Contos Insolentes

Quando o último finalmente se foi

Por Alexandre Honório - 07/03/2007

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Akn’nar está sentado. Ao seu lado, como que observando-o, os restos de seu ato. Em seu bastão pesado alguns resquícios de sangue ainda escorriam: o último dos “peludos” caiu. À frente dele, à “grande bola brilhante” começa a se esconder: a escuridão se apresenta. Akn’nar é o líder de sua tribo. Durante meses percorreu com os seus as planícies que se anunciavam a sua frente. A “grande bola brilhante” e a escuridão revesavam-se pontuando sua caminhada.

Encontrou os “peludos” antes do amanhecer e preparou-se para surpreendê-los: ficou distante, esperou a escuridão chegar e, antes de partir para o enfrentamento, preparou o fogo e afiou seu bastão. Seus iguais continuavam à espreita dos “peludos”, aguardando o melhor momento e o sinal de Akn’nar. O “olho entreaberto” da escuridão estava alto no céu: pouco se via quando Akn’nar finalmente levantou seus olhos por sobre a fogueira e bradou que aquele seria o momento. Desceu com seus iguais e liquidou os “peludos”.

Estava terminado. Com o último deles, Akn’nar finalmente havia completado seu destino: o passo em direção a algo que não entendia estava dado. Enquanto os seus se distanciavam em silêncio – alguns até olhando a figura de Akn’nar ficando para trás -, poucos entenderam o que acontecera até ali. Akn’nar fora o primeiro a sentir que seus dias terminariam quando o último dos habitantes do estreito finalmente encontrasse o fim. Não entendia aquilo que o movia, mas movia-se como que impulsionado ao cumprimento de tal missão.

Passaram-se dias até que finalmente o tempo também levasse o último suspiro de Akn’nar. Seus corpo cansara: seu oponente se desmanchara a sua frente e, durante tal processo, continuou a vigiá-lo. Esperava que este se levantasse para que pudesse derrubá-lo outra vez. Não havia mais sangue em seu bastão – aquele liquido viscoso impregnara sua “arma-ferramenta”. Akn’nar suspirou com força e pela última vez, antes mesmo que a “grande bola brilhante” pudesse se esconder. Antes disso, apenas fitou pela última vez seu oponente e baixou sua cabeça.

Muitos séculos passaram-se depois da vitória de Akn’nar: sua tribo prosperou; cresceu; multiplicou e espalhou-se pelos quatro cantos das planícies sem fim. Milhares de anos depois de sua conquista, os restos de Akn’nar continuam vigilantes: ainda esperam o último dos “peludos” se erguer. Sua história se perdeu entre os seus; seu nome fora esquecido, diante de tantos outros que o sucederam.

Poucos se lembrariam – e por pouco tempo – quando o último Neanderthal cruzara o caminho de um Cro-Magnon…

3 Comentários para “Quando o último finalmente se foi

Lex comentou em 8/3/2007 às 6:24 am

Massa. É um tema recorrente, o do mundo pré-histórico, mas existe algo estranhamente atual nessa intolerância irracional do personagem. O verniz científico também foi bem aplicado, mas a charada apresentada no final poderia ser morta já no primeiro parágrafo – e também, dependendo da força da narrativa, até ser dispensável. Teria desenvolvido mais a obssessão do personagem pela caçada, ou uma motivação mais fútil, para dissimular o inexplicável passo em direção a algo. Ou mesmo mais dicas de uma possível psicopatia hereditária, que poderíamos carregar até hoje. Também não usaria as aspas, já que são palavras naturais para o personagem, e as aspas dão uma impressão de que a palavra está deslocada de contexto, o que não é verdade. Falando em nomes, gostei do que você deu à lua, mas por que o sol também não seria um olho que tudo vê? Desconfio que eles tivessem a noção de figuras geométricas, e se identificam os astros como olho, no caso da lua, deveriam aplicar esse conceito para todos os outros. Mudaria também a arma-ferramenta, sei que você consegue um nome melhor. Parabéns.

Lex comentou em 8/3/2007 às 6:25 am

minha obssessão no comentário anterios tem um s a maiss, é porque ssou meio obssssesssivo com essssa letra.

O problema é que, quando escrevo pro Disruptores, geralmente faço isso muito de “sopetão”: as pesquisas são rápidas demais…
Acho que poderia desenvolver melhor este texto… Estava puto com o lance lá do BB e resolvi empregar alguma coisa do tipo “qualquer macaco é capaz de fazer isso”.
Akn’nar, na verdade, quer ter certeza de que o macaco não se levantará mais: que este não voltará. É obsessivo, concordo, mas também há nele uma certa preocupação com a manutenção do status quo que se anuncia.
Valeu, cara…
Inauguramos finalmente o mês de março por aqui.

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