Por Alexis Peixoto - 28/05/2007

À caminho do estúdio onde iria encontrar a sua banda, o misterioso garoto branco resolveu fazer uma pequena parada. A noite estava agradável e o rapaz sentia-se satisfeito com as novas canções que vinha escrevendo para seu próximo álbum. E já que estava parado ali, na marina do Wolf River, resolveu que a melhor coisa que poderia fazer naquele momento seria dar um mergulho rápido.
Desceu do carro e deixou seu amigo Keith Foti esperando na margem. O rádio, convenientemente, tocava uma de suas canções favoritas: “Whola Lotta Love”, do Led Zeppelin. Quase sem perceber, começou a cantarolar baixinho enquanto avançava em direção à água.
Jeffrey Scott Buckley submergiu na noite de 29 de maio de 1997 e só veio a tona uma semana depois, quando seu corpo foi avistado boiando de bruços perto de uma das nascentes do rio Mississipi. Uma autópsia posterior não achou quaisquer indícios de álcool ou substâncias ilegais no organismo do cantor. O testemunho de Foti, mais o de outros amigos próximos com quem Buckley havia estado dias e horas antes do acidente, desarma a possibilidade de suicídio. Para todos os efeitos, a morte de Jeff Buckley foi acidental.
Uma fatalidade tragicamente conectada ao desaparecimento igualmente precoce de seu pai, o cantor e compositor Tim Buckley, duas décadas antes, por conta de uma infeliz mistura de heroína, barbitúricos e álcool, ingeridos para comemorar o fim de uma longa turnê. O pai tinha 28 anos. O filho, 30.
Calejado por anos tocando em esquecíveis bandas de metal, punk rock, reggae e jazz fusion, Buckley-filho fez sua primeira aparição pública como cantor em um show-tributo à Buckley-pai, no início da década de 90. Pouco depois pediu demissão da banda que integrava na época e partiu para encontrar a sua vocação definitiva nas ingratas noites de segunda-feira em que aparecia sozinho no palco minúsculo e quase invisível do Sin-é Cafe, em East Village, Nova York.
Com uma guitarra emprestada de um amigo, destrinchava um repertório composto por tímidas canções próprias e versões arrasadoras- quase sempre cunhadas na hora – de seus compositores favoritos. Desses tempos de jukebox humano, desenvolveu uma rara capacidade de improviso e espontaneidade no palco e o know-how necessário para interpretar canções alheias como se fossem suas.
Aos poucos, trocou os botecos pelos concorridos palcos de festivais alternativos ao redor do mundo e o torpedo escrito em um guardanapo sujo por declarações de admiração explícita de gente como Jimmy Page, Paul McCartney, Bono e Elvis Costello. Apesar de tudo isso, permaneceu no canto menos iluminado da festa do cabide que foi a música pop nos 90. Grace, seu álbum de estréia, apareceu discretamente na 149ª posição da Billboard no ano de seu lançamento.
Jeff Buckley era, na mais simplista das definições, um alienígena. No meio do cinismo do britpop, dos últimos suspiros de angústia grunge, da violência do gangsta rap ou do mau-humor “alternativo”, representava o personagem sem nome que aparece em grande parte de suas canções: o perdedor solitário que tenta desesperadamente se fazer ouvir, seja pela garota que há tempos foi embora, seja por qualquer um que empreste um ombro amigo ou que possa ajudá-lo a esvaziar outra garrafa. Era do tipo que costuma ser erroneamente tachado de “sentimental”, “meloso” e outros adjetivos pejorativos e burros que se costuma atribuir à sinceridade, quando escancarada em cima da mesa. À grande massa cabeluda daquela década faltou saber discernir entre o que é sentimentalismo barato e o que é sensibilidade inerente, do tipo que se traduz numa bolha de transparência absoluta, ainda que quase intransponível.
Um ano depois de sua morte, as gravações preliminares das faixas que iriam compor o segundo álbum foram compiladas no álbum duplo Sketches (For My Sweetheart the Drunk). Co-produzido por Tom Verlaine (do Television), o disco conseguiu chegar à 64ª posição na Billboard em 1998.
