Contos Insolentes

Volta pra Casa

Por Gabriel Trigueiro - 19/01/2007

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18h04. Saio do escritório discretinho, tipo fugindo. Chovendo fino. Sono de foder. Espero o ônibus embaixo da marquise, a parada é sem abrigo. De pé esperando a lata de sardinha, passa por mim uma velhota vestida num conjunto estampado. Só pelanca, cara rachada de dondoca gasta, ela entra no Golf, mantém os vidros fechados e cai fora. Sempre odiei velhotas em conjuntos estampados.

*****

Chegou a lata. A escada alta e a distância pra calçada me obrigam a levantar a perna esquerda até uma posição desconfortável e fazer força com a mão esquerda pra puxar meu corpo pra dentro daquela porra. Quase meto o nariz na bunda de uma moça feiosa com uniforme de vendedora, que aguarda a vez na catraca. Quando passo pelo cobrador, outra moça me olha, não sei se paquera ou desprezo. Ela é magra e jovem, e conversa com uma gorda feia mais velha, que me olha, olha pra ela e ri. Tô cagando. Viro o rosto e fico de pé segurando nas barras, aranhando a aliança, a bunda apontando pro corredor.

Uma gorda, marrom, corcunda, sem pescoço, dona maria lavadeira, passa se esfregando em mim. Sono do caralho, estou entorpecido. O calor, o trânsito, a chuva fina que bate no asfalto e levanta um vapor de foder. Dois passageiros conversam sobre uns caras que tavam achando algo engraçado e alguém perguntou se um desses caras tinha problemas mentais e eles acharam mais engraçado ainda. Sinto que vou vomitar ou desmaiar antes de chegar em casa. O vapor fica mais forte, o trânsito pára, eu passo mal, meu ponto não chega, agora vou desmaiar mesmo, de sono e de asco.

Sempre sinto muito sono ao meio-dia e às seis. Já pensei em ir ao médico por isso, não tive saco. Quando sinto esse sono do meio-dia e das seis o mundo fica esquisito. Parece qualquer outra coisa, menos o mesmo mundo. Eu vejo diferente. Estou sem ar. Vou esperar meu ponto ao lado da porta. Me esfrego em pessoas, pessoas horríveis. Chegou.

*****

Não posso ir pra casa com essa fome. Não tem nada em casa. Tenho dez na carteira, dá pra comer um sanduíche no posto de gasolina. Devia comer fruta, mas nesse bairro de bacana, onde eu nem deveria estar morando, só vende fruta no supermercado, que é longe. Está chovendo, estou sem carro, passando mal, com o sono das seis, sem ar.

O médico mandou comer mais natural e menos industrializado. – Quem sabe daqui a uns tempos tu se livra do remédio pra pressão alta todo dia?, ele disse. Quem sabe? Nem ele. Foda-se. Se não morro de enfarte com 40, grande merda. Fico esperando bater as botas velho, sentado, calado, olhando pro jornal de ontem numa casa de subúrbio, ganhando o mínimo da previdência, batendo punheta pras mocinhas que podiam ser minhas netas e não comi quando tinha a idade delas.

Comi o sanduíche e respiro melhor, mas o sono não passou, só lá depois das oito. Uma guitarra na cabeça, sempre essa guitarra, sempre essa guitarra, principalmente no sono das seis. Lembro que está cedo e que vou sentir fome de novo às dez. Tenho que comprar outro sanduíche pra mais tarde. Puxo o resto da grana. Tem água em casa pra acompanhar. Afinal, amanhã é outro dia e posso lanchar fiado no trabalho.

*****

Sigo pra casa. Saio da principal, entro na escuridão da minha rua, logo atrás de um casal. Um cara moreno e uma loura, mãos dadas, fodidos classe média. Me olham com medo e atravessam para a outra calçada. A chuva fina me segue, e aquela guitarra fina na nota mais alta. Sempre tô com alguma nota na cabeça. Desço a rua com o sanduíche na mão. Mais um pouco e chego sem ser assaltado. A vontade de vomitar passou, respiro melhor, mas a porra do sono me enche. Subo três escadas, deito na rede, suado, com roupa de ônibus. A novela das sete tá começando. A chuva piorou.

4 Comentários para “Volta pra Casa

Aristeu comentou em 19/1/2007 às 9:04 am

Rapaz… muito bom!

justus comentou em 11/4/2007 às 7:53 am

me levou do nada pra lugar nenhum. ruim.

Carla Cristina comentou em 24/7/2007 às 11:14 am

Pode melhorar..e muito.

waldenor comentou em 26/11/2007 às 1:52 pm

o justus dai de cima parace ser um tanto quanto injustus… isso é um recorte do cotidiano muito preciso e bem descrito… somente a vivência dá o tom apropriado do que que proveitoso em detrimento do inútil. parabéns pelo texto gabriel.

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