Musicofilia

A Última Banda de Rock – Um Certo Natal de 1992 (Parte 2)

Por Pablo Capistrano - 16/12/2007

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O Natal de 1992 tinha tudo para ser um dos mais tediosos natais de nossas vidas se o Fábio François não tivesse pensando em fazer uma festa. Em terra de marrano Natal é uma festa privada. Um período em que as famílias se escondem umas das outras e se trancam em casa para realizar seus rituais secretos. Ao contrário do que ocorre em outras cidades do ocidente a véspera de Natal em Natal é marcado por um estranho paradoxo. Ruas vazias e escuras, shoppings e supermercados fechados contrastando com as casas particulares e os apartamentos residenciais lotados de toda a parentela possível.

Então o Fábio resolveu arriscar a tal festa. Até meia noite ela parecia que ia fracassar porque ninguém, fora uns cinco meninos mau criados, haviam conseguido convencer as mães e os pais à não esperar a hora do peru para cair fora da reunião familiar. Lembro que a turma já estava estendendo os cochonetes na área para dormir enquanto alguns insistentes bocejavam assistindo uma versão em VHS de Metrópolis, do cineasta Fritz Lang, ao som de Kraftwerk (um programa nem um pouco instigante, diga-se de passagem).

Foi quando o Antônio, o maior fã do Bauhaus (não a escola de arquitetura, mas a banda pós-punk) que eu já conheci, chegou com seu fusca (era um fusca? Não sei. Devia ser um fusca) escoltando outros carros lotados de garotos e, principalmente, garotas perdidas em busca de um Natal que valesse a pena. Subitamente a casa de Fábio François foi tomada por umas trinta almas ansiosas que entravam e saiam das salas, do banheiro, dos quartos, da cozinha, que se perdiam no quintal e se agitavam andando para lá e para cá pelo jardim e no meio da garagem estreita.

Pronto. Agora sim havia uma festa. Foi quando Cagada (essa era a alcunha do rapaz), tomou a iniciativa. Levantou-se e foi até o velho “três em um” da mãe do Fábio com uma fita cassete e mudou a trilha sonora. Kraftwerk sumiu e no lugar um estranho e desconjuntado rif de guitarra começou a chamar todos para a sala de estar. Rapidamente, em ondas, uma bateria poderosa invadiu a casa anunciando o apocalipse. Antes que qualquer um de nós pudesse dizer qualquer coisa, pensar qualquer coisa, objetar qualquer coisa ou olhar para o lado e suspirar, aqueles blocos ritmados de barulho explodiram, como se um calidoscópio de fúria e sentimento primitivo e sincero estivesse invadindo o ambiente.

Em poucos segundos, mas de trinta pessoas saltavam na sala de estar da casa do François, fazendo um barulho infernal e pintando com cores soturnas e distorcidas o Natal de 1992. Isso era o Nirvana. Isso era Smels Like Teen Spirit.

No começo dos noventa o mundo vivia um imenso marasmo. Uma sensação sinistra de que tudo já havia sido feito, de que tido já havia sido visto, de que todas as utopias haviam ruído com a queda do muro e com o fim dos referenciais de amor e paz da era Hippie. Vivíamos, no Brasil, o império musical de Chitãozinho e Xororó, o reinado hediondo do Country Sertanejo, com sua choradeira paraguaia. As bandas dos oitenta estavam desconjuntas. Cazuza havia morrido. No cenário internacional só o R.E.M. conseguia superar a muralha sem fim do Hip Hop norte americano.

Estávamos órfãos. Sem um irmão mais velho que pudesse dar voz a nossa fúria desconexa e sem sentido. Éramos uma geração de perdidos, filhos de lares rompidos, carentes de qualquer utopia, sem perspectivas de futuro, com um horizonte vazio de sonhos e sem um mundo qualquer para construir. Foi esse a fragrância adolescente que o Nirvana captou e foi a raiva e o vazio de uma geração enganada pelas utopias do século vinte que Kurt Cobain transformou em roquenrol. Graças ao velho Fábio e ao Nirvana o Natal de 1992 entrou para a história.

3 Comentários para “A Última Banda de Rock – Um Certo Natal de 1992 (Parte 2)

herminio comentou em 18/12/2007 às 9:26 pm

Também hoje em dia, quando se trata de rock, há uma sensação no ar de que tudo já foi feito. Mas o pior é que hoje em dia revisitar algo como o punk, por exemplo, parece também já não fazer mais tanto sentido. Parece que nesse mundo moderno de mp3 e E-zines (inevitável ironia) não há mais espaço para um ressurgimento sincero do dito roquenrol…

pablo, você está criando um movimento de reminiscências. estamos todos trocando idéias, querendo reconstituir este grande momento marvel. eu mesmo, lembro que rolou um inimigo secreto nesta festa, em que demos presentes de grego uns aos outros. o melhor foi o de jj pro carlos negreiros: um ovo frito, já frio, com uma barata espetada num palito de dentes. pois foi o mesmo cagada que você mencionou que não quis saber se aquilo era escultura conceitual ou que valesse, quando a fome apertou no fim da noite, comeu o tal ovo, evitando as partes próxima à barata empalada, o que justificou dizendo: “que aí também é nojento!”.

foca comentou em 22/12/2007 às 7:13 am

o rock está aí!

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