, como definição comportamental, já existia bem antes de Iggy Pop e, arrisco dizer, antes até do rock’n roll.
Deixando de lado as manifestações artísticas que poderiam ser listadas aqui (dadaísmo, surrealismo, beat generation, etc, etc.), não seria de todo absurdo etiquetar Bob Dylan como um dos primeiros artistas pop a adotar uma postura que, anos mais tarde, seria definida como punk. No sentido mais cru da coisa, Dylan resolveu fazer ele próprio o que ninguém faria. Ligou um imenso letreiro de “foda-se” ao seu público e aos seus bajuladores habituais e, mesmo fracassando na opinião da crítica, conservou um discreto sorriso de vitória no rosto. Matreiro, o homem sabia que estava certo e que todos os outros é que estavam cegos e errados.
How does it feel?
Percorrendo em pouco tempo as posições nada confortáveis de garoto-prodígio, novo gênio e, por fim, porta-voz de uma geração, Dylan logo se cansou da coisa toda. A fama parecia um bocado interessante em seus primeiros meses em Nova Iorque, quando tocava em clubes enfumaçados do Village, dividindo o palco com comediantes, atores e mágicos. Dois discos e muita babação de ovo depois, Dylan já enxergava a sinuca de bico em que o haviam colocado. Convencido de que o formato ortodoxo da música folk era pequeno demais para o que tudo o que ele tinha a dizer, resolveu entortar um pouco as coisas, deixando de lado os temas engajados e investindo em letras de cunho poético/pessoal.
Antes que você possa dizer “Lou Reed”, o sujeito passou a ser acusado de trair o movimento, inclinando sua música para um lado mais comercial. Não satisfeito, Mr. Zimmerman fez pior. Em 1964, depois de um tête-à-tête com os Beatles, viu a luz na enfumaçada atmosfera de um quarto de hotel e subitamente percebeu qual era o elemento que faltava para chocar de vez as quadradas mentes universitárias que insistiam em lhe lamber as botas: uma dose do velho remédio de Ben Franklin.
Quando adolescente, Dylan havia sido um roqueiro topetudo, líder de uma banda de rock’n roll com os amigos da escola. Era fã de Litte Richard, Buddy Holly e Elvis, influências há muito tempo deixadas de lado, desde que saíra de casa pra perambular pelas Cidades Gêmeas de Minnesota. Agora, com um simples giro no dial do rádio, qualquer um podia ouvir todos aqueles grupos ingleses, se esforçando para soarem como os grandes americanos da década de 50.
E foi como uma resposta à invasão britânica que Dylan batizou seu álbum daquele ano: Bringing It All Back Home (Trazendo Tudo de Volta Para Casa, em bom português), abria com o riff chuck-berryano de “Subterranean Homesick Blues”, o que deve ter arrancado os dentes dos xiitas folks. O lado A do disco era 100% elétrico, indo de doces baladas folk-roqueiras como “She Belongs To Me” e “Love Minus Zero/No Limit” à pérolas garageiras como “Maggie’s Farm” e “Outlaw Blues”. No lado B, Dylan sozinho com o violão, mas longe de se comportar, destilava toda sua poesia beatnik em faixas longas e, muitas vezes, herméticas.
Continuando a “festa de má criação”, no ano seguinte Bob Dylan ainda deu um jeito de sabotar o Festival Folk de Newport, quando, na condição de head-liner, subiu ao palco acompanhado de uma banda de blues, sendo bombardeado por uma chuva de vaias logo em seguida. Na seqüência lançou um disco destruidor, puxado por um single idem: Highway 61 Revisited, que trazia “Like a Rolling Stone”, canção escolhida pela revista britância Uncut como o momento mais importante da cultura pop do século XX, numa votação do ano passado.
Carrying my trouble…
Apesar de acusado de vendido, traidor e o que mais você puder pensar, Dylan não deixou de ser bombardeado pela imprensa musical, ávida atrás de uma grande resposta para a mudança brusca. Surdo a tudo isso, o próximo passo dado foi formar uma banda e cair na estrada.
Logo, Dylan começava sua famosa turnê híbrida, acompanhado dos canadenses do The Hawks, que ele roubara do cantor de bar Ronnie Hawkins. A idéia era tão simples quanto impactante: na primeira metade do show, Dylan tocaria sozinho, no velho formato folk. Depois, entrariam os Hawks para a parte elétrica do concerto. Depois de três shows, a recepção foi violenta. Na parte acústica, a platéia se limitava a ouvir e aplaudir timidamente entre uma canção e outra.
Quando a banda entrava no palco, as vaias e os gritos de “Fora!” comandavam. Logo, o baterista dos Hawks, Levon Helm, pediu as contas e se mandou para o Golfo do México, onde foi trabalhar em de plataformas de petróleo. Dylan, por outro lado, nem se abalava. Parecia realmente não dar a mínima para as reações da platéia. Artista coerente como sempre foi, se interessava em primeiro lugar em fazer o que queria e da maneira que queria, independente de como outros pudessem reagir a isso.
A turnê começou oficialmente em fevereiro de 1966, já sem Helm que, mais tarde, seria substituído por Mike Jones. Entre uma brecha e outra nas datas, Bob se esgueirava até Nashville, onde começava a gravar aquele que seria um de seus melhores álbuns, o duplo Blonde on Blonde.
