Musicofilia

Álbum da Glasvegas reafirma a relevância do “som de Glasgow”

Por Alexandre Honório - 28/09/2008

Deve ser algo com a água. Senão isso, não vejo alternativas coerentes para explicar o porque de, nos últimos dez, quinze ou vinte anos, Glasgow, na boa Escócia velha de guerra, surgirem bandas com grandes chances de nos apontar alguma direção frente ao marasmo. Nomes como Jesus & Mary Chain, Primal Scream, Franz Ferdinand, Mogwai e Teenage Fanclub são exemplos de que, em algum momento, como em um ato de bondade divina, o cenário musical voltou seus olhos para as highlands . Talvez esta seja a missão da Glasvegas: banda que sapecou seu álbum de estréia homônimo e vem colecionando elogios – e críticas, pois ninguém é de ferro -, despontando como uma das novidades aparentemente promissoras de 2008.

Glasvegas, o disco, é um trabalho consistente, maduro e, mais que isso, revestido pelo que acredito ser necessário a qualquer trabalho de arte: uma certa dose tragicômica ideal para provocar nossos sentidos. Bebendo ora na fonte concebida por Phil Spector, ora nos conterrâneos, a Glasvegas consegue um resultado que surpreende e, mais que isso, não nos deixa mais em paz. Depois de duas audições de Daddy’s Gone, faixa de trabalho do grupo, garanto que algo não abandonará seu hipotálamo por um certo tempo…

Mas, de volta ao princípio, com uma mistura que sublima o pop com guitarras etéreas na medida certa, Glasvegas acerta ao misturar harmonias que enveredam pelo mais adocicado pop na mesma proporção em que explora temas pouco simplórios. Senão isso, como explicar um tema ensolarado como You Are My Sunshine fechando uma típica canção-fossa como Flowers And Football Tops. Ironia ferina e nos seus melhores acordes, diga-se.

Dito isso, o disco segue em um crescendo. Somente isso para explicar canções como It’s My Own Cheating Heart That Makes Me Cry que, como o título já sugere, praticamente obriga o ouvinte a procurar o bar mais próximo para afogar quaisquer das suas mágoas – passadas ou vindouras.

Geraldine, por sua vez, é sobre um anjo da guarda/assistente social que resgata almas atormentadas antes que estas cometam alguma cagada, é um dos pontos excepcionais do disco. Assim, uma banda que emenda uma canção cujos versos são “I will, I will turn your tide/Do all that I can to heal you inside/I’ll be the angel on your shoulder/My name is Geraldine, I’m your social worker” tem tudo para figurar na minha lista de boas novas.

Mas o disco não é só uma trilha para afogar as mágoas. Go, Square Go é uma ajuda moral para quem em algum momento teve que enfrentar o valentão da escola. Revestida por uma atmosfera bubblegum que faria corar o velho Spector, a canção é uma das mais improváveis do disco.

Por sua vez, é com Daddy’s Gone que o disco se manifesta em plenitude. Impossível não perceber ecos das Ronettes, dos grupos vocais das décadas de 50 e 60, todos emprestando sua doçura e sonoridade para a construção de uma canção com tema cavernoso: um acerto de contas entre um filho e seu pai ausente. Daddy’s Gone impressiona: toma forma, ganha força e, nos seus segundos finais, explode em guitarras sobrepostas. Há algum tempo o termo wall of sound não ganhava uma representação tão a altura.

No fim, com Ice Cream Van, podemos perceber que Glasvegas pode até ser mais um hype daqueles, porém, fechando o disco, vem mais um empurrão: “There’s a storm on the horizon/And for that I can’t see the sun/For I’ll keep a waiting on the pavement/For the ice-cream van to come“. E assim somos novamente questionados: por que Glasgow e sua música conseguem nos provocar de modo tão singular? No fim, acho mesmo que deve ser a água…

MySpace: http://www.myspace.com/glasvegas

Site: http://www.glasvegas.net/

Confira: Geraldine

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Um Comentário para “Álbum da Glasvegas reafirma a relevância do “som de Glasgow”

Ótimo comentário completamente à altura do álbum “Glasvegas”, do qual também gostei bastante, inclusive!

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