Por Alexandre Honório - 09/12/2006

Meus registros afirmam que um oceano existia aqui. Oceano; uma das muitas palavras que eles usavam para chamar a enorme massa de água que cobria boa parte deste planeta agora seco. Ela se foi há muito; como eles, perdeu-se no tempo. Faz pouco mais de um ciclo que estou sentado aqui. Foram muitos quilômetros vagando; colhendo dados… muitos ciclos. Fui criado para tal tarefa e, depois que eles se foram, fiquei responsável por sua memória em minha memória; recordar seus costumes, histórias, eventos e mitos. Guardo seu passado.
Passado. Uma mesma palavra, tantos significados; Chronos, o tempo, segundo um de seus mitos, era responsável pelo seu surgimento. A mitologia humana era riquíssima; suas histórias eram contadas para os que queriam ouvir. Para muitos deles, alguns destes mitos representavam a história; o passado, mais uma vez não querendo ser esquecido. Eles, com sua arrogância, ignoraram o passado; sua ganância fez com que o destino fosse este.
Este mundo morreu: suas terras e seus habitantes tornaram-se história; apenas parte do código que ora percorre meus circuitos. Fui criado para contar histórias; para observá-la, recolhê-lhas e armazená-las. Para tanto, fui concebido como um deles; como o Deus de uma de suas lendas mais recorrentes teria feito com seu primeiro. Como eles, percorri suas terras e mares; vi quando estes avançaram sobre as nações; vi seu desespero quando a temperatura tornou-se insuportável; quando guerras por novos territórios secos explodiram, estava lá… Sou eterno, garantiram.
Este Sol vermelho está com seus dias contados. Alguns milhões, mas contados. Há muito não conto minhas histórias; há muito entendi que, como este mundo, serei menos que poeira. A história deles será finalmente esquecida. Foi este Sol vermelho que determinou o fim destes seres. Os homens, segundo os dados em meu poder, também foram os responsáveis por isso; responsáveis pelo seu esquecimento.
Estou agora nesta pedra; esperando o fim dos tempos: o fim de tudo.
Um outro fim.
Davi Gustavo comentou em 12/12/2006 às 8:32 am
Devo dizer que estou começando a gostar desses contos cyberpunk! Rápidos, sem muitas pretensões, enfim, divertidos!!!
Bem legal!
Alex comentou em 13/12/2006 às 6:04 am
Bem melhor que o conto escrotinho de fantasma. E finalmente você aceitou o desafio dos 2001 toques. Alguém mais se habilita?
Kenia comentou em 13/12/2006 às 6:43 am
“Conto escrotinho de fantasma” foi ótimo!
akkkakaka
Esse deu ao menos para respirar, ao contrário do de Alex. Gostei muito dos dois, são essas diferenças na forma que deixam o desafio mais interessante.
Vamos aguardar os próximos.
Alex comentou em 13/12/2006 às 2:09 pm
Alexandre, você não é mais o George Clooney depois da gripe. Agora é o Daniel Craig dos pobres. Tira outra foto fazendo biquinho, tira!
Alexandre Honório comentou em 13/12/2006 às 2:24 pm
Vamos lá, escolha o seu “Alexandre Honório”:
à Morrissey; à George Clooney; à Daniel Craig (com biquinho);
Escolha o seu e ganhe um óculos fundo de garrafa novinho.
Ê povo cego, raios…
Alex comentou em 14/12/2006 às 7:58 am
Está lançado o concurso Onde a Genética Errou, destinado a localizar todas as criaturas que, por piedade divina, escaparam por muito pouco de serem nosso querido Norman. Alguém tem mais algum candidato? (Lembrando que o voto de Kênia não vale)
Maria comentou em 8/1/2007 às 8:25 am
Ei Alex, legal esse conto. Só não gostei mais porque me lembrou um aborto pavoroso do Spielberg chamado AI. Meu trauma acabou atenuando o deleite da leitura…
Por favor, escreva sobre coisas reais além de et’s, fantasmas escrotinhos, chupa-cabras e adjacências!
Lex comentou em 18/1/2007 às 12:40 pm
Vixe, pois eu adoro Inteligência Artificial!!!
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