Por Alexis Peixoto - 20/05/2007

É inevitável e, na maioria dos casos, prejudicial: após todo e qualquer feito arrebatador, espera-se sempre um próximo passo se não maior, ao menos igualmente surpreendente. Tratando-se de música, então, vixe. Ai do figura que tenha em mãos a difícil tarefa de escrever o álbum sucessor àquele em que, supostamente, atingiu “a maturidade musical”, como gostam de apontar alguns críticos.
Em 2005, depois de dois bons discos de rock fortemente regados com “molho” inglês, o Black Rebel Motorcycle Club resolveu fazer seu disco “maduro”. Derrubaram a parede de guitarras que dominou seus álbuns anteriores e soltaram Howl, imerso na lama das raízes americanas, do country, do gospel, do folk presidiário e da contra-cultura californiana. Dois anos depois, é hora de dar a cara a bofete novamente com Baby 81, lançado entre o fim de abril e o início de maio na Europa e nos “Istêitis”.
Para manter altas as expectativas, a banda vinha prometendo aos fãs um disco que seria “uma junção perfeita entre as guitarras dos dois primeiros álbuns e o som acústico de Howl”. Some a isso as quatro auspiciosas faixas do EP Howl Sessions – registradas nas sessões de gravação do álbum, mas limadas da versão final – e a volta do baterista Nick Jago às fileiras e temos um dos discos mais esperados da temporada. Apertando o play, a sensação que se tem é que a banda cumpriu o que prometeu. “Took Out a Loan”, faixa que abre a bolacha, é pesada, tem as linhas de baixo saturadas e os vocais etéreos que enchem os discos “elétricos” da banda. “Berlin” tem uma sutil pegada de rodeio e letra que traz de volta a heresia blasé que foi substituída pela busca atormentada por perdão no disco anterior. “Weapon of Choice”, o primeiro single, é ok e só. Daí pra frente, segue uma coleção de irregular de canções que não deprimem nem animam ninguém – exceção feita à sensacional “666 Conducer”, trilha sonora ideal para um café da manhã com o cramunhão.
O BRMC é um caso atípico entre as bandas surgidas no fim da década de 90 e começo dos anos 00. Ao contrário de tantos outros contemporâneos, o trio de “San Fran” nunca foi alardeado pela MTV (nacional ou gringa), nunca teve singles no topo das paradas de sucesso e seus membros nunca pegaram nenhuma atriz de Hollywood. A massagem de ego por parte da crítica (segmentada, que fique claro) só veio mesmo no terceiro disco, quando resolveram desdizer aquilo tudo que haviam dito antes. A partir daí os descolados semanários ingleses e americanos passaram a se interessar em saber o que eles ouviam em casa, que equipamentos usavam ao vivo, o que faziam quando queriam ficar chapados e, mais importante, qual seria o próximo passo do grupo. Agora, a estrada tinha duas vias: voltar ao terreno seguro das guitarras ou enveredar de vez pelo lado da balada bandida, do jeito que tio Cash gostava. Decisão difícil, a ser tomada na calada da noite, na companhia de um maço de Marlboro e uma garrafa de Jack Daniels. Baby 81 é a ressaca disso tudo. Sem f**er nem sair de cima, a banda não foi pra lá, nem pra cá. Estacou no meio e acabou fazendo um disco que não decide se quebra a cristaleira ou se lustra calmamente as janelas.
O caso pede, portanto, uma metáfora futebolística: Baby 81 é como um gol de bico após uma bicicleta de fora da área. Ou seja: balança a rede do mesmo jeito, aumenta a diferença no placar, mas bem que poderia ser melhor. E, no boteco, na volta pra casa, no trabalho segunda de manhã, todo mundo vai comentar mesmo é o golaço do final do primeiro tempo, esquecendo o chutinho mixuruca do começo do segundo – ainda que ambos tenha entrado no ângulo. E assim seria, mesmo que a bola tivesse balançado a rede logo nos minutos iniciais da partida.
Sendo mais direto: é óbvio que por conta de seu antecessor, Baby 81 sai prejudicado e acaba diminuído. Por outro lado, se tivesse sido este o terceiro disco da banda e Howl só visse a luz do dia agora em 2007, talvez inspirasse mais movimento do que um “pezinho” batendo no chão ou uma mão batucando na coxa. É tudo uma questão de (bad) timing.
Dribles textuais à parte, é preciso que fique claro que Baby 81 não é um disco ruim. Apesar de uma perigosa quantidade de faixas insípidas, ainda guarda momentos dignos de nota e que certamente poderiam figurar numa – por enquanto – imaginária coletânea do Black Rebel. Já o disco mesmo, como conjunto completo, dificilmente será lembrado como um dos pontos altos da carreira do trio. A quantidade de estrelas dispensadas à cotação final do álbum vai depender do grau de intimidade que o ouvinte tem com a banda: um neófito que começe por este disco, provavelmente o achará excelente. No entanto, os “malacos” que já conhecem a banda de outros carnavais irão ouvir uma vez, gostar, ouvir mais uma, duas, três vezes – até sentirem vontade de ouvir de novo os discos anteriores. Com Jack Daniels e Marlboro para comemorar.
