Contos Insolentes

Sábado

Por Gabriel Trigueiro - 28/04/2007

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Quando eu cheguei na casa de Dona Mercês o aniversário tava começando. Fazia bem seis meses que eu não pisava no Santa Maria. Naquele dia eu teria preferido ficar dormindo, tomando uma cerveja na praia ou qualquer coisa assim, mas sabe como é, tenho meus afilhados e compadres e tinha que prestigiar o aniversário do Paulinho, filho do meu amigo Jorge e neto de Dona Mercês.

Não moro mais lá há mais de 15 anos. Sou branco e sei falar direito. Quem me conhece de fora geralmente nem sabe que vim daquela quebrada e feia. Quando me apresento é como André Santos, porque o Walderson e o “dos” de “WALDERSON ANDRÉ DOS SANTOS”; pra mim, coisa do passado. Pelo menos fora daquele buraco…

Desde que meu comércio começou a crescer – graças à minha perspicácia empresarial, aos toques do mestre Coréia (que Deus o tenha), ao meu senso de oportunidade e aos meus parceiros na China e na Rússia – meu status foi subindo na comunidade até o ponto em que passei a ser recebido como se fosse político, artista ou jogador de futebol, sei lá. É um tal de “Seu” Walzinho, que eu odeio, pros mais novos, e meu-menino-de-ouro pra velharia.

Tinha uma porrada de gente que eu não conhecia naquela festa, mas também tinha muito vagabundo do meu tempo. Chico e Beleza já tinham começado os trabalhos. Nego se gabando que tinha comprado 20 caixas de cerveja e 300 espetinhos pra neguinho se acabar, um pagode alto pra caralho, umas nega se requebrando, aquela coisa de sempre.

Quanto a mim, era só fazer o boa praça, liberar umas “ajudinhas” pra todo mundo que me viu crescer e me achava um ótimo rapaz, comer um pouco de churrasco, beber uns copos e inventar que tinha que buscar minha mulher na casa da minha sogra pra levá-la noutro compromisso. Pra reforçar essa desculpa eu fui bem vestido.

Lá pras cinco e meia meu saco encheu de vez e resolvi pinotar. Me despedi e comecei a andar em direção ao carro. Passei pela padaria de “Seu” Heitor, pra quem acenei tranquilamente e segui andando. Eu nunca que ia esperar que aquele Tobias filho da puta ia invadir lá no conjunto tanto tempo depois que eu e meu amigo “Empresário” tínhamos tocado ele de lá junto com a laia todinha.

O viado entrou lá com a porra no carona de um Gol Bola e derrubou logo um moleque do “Empresário” com um certeiro nos peitos. Fuzilou “Seu” Zezin na frente do fiteiro e seguiu atirando, junto com mais cinco. Na certa eles tavam querendo chegar no Empresário, botar todo mundo pra dormir e ficar com tudo.

Sem poder mais ir em direção ao carro por causa da troca de tiros, eu saí correndo tentando entrar em algum lugar pra me proteger, mas tava foda. Nessa hora um dos bandidos do Tobias desceu do carro do outro lado da rua e me viu, eu fui pra trás do poste. Tobias me viu também. Titubeou um instante e depois mandou brasa, sendo que o tiro pegou no concreto e um segundo depois a turma do Empresário chegou metendo chumbo pra cima dele. Nessa história caíram mais uns três, nem vi quem foi. Quando um dos caras do Tobias levou a pior eu só vi os miolos dele indo parar no muro. Um outro ainda andou cuspindo sangue um tempo, mas caiu com a cabeça no meio-fio.

Assim que deu, eu saí correndo com o cão na canela, todo mundo se agachando e se escondendo, o chumbo comendo solto no meio do mundo. Até hoje não entendi como é que coube tanto nego e tanto ferro dentro de um Gol só, mas parece que já tava esperando, porque tava respondendo à altura.

Correndo e rezando pra nenhum pedaço de chumbo me pegar, eu achei que tava safo quando cheguei lá em baixo, pro lado do mato. Mas ouvi mais rajadas e gritos e me joguei no chão. Coisa de 15 minutos depois dessa agonia, os tiros diminuíram e eu consegui correr pela estradinha até chegar na principal, onde entrei no primeiro táxi que vi. Boa tarde. Alto das Bromélias, Rua José Mayrink, por favor. Sim senhor…

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