Por Alex de Souza - 27/03/2007

Em memória de Oaxaca e Bello Monte
A redescoberta da Proto-História vem estarrecendo a cada dia os estudiosos do Império Intergaláctico Humano. Sempre se imaginou que a primeira incursão daquela raça pelo Cosmos teria sido fruto de um fenomenal lance de sorte. A tentação de adquirir aquelas vastidões desabitadas, uma fonte perene de recursos naturais já indisponíveis no sistema solar original deles, parece ter motivado o estranho silêncio sobre aquele período, que só agora vem sendo quebrado.
Um estudo mais detalhado das técnicas colonizadoras, no entanto, trouxe à tona aspectos desconhecidos da Grande Conquista. Os primeiros passos foram o envio de sondas não-tripuladas a sistemas solares próximos. Elas eram responsáveis pela análise detalhada da atmosfera, para o caso de algum planeta vir a ser futuramente habitado, e também do solo, recolhendo amostras e utilizando emissores de ultra-som capazes de detectar diferentes minérios. Essa etapa era crucial, pois determinaria a viabilidade econômica da empreitada. Conhecidos os alvos potenciais, era enviado o maquinário pesado para identificação de jazidas, extração e pesquisa científica.
Para isso, eram construídos imensos complexos, os Beemotes, unidades espaciais autônomas capazes de realizar essas tarefas e ainda definir a logística de manutenção da estrutura e distribuição dos materiais extraídos para as colônias mais próximas. No comando, sistemas ainda rudimentares de inteligência artificial cuidavam da administração dos equipamentos, com as centrais operadas por golfinhos. Eles eram acomodados em tanques preparados para manter a água purificada e alimentados por sondas que também captavam e transmitiam as ondas cerebrais dos animais aquáticos. Sempre que as máquinas se deparavam com alguma situação fora do usual, a válvula paraconsistente do sistema operacional dos computadores acionava os golfinhos. De acordo com a reação dos animais, o impulso elétrico de seus cérebros era interpretado pelos computadores como uma decisão.
A Onda Abolicionista, período marcado pela luta organizada, em diferentes galáxias, para elevar à categoria de seres, perante o Parlamento Universal, diversas espécies sencientes, despertou o interesse dos revisionistas pelos golfinhos. Aqueles antigos e misteriosos cetáceos, que não puderam ser beneficiados pelos direitos previstos na Carta pela Diferenciação Racional, se tornaram um símbolo daquele movimento.
Sempre que os golfinhos eram acionados pelos computadores dos Beemotes, eram criados relatórios operacionais. O resgate desses antigos documentos forneceu farto material de pesquisa, apesar da dificuldade em interpretar corretamente os dados. O principal obstáculo era a gigantesca capacidade sintática dos mamíferos frente à parca leitura oferecida pelos terminais neurais dos computadores.
No entanto, bastou a sobrevivência de um único relato.
Após anos de pesquisa, conseguiu-se chegar a uma versão confiável do que realmente acontecera quando o primeiro Beemote adentrou o sistema da estrela HD 81929 e instalou-se na órbita do quinto planeta. Lá, as sondas identificaram jazidas de rênio de valor incalculável.
Era um astro excêntrico. Análises preliminares apontaram uma concentração anormal de diferentes gases, com a formação constante de compostos voláteis que preenchiam pouco mais de um quilômetro de atmosfera. A superfície era toda recoberta de ralas gramíneas que se agitavam, inconstantes, ao sabor das lufadas de ventos etéreos. Sem cadeias montanhosas, as planícies se estendiam ao balanço do infinito. Em contato com os diferentes miasmas, a grama apresentava aspectos multicoloridos.
Perante aquela paisagem, os controles dos Beemotes entraram em colapso. A profusão de gases comprometeu algumas estruturas, ora congelando-as, ora oxidando-as, ora dissolvendo-as. Os computadores não conseguiam determinar um padrão de manutenção e, por um instante, o gigante quase entrou em colapso. Os golfinhos-operadores agitavam-se nos tanques, investindo contra paredes construídas para não se romper.
Requisitaram diversos protocolos de retirada, mas os controles de prioridade do sistema central avaliaram as perdas até então, e perceberam que não superavam os ganhos. Foi quando, de repente, acabou.
As correntes gasosas estagnaram-se, deixando apenas uma frágil concentração de amônia e dióxido de carbono. A grama tornou-se gris e secou em questão de minutos. Todos os comandos voltaram a responder. As máquinas começaram a extração do rênio e por lá permaneceram por mais 300 anos.
O que as máquinas não compreenderam é que, naquele planeta, existia uma civilização. Ao longo das eras, as plantas dali desenvolveram a habilidade de trocar outras informações – além da sua hereditariedade – pelo pólen que produziam. Essa capacidade evoluiu e, logo, a comunicação entre os habitantes passou a se realizar a nível celular, pela respiração das folhas. Não tardou para que a miscigenação resultasse num amalgamento das espécies, produzindo uma monocultura hegemônica. Eram auto-suficientes, produzindo e reprocessando todos os elementos necessários à sua nutrição. Só restava a elas o deleite intelectual. E se dedicaram, por boa parte da eternidade, a produzir os mais diversos conhecimentos, logo compartilhados entre seus iguais, à disposição de qualquer membro da comunidade, espalhados pelo ar.
Assim, longas cadeias sulfurosas traziam a resposta para os segredos da matéria escura que compõe o universo. Doze milênios de arte poética foram compendiados num singular aroma, semelhante a jasmim e vinagre. E, mesmo a chegada dos Beemotes