Musicofilia

Black Lips: Feios, Sujos e Insolentes

Por Alexis Peixoto - 22/04/2009

black_lips

Já faz tempo que o Black Lips não cabe mais no rótulo “garage rock”, definição tacanha por excelência na qual insistem em enquadrar a banda. Ao contrário da grande maioria dos grupos que se escondem sob tal alcunha, o quarteto de Atlanta nunca ata as mãos e se empenha em desrespeitar com classe os limites do pseudo-gênero: suas canções não são insistentemente encharcadas de fuzz ou escalas de blues, as letras não falam apenas de garotas, carros e bebedeiras. Pior, às vezes sequer se preocupam em fazer rock direto, preferindo vias tortas como a lisergia californiana, punk oitentista, arroubos countrys, hip-hop old school e o que mais suas mentes doentias permitir.

Sendo assim, é uma excelente surpresa constatar que 200 Million Thousand, novo rebento da banda seja tão musicalmente insolente quanto o genial Good Bad Not Evil (de 2007, que a Monstro Discos lançou no Brasil ano passado). Relaxada, como fica evidente na produção de baixa fidelidade e com jeitão de fita demo, a banda abusa do formato guitarra-baixo-bateria para fuçar e reler de maneira particular influências tão distintas quanto obrigatórias, passando por Byrds (“Starting Over”), Troggs (“I’ll Be With You”), Sonics (“Drugs”, “Short Fuse”) e até velhas levadas cadenciadas que aludem à época em que o rap americano se preocupava mais com melodias e rimas do que com vagabas e correntes de ouro (“The Drop I Hold”).

200 Million ThousandAinda que pareça contraditório diante de tantas associações distintas, em nenhum momento o ouvinte esquece que quem está ali dentro da bolachinha que roda no som é uma banda de rock com instrumentos e motivações orgânicas; um bando de malacos tarados por música, que ouvem de tudo, mas conseguem filtrar e extrair identidade da maçaroca de discos que ouvem. Mal comparando, o que o Black Lips faz ao borrar seus limites (e não limitações, veja bem) musicais os aproxima do que o Clash fazia nos bons tempos, tocando reggae, dub, swing e funk de um jeito punk que os tornava inconfundíveis. A diferença crassa é que, ao contrário de Strummer & seus asseclas, os americanos em questão não vão longe em suas influências, evitando outros estilos musicais fora do espectro do rock’n roll.

E se os arranjos mantêm o padrão de qualidade anárquica, as letras também não fogem à regra. Os acostumados ao senso de humor bizarro do grupo vão rir com “Drugs”, uma canção romântica cheia de segundas intenções (“Come along and take a ride with me/ I’ll make some space in my dirty back seat”) e um relato sui generis de uma experiência religiosa (“I Saw God”). O baque mesmo é a psicodélica e perturbadora “Trapped in a Basement”, que alude ao caso do austríaco Josef Fritzl, que manteve a filha presa no porão de casa durante 24 anos. Um assunto delicado e fácil de resvalar no mau gosto, o que poderia levantar o único “senão” do disco, não fosse a música tão boa (assim como era “Katrina”, do disco anterior, que sacaneava em cima da tragédia de New Orleans). Tente não sentir arrepios com o refrão cantado em falsete, vindo das profundezas de um porão: “I’m daddy’s favorite girl…”

Noves fora, com 200 Million Thousand os Black Lips seguem firmes como indivíduos nos quais se pode confiar nos dias de hoje. Ainda que não se saiba o que eles vão fazer a seguir – nem como, nem quando, nem por que.

Fonte: O Inimigo

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