Musicofilia

40 anos de Johnny Cash e os párias de San Quentin

Por Alexandre Honório - 24/08/2009

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Em 24 de fevereiro de 1969, Johnny Cash e uma equipe de técnicos de TV tocaram um barraco daqueles na Penitenciária de San Quentin, na Califórnia. Uma equipe da emissora inglesa Granada Television acompanhava o cantor e produziria um especial para TV de sua apresentação para os apenados daquela prisão. O resultado? Johnny Cash at San Quentin. Não por acaso, um dos discos mais viscerais jamais produzidos na história da música pop, um dos primeiros discos a captar a energia de um intérprete ao vivo e indispensável para qualquer fã de Johnny Cash.

Por sua vez preciso confessar que nunca fui muito fã de discos ao vivo. Uns dois ou três figuravam na minha lista. Johnny Cash at Folsom Prison era um destes; Who Live at Leeds outro. Como não tinha escutado ainda este Johnny Cash at San Quentin, ficava difícil fazer um juízo sobre a bolacha. Então, enquanto acessava alguns sites e acompanhava às twittadas dos amigos, alguém terminou enviando um vídeo do YouTube em que uma garotinha entoava aos trancos e barrancos Folsom Prison Blues – e antes que pergunte, não, não era a boring girl da Mallu Magalhães.

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Um endiabrado Johnny Cash mostrando sua majestade

O vídeo em questão era até bonitinho, mas ali mesmo, em uma caixa lateral listando outros vídeos exibidos no site, aparecia algo infinitamente melhor: “Folsom Prison Blues – Johnny Cash @t San Quentin”. Era um trecho da apresentação de Cash registrada pela Granada Television e que tinha ganhado a rede via YouTube. O vídeo é visceral à estratosfera: Cash como que possuído mandando brasa em uma versão infernal para os apenados de San Quentin de uma de suas mais reconhecidas canções. Bem, depois disso fui obrigado a definitivamente incluir Johnny Cash At San Quentin na minha lista de álbuns ao vivo indispensáveis.

Comprei a reedição do disco – lançada em 2000, remasterizada e com todo o set da apresentação (já que a edição em vinil de 1969 teve algumas faixas limadas) – e minha primeira impressão é que o álbum surge tomado pelo mais vigoroso country e doses de nitroglicerina: quarenta anos se passaram desde que Johnny Cash decidira celebrar seu aniversário com os condenados de San Quentin, mas, passado todo este tempo, o que pode ser dito sobre o álbum é que ele é uma celebração entre párias: uma apresentação que mais parece um tributo de Cash àqueles que, como ele, se desentenderam com o status quo em algum momento de suas vidas e viram-se obrigados a pagar o preço por isso. O músico chega até a comentar, entre uma música e outra, com ironia, o dia em que fora preso apenas porque colhera algumas flores.

– O que você está fazendo – teria perguntado o policial.

– …colhendo flores, senhor – responderia Cash para em seguida terminar na cadeia.

E é assim que a todo o momento Johnny Cash procura a platéia diante dele: conversa com ela e se deixa envolver por aquela atmosfera que intercala contenção e liberdade. Quando anuncia aos apenados que compusera alguns dias antes uma canção sobre o presídio especialmente para a apresentação, a casa vem a baixo: Cash é literalmente obrigado a repetir San Quentin para acalmar a platéia e emenda o “bis” com Wanted Man, de Bob Dylan.

Folsom Prison Blues põe literalmente a casa a baixo novamente – justamente aquela canção do vídeo que me chamara a atenção no YouTube: Johnny Cash possuído, inflamado, tocando fogo no barraco. Vêm depois Ring of Fire, Carl Perkins com Daddy Sang Bass e toda a família Carter mandando um medley de Folsom Prison Blues, I Walk The Line, Ring of Fire e The Rebel – Johnny Yuma. Uma seqüência de tirar o fôlego para um disco indispensável. Pena que Johnny Cash at San Quentin não ganhou uma reedição nacional como os discos da série American Recordings. Fica a dica para que a Sony Music pare de reclamar da vida, deixe de dar bola fora e aproveite para também celebrar os quarenta anos deste disco…

Um Comentário para “40 anos de Johnny Cash e os párias de San Quentin

Cash é Deus!!

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