A Sketches, seguiram discos ao vivo, tributos e as Legacy Editions de Grace e do EP Live at Sin-é, com discos adicionais, recheados de faixas bônus e versões alternativas. Ano passado, a revista inglesa Mojo colocou Grace no topo de sua lista de Modern Rock Classics. Figuras como Thom Yorke, PJ Harvey e Rufus Wainwright constantemente assumem sem pudor a influência de Buckley em suas vidas e carreira.
Durante todo o dia de hoje e nas semanas seguintes, shows e eventos tributos ocorrerão no mundo todo: bandas covers, bandas sérias ou simplesmente reuniões caseiras de fãs, devem marcar o aniversário de dez anos da morte prematura de Jeff Buckley. Em algum momento, alguém certamente tentará especular sobre o que o músico faria ou teria feito, caso tivesse sobrevivido e lançado mais álbuns. Difícil e desnecessário saber. O mistery white boy, existiu naquele curto período de tempo e depois sumiu sem aviso prévio.
Como um Ziggy Stardust às avessas, caiu na Terra sem fazer estrondo, cortar as linhas telefônicas ou provocar histeria dos pais e mães de família. Mas, para os afortunados que souberam sintonizar seus corações e mentes na frequência certa, reservou uma música carregada de forte carga emocional, uma percepção humana, frágil e passional do comichão da vida. Mais ou menos aquilo que costumamos chamar, com todos os exageros merecidos, de estado de graça.
Rodrigo Levino comentou em 29/5/2007 às 3:59 am
bicho, foi um dos lúcidos e comoventes textos que já li sobre Buckley. Aqui em casa ele é rei.
Adrielly comentou em 29/5/2007 às 7:23 am
Nada de exageros!!!
Tudo que foi dito foi a mais pura e cristalina verdade, como era a figura de Jeff pra Bono Vox (“uma gosta cristalina num oceanos de ruídos”)!
Parabéns pelo belíssimo texto, que soube ser detalhado, sem deixar de lado a poesia da vida, morte e obra de Scottie!!!!
Que bom que eu não estou só!!!
Alex comentou em 29/5/2007 às 6:58 pm
minha geração, a dos que estão encabeçando a lista da casa dos 30, pode ser resumida, na música, a dois nomes: kurt cobain e jeff buckley (se bem que na minha conta ainda entraria mark sandman, do morphine), ou seja: aos ídolos que preferiram queimar a evanescer (sem piadas com a moça triste) – e que por isso se tornaram emblemas de um tipo de juventude que a gente viveu, intensamente.
interessante que o público (ou a massa, se assim preferirem os comunicólogos) criou uma relação inversa com os dois rock stars: enquanto muita gente hoje torce o nariz para o nirvana e até inventa que na época escutava só por onda da galera, buckley vem se tornando cada vez mais uma unanimidade, apesar de ter sido relegado ao pântano quando surgiu. lembro que muita gente (muita mesmo) torcia o nariz e dizia: “vocês gostam daquilo?”
a sony foi até generosa com o grace, quando de seu lançamento. produziu o belo videoclipe de last goodbye, que logo entrou na programação da novíssima mtv brasil. foi quando escutei buckley pela primeira vez, o ano era 94.
uma semana depois o disco chegava em natal e, pelas mãos de gian carlo, as tardes no whiplash bar nunca mais foram as mesmas. era engraçado como havia uma empatia, uma identificação entre todo o nosso sofrimento hormonal adolescente e aquele desespero cheio de harmonias em cada faixa do cd. era uma empatia tão profunda que, por brincadeira, dizíamos ser a ‘igreja buckleyana’: dez em cada dez porres terminavam com lover, you should’ve come over.
quando buckley entrou em estúdio para gravar o segundo álbum, a sony já estava com tudo preparado. além de talentoso, o rapaz era bonito pacas, tinha até entrado na lista da people. os comentários na indústria fonográfica eram de que ele seria “um novo elvis”.
a notícia da morte de buckley foi a nossa versão de “o sonho acabou”.
Alexandre Honório comentou em 29/5/2007 às 7:35 pm
Pois é, cara…
Lembro que torci o nariz quando Giancarlo apareceu com o disco. Achava, naquela “saraivada” de bandas pós-Seattle, que estava diante de mais “raspa do tacho”…
O nariz torceu de volta e mordi a língua. Tempos depois, quando Sketches… foi lançado lá estávamos Giancarlo e eu brigando para ver quem comprava o disco primeiro; do mesmo modo com Mistery White Boy.
A impressão que tenho é que Buckley, como outros tantos músicos brilhantes que passearam à margem do mainstream obteve seu reconhecimento. Não é a toa que caras como Thom Yorke e Chris Martin confessam seu “flerte”…
Buckley continua sendo muito boa companhia em bebedeiras e afins… Como há bons dez anos quando o Grace entortava de tanto tocar para um bando de bêbados desafinados que insistiam em entornar as tardes na Whiplash…
Felipe comentou em 29/5/2007 às 7:51 pm
Bravo!
Kenia Castro comentou em 30/5/2007 às 12:30 pm
Texto comovente Alexis.
Parabéns!
Quanto a Jeff Buckley não tenho palavras. Escuto, compro DVDs e baixo desesperadamente qualquer documentário que caia na rede relacionado a ele.
gabriel comentou em 1/6/2007 às 1:35 pm
Putz, fiquei surpreso com a verdadeira história da morte dele. O texto de Alexis me esclareceu o episódio, pq a história que eu sabia antes era de q ele consumira drogas sortidas e uma garrafa inteira de Jack Daniels antes de cair n’água pruma nadadinha. Acho q quem me contou confundiu o filho com o pai.
Quanto ao som dele, devo admitir que conheci tardiamente. Sempre ouvia Aristeu, Alexandre e outros amigos elogiando mas nunca dei bola, até q Kênia me emprestou, em 2005, um DVD gravado ao vivo em 1997 mesmo, eu acho. Adorei e não parei mais de ouvir. Ano passado, comprei uma cópia do “Grace” da própria Kênia, CD esse que sobreviveu até mesmo à venda de mais de 80 discos que fiz a Marcelo da Velvet no começo de 2007.
azambuja comentou em 5/12/2007 às 12:32 pm
cara, só agora li esse texto tão bonito e bem escrito (em estado de graça?)… conheci Buckley atravéz de Everton Dantas e depois consegui seu show em Chicago… confesso que muitas de suas canções me fazem chorar num misto de tudo e de purificação!
Orlando Filho comentou em 14/12/2007 às 8:21 pm
Como este cara , soube utilizar a simplicidade de uma forma simplesmente avassaladora.Jeff tocou com o espirito fazendo da sua voz e guitarra as nossas almas!
[...] desssas, ainda com umas cervas a mais na cabeça, escrevi para o Disruptores um texto sobre o homem que segue sendo o mais… er… emocional (cafona!) a levar meu nome em toda [...]
Filipe comentou em 7/7/2010 às 4:13 am
Encontrar Jeff Buckey ajudou a perceber uma visão musical em mim mesmo, que transcende de uma forma muito bela a própria trama do teatro humano.
Jeff representa ainda hoje para mim, uma presença confortante, sempre que preciso a sua musica sempre arranja forma de me consolar e dar esperança.
Acho que jamais o esquecerei, e muito provavelmente a existir essa coisa de imortalidade da alma, no dia em que desencarnar gostaria muito de o vivenciar ao som de uma das suas musicas e de sua voz maravilhosamente eterna…
Quem sabe se não viverei o maior concerto de musica de sempre,… nessa altura…
Tati comentou em 20/9/2010 às 11:54 pm
Poxa, choro ao pensar nele, no que se foi fisicamente, no ficou artísticamente, pelo que sentimos ao escutar suas canções, ao tentar compreender suas composições, choro por mim, por ele, pelos coitados que preferem uma música vazia dos novos tempos, ao mergulhar no tipo de trabalho que esse cara foda fazia… Chorei ao ler o título desse texto, e não sou uma boba, chorona qualquer, é que tudo que envolve Jeff vêm para mim como uma bomba de sentimentos e qdo explode, tudo ao mesmo tempo acontece, sorrisos também. Preciso levar esse cara cmg pelo resto da vida e não vejo a hora de ter filhos e apresentar-lhes Jeff Buckley.
Parabéns pelo texto.
Alisson Luis @feanormor comentou em 28/6/2011 às 10:11 am
Irmao, seu texto ficou muito muito bom meeeeesmo…palavras sabias junto com sabedoria e sentimento proprio, tudo junto de uma forma precisa e gostosa de saborear..nao sei se sou suspeito pra falar pois admiro o Jeff demais…mas realmente seu texto ta demais…Parabens e obrigado
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