Contos Insolentes

Um Sol Vermelho e o Fim – conto em 2001 caracteres e um ponto final

Por Alexandre Honório - 09/12/2006

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Meus registros afirmam que um oceano existia aqui. Oceano; uma das muitas palavras que eles usavam para chamar a enorme massa de água que cobria boa parte deste planeta agora seco. Ela se foi há muito; como eles, perdeu-se no tempo. Faz pouco mais de um ciclo que estou sentado aqui. Foram muitos quilômetros vagando; colhendo dados… muitos ciclos. Fui criado para tal tarefa e, depois que eles se foram, fiquei responsável por sua memória em minha memória; recordar seus costumes, histórias, eventos e mitos. Guardo seu passado.

Passado. Uma mesma palavra, tantos significados; Chronos, o tempo, segundo um de seus mitos, era responsável pelo seu surgimento. A mitologia humana era riquíssima; suas histórias eram contadas para os que queriam ouvir. Para muitos deles, alguns destes mitos representavam a história; o passado, mais uma vez não querendo ser esquecido. Eles, com sua arrogância, ignoraram o passado; sua ganância fez com que o destino fosse este.

Este mundo morreu: suas terras e seus habitantes tornaram-se história; apenas parte do código que ora percorre meus circuitos. Fui criado para contar histórias; para observá-la, recolhê-lhas e armazená-las. Para tanto, fui concebido como um deles; como o Deus de uma de suas lendas mais recorrentes teria feito com seu primeiro. Como eles, percorri suas terras e mares; vi quando estes avançaram sobre as nações; vi seu desespero quando a temperatura tornou-se insuportável; quando guerras por novos territórios secos explodiram, estava lá… Sou eterno, garantiram.

Este Sol vermelho está com seus dias contados. Alguns milhões, mas contados. Há muito não conto minhas histórias; há muito entendi que, como este mundo, serei menos que poeira. A história deles será finalmente esquecida. Foi este Sol vermelho que determinou o fim destes seres. Os homens, segundo os dados em meu poder, também foram os responsáveis por isso; responsáveis pelo seu esquecimento.

Estou agora nesta pedra; esperando o fim dos tempos: o fim de tudo.

Um outro fim.

8 Comentários para “Um Sol Vermelho e o Fim – conto em 2001 caracteres e um ponto final

Devo dizer que estou começando a gostar desses contos cyberpunk! Rápidos, sem muitas pretensões, enfim, divertidos!!!

Bem legal!

Alex comentou em 13/12/2006 às 6:04 am

Bem melhor que o conto escrotinho de fantasma. E finalmente você aceitou o desafio dos 2001 toques. Alguém mais se habilita?

“Conto escrotinho de fantasma” foi ótimo!
akkkakaka

Esse deu ao menos para respirar, ao contrário do de Alex. Gostei muito dos dois, são essas diferenças na forma que deixam o desafio mais interessante.

Vamos aguardar os próximos.

Alex comentou em 13/12/2006 às 2:09 pm

Alexandre, você não é mais o George Clooney depois da gripe. Agora é o Daniel Craig dos pobres. Tira outra foto fazendo biquinho, tira!

Vamos lá, escolha o seu “Alexandre Honório”:
à Morrissey; à George Clooney; à Daniel Craig (com biquinho);

Escolha o seu e ganhe um óculos fundo de garrafa novinho.

Ê povo cego, raios…

Alex comentou em 14/12/2006 às 7:58 am

Está lançado o concurso Onde a Genética Errou, destinado a localizar todas as criaturas que, por piedade divina, escaparam por muito pouco de serem nosso querido Norman. Alguém tem mais algum candidato? (Lembrando que o voto de Kênia não vale)

Maria comentou em 8/1/2007 às 8:25 am

Ei Alex, legal esse conto. Só não gostei mais porque me lembrou um aborto pavoroso do Spielberg chamado AI. Meu trauma acabou atenuando o deleite da leitura…
Por favor, escreva sobre coisas reais além de et’s, fantasmas escrotinhos, chupa-cabras e adjacências!

Lex comentou em 18/1/2007 às 12:40 pm

Vixe, pois eu adoro Inteligência Artificial!!!

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