Tiago Lopes comentou em 21/5/2007 às 5:08 am
Como BRMC freak, devo esclarecer que o Howl Sessions possui 6 faixas. RÁ!
Esse é um bom disco, mas já na 1ª audição se nota que é o “menos bom” dos 4, com a melhor capa.
gabriel comentou em 21/5/2007 às 1:12 pm
O Allmusic deu míseras 2 estrelas ao disco (a escala vai de meia a 5 estrelas). O site classifica Baby 81 como “um fracasso artístico doloroso e decepcionante”.
Assinada por Tim Sendra (alguém tem referências do caboclo??), a crítica diz que Baby 81 “é um discão de rock com paredes de guitarras e baterias trovejantes, que fica meio caminho entre o Oasis e o Jesus and Mary Chain. Na opinião de Sendra, o álbum é “pensado demais, polido demais e inspirado de menos”. Para o crítico, Baby 81, “abandona tudo o que o grupo conquistou em Howl (sutileza, peso emocional e um bom conjunto de canções) em favor de melodias velhas, letras vagas e uma postura clichê de bad boy”.
Após reprovar, em particular, as faixas “666 Conducer”, “American X”, “Lien on Your Dreams” e “Berlin” [sobre essa última, o texto enfatiza os "ridículos versos" Suicide's easy/What happened to the revolution? ("o suicídio é fácil, o que houve com a Revolução")], Sendra dispara que o disco é um “embaraçoso conjunto de músicas ‘esquecíveis’ e oportunidades perdidas”.
Face à péssima impressão do crítico do Allmusic, lembro a todos que a “bíblia do rock na Internet” tem várias loucuras em seu currículo, como dar 2 estrelas para o estupendo álbum solo de estréia de Lou Reed e 4,5 (quase nota máxima) a uma bomba atômica chamada “The Wall”, lançada sem dó nem piedade por um jovem senhor inglês com cara de cavalo, que passava por uma terrível crise de mau gosto naquele ano de meu Deus de 1979.
Assim sendo, eu que ainda não escutei o álbum do BRMC prefiro fazê-lo levando mais em conta as impressões de Alexis, que devem ser um pouco mais sensatas que as do Allmusic, no mínimo.
Alexandre Honório comentou em 21/5/2007 às 5:41 pm
Não gostei muito, juro… Tem umas canções bacanas; outras classudas; mas, no geral, o resultado é bem “ruinzinho”…
Prefiro o Howl: na minha opinião, um grande disco – mesmo contrariando Paolo (que torce o nariz pro danado)… Um dia ele aprende…
Tiago Lopes comentou em 22/5/2007 às 4:50 am
“BRMC can show anyone a clean set of scuffed heels” – Q (4 stars)
“BRMC seem invincible; or back to their searing best, at any rate” – Uncut (4 stars)
“Fourth albums usually aren’t peaks for bands, but these former next-big-thing drone rockers have never sounded more self-assured” – Spin (4 stars)
“With tunes like “Weapon of Choice” and “666 Conducer”, BRMC are back to unleashing anthems as boldly apocalyptic as their name.” – Esquire
Só pra não deixar a impressão de que a crítica especializada (de verdade) não está gostando do disco.
gabriel comentou em 22/5/2007 às 8:15 am
Bem Tiago, tb desconfio dessa jogação de confete das revistonas do showbizz internacional (“crítica especializada de verdade”: se isso existe na música popular eu acabo de ficar sabendo).
Acho mais provável que o disco não seja nem a merda que o Allmusic pintou nem a maravilha descrita pela Esquire, Spin, Uncut, Q etc.
Esse rompante de entusiasmo das revistonas só me provam que a resenha de Alexis foi a opinião mais equilibrada que li até agora a respeito do álbum, hehehe.
Rodrigo Levino comentou em 25/5/2007 às 6:34 pm
é… ainda to digerindo o disco, mas o clima é bem esse de “nem trepa nem libera a moita”. não gosto do hownl. tentei me acostumar, achar ao menos classudo, mas nem isso. acho que a tal da tim num sei quem, do allmusic até acerta quando fala dos ecos de jesus and mary chain. e fomentando a piração, não tem uns pedaços de echo and the bunnymen em “all you do is talk”?
Hugo Morais comentou em 28/5/2007 às 2:28 pm
Bicho, não ouvi o disco, mas o título quer dizer que: o time está perdendo e o gol não adianta; o gol levou o time ao empate ou vitória e a torcida não ligou. A segunda opção não existe no futebol. Então, se é a primeira, esse disco é totalmente dispensável.
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