Foi em maio, depois de passar por Austrália, Suécia, Dinamarca e Irlanda que a turnê chegou à Inglaterra. Àquela altura, a reação da platéia oscilava entre a frieza e a agressividade. Dylan e a banda, em contrapartida, seguiam ligadíssimos, consumindo tijolos de haxixe como se fosse rapadura.
Alheio às vaias e revolta de seus “seguidores”, Dylan dispara: “Liar”No dia 17 de maio, a banda se apresentou no Free Trade Hall, em Manchester, com Dylan entupido de anfetaminas. Como de costume, o set acústico do show foi bem recebido, ainda que de forma contida. Durante a segunda metade, com os Hawks plugados no último volume, surpreendentemente podia-se ouvir alguns tímidos aplausos em meio às vaias. Bob, com a voz encharcada de segurança, desconstruía sem dó antigas faixas de seu repertório, como “One Too Many Morning” e “I Don’t Believe You”, transportadas do formato acústico para os acordes pungentes da guitarra de Robbie Robertson. As canções da fase nova também ganhavam um peso extra no palco. “Leopard Skin Pill-Box Hat”, ficava ainda mais crua e despojada, ao passo que “Just Like Tom Thumb’s Blues”, ganhava um novo arranjo, mais agressivo.
Antes da última música, num raro momento de relativo silêncio, alguém grita da platéia: “Judas!” e é logo fortemente aplaudido pelos demais. Dylan se aproxima do microfone e, cortante, replica: “I don’t believe you… you’re a LIAR!”. E, virando-se para a banda, já nos acordes iniciais de “Like a Rolling Stone”, ordena: “Play fuckin’ loud!”.
Catarse
É a imagem dessa apresentação que fecha No Direction Home, documentário de Scorcese sobre Dylan. E para os incautos que não acreditam em tudo que lêem, o registro sonoro compõe o volume 4 da Bootleg Series, lançado em 1998.
You got a lotta nerve
O episódio do show de Manchester ilustra bem o espírito da turnê e do momento que Dylan vivia. Aqui estava um artista consagrado e que, de repente, passou não só a desagradar, mas a irritar seu público. Ao invés de desistir ou se encolher dentro de uma mansão, Dylan seguiu em frente, numa atitude de integridade artística poucas vezes vista antes ou depois. De alguma forma ele sabia que, mesmo em meio à tanta hostilidade, havia algumas cabeças mais bem desenhadas que compreendiam e gostavam do que ele fazia. A prova definitiva dos nove havia aparecido antes mesmo do braço britânico da turnê e do show em Manchester: Blonde on Blonde se mantinha em 9º lugar nos Estados Unidos e o single de “Rainy Day Women #12 & 35”, confortavelmente ocupava o 2º lugar nas paradas radiofônicas.
A thousand miles behind…
Depois de mais dois shows em Londres, Dylan voltou para casa. Tanto ele quanto os Hawks retornaram mudados da turnê. Bob deu um tempo nas turnês, recolheu-se em sua casa, recusou convites para tocar em Woodstock e pode ter sofrido ou não um acidente de moto quase fatal. Só voltaria a gravar em 1968, quando soltou o minimalista e acústico John Wesley Harding, diretamente oposto à sujeira notívaga e anfetamínica de Blonde on Blonde.
Os Hawks, com a volta de Levon Helm às baquetas, logo se transformaram em The Band. Mudaram-se para uma bizarra mansão cor de rosa nos arredores da casa de Dylan, onde faziam intermináveis jams com o cantor. Essas faixas depois foram reunidas no sensacional duplo The Basemente Tapes. Seguiram década de 70 adentro fazendo bons discos como o seminal Music From The Big Pink, que incluía duas faixas assinadas por Dylan.
As duas partes se encontrariam novamente em 1974, numa nova turnê, desta vez ovacionada por público e crítica.No mesmo ano, Dylan gravaria o álbum Planet Waves, tendo a The Band como grupo de apoio.
A influência de Dylan e de sua turnê elétrica, deu belos frutos ao rock, tanto musicais quanto comportamentais. Ou de onde você acha que veio essa história de incluir letras poéticas sob uma base barulhenta?
O passeio pelo lado selvagem, indie boy, começou bem antes do que você imagina.
Alexandre Honório comentou em 18/11/2006 às 11:12 am
Li os cinco primeiros parágrafos, cabrón. Como o “catatau” exige atenção, lerei o restante na seqüência.
Não concordo que Bob Dylan tenha sido o pai da cria – ou mesmo um dos seus “motores” -, mas não dá pra negar que muito dele está nas canções de muitos ditos punk.
Patti Smith, Lou Reed e Richard Hell não me deixam mentir…
Alexis comentou em 18/11/2006 às 11:30 am
O pai, realmente, ele não foi. Mas ele fez o que fez.
Davi Gustavo Matias comentou em 18/11/2006 às 3:29 pm
Grande texto amigo (literalmente e figuradamente falando)!
Alex comentou em 4/12/2006 às 8:23 pm
Na verdade, o pai do punk é o Nat King Cole.
Lola comentou em 27/12/2006 às 4:30 pm
Escreva aqui…
Muito bom este texto sobre o maior rocker da historia.
O primeiro volume do livro das cronicas e o filme de Scorcese com certeza esclarecem muita coisa, ainda que seja apenas o inicio da vida e obra do extraordinario cantador judeu de Minnesota.
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