Por Alexandre Honório - 23/01/2007

Tlahtolteotl não esqueceu nenhuma das palavras. Sua fonte de poder, embora sentenciado ao esquecimento, não se perdera. Gerações encarnando, nascendo, morrendo e reencarnando: não se permitira esquecer. Seu nome fora apagado dos códices milênios antes que Montezuma II chegasse ao poder; o povo das encostas sussurrara sua lenda por dias e noites antes que tudo fosse perdido.
Um deus perdido; sem nome. Foi a este destino que os iguais o sentenciaram; deidades veneradas em todos os planos – mas invejosas – determinaram que Tlahtolteotl deveria perder-se. Um deus que detinha as palavras de poder não deveria conceder seus bons auguríos aos mortais; não poderia brindá-los com as riquezas por elas providas. Antes de cair, pois assim os deuses da Terra Antiga se referiam ao castigo, Tlahtolteotl levara prosperidade às encostas dos Andes.
Seus protegidos cresceram sob seus auspícios e boa fé.
Uma palavra bastava para que as terras fossem fertilizadas; outro pronunciamento por Tlahtolteotl bastava para que o ouro brotasse da terra para finalmente adornar seus altares. Por milhares de anos a ordem se estabelecera nas encostas da cadeia porque, antes disso, os inimigos do povo de Tlahtolteotl fora varrido por vulcões e terremotos depois que, irado, gritara uma maldição aos quatro ventos. Seu povo aprendera cedo que a palavra detinha força; que esta retinha poder…
Seus protegidos, mais que a outros deuses, encharcavam as terras com sangue de seus rebentos – sacrificados em nome do “Deus-Palavra” ou “Palavra de Deus”. Mesmo os viventes do litoral às margens do “Grande Mar” sabiam do poder de Tlahtolteotl e veneravam-no – construindo trilhas para peregrinação às encostas dos Andes.
Mas o que Tlahtolteotl promovera desagradara outras divindades nos três planos; reunidos, decidiram o destino dele. Atraiçoado, Tlahtolteotl fora finalmente aprisionado: sua masmorra durante a eternidade seria a carne. Os Dos Três Planos encarceraram o espirito-poder do “Deus Maior dos Andinos” em uma masmorra inválida: um corpo inerte; incapaz de pronunciar uma palavra; sequer escrevê-la…
Tlahtolteotl, sentenciado ao esquecimento. Ele espera caminhar entre seus protegidos e conduzir seus algozes – embora igualmente esquecidos – para um destino igualmente cruel.
Tlahtolteotl espera o dia em que, liberto, decretará então o fim de tudo e esperado o recomeço.
Lex comentou em 1/2/2007 às 4:46 pm
A palavra sempre foi uma prerrogativa divina, lembre que “No princípio era o verbo”. A linguagem como construção do mundo é um tema já virado e revirado, que o diga nosso companheiro Pablo Capistrano, que já tratou com mais maestria desse tema. Fica então um pouco batida a exploração do tema, mas acho interessante a identificação com a civilização andina. No mais, acho estranho a criação de um Deus (acho que é inventado pois nunca ouvi falar dele, mas também não sou nenhuma autoridade em mitologia pré-colombiana). Sabe por quê? O que significaria esse nome na língua nativa desse povo? Um amontoado de letras ou, sei lá, um xingamento obsceno? Isso pode esvaziar o sentido da história.
Alexandre Honório comentou em 1/2/2007 às 7:23 pm
Na verdade me preocupei mais com o conto e menos com o nome do personagem…
Porém, concordo com o que você colocou e por isso corrigi o nome do “cidadão”. Em N’Huatl, Tlahtolteotl significa “Palavra de Deus”; forçando a barra, “palavra divina”…
Acho que fica mais verossímil desta maneira e, de quebra, faço as pazes com o Movimento Mexica. Valeu pelo puxão de orelha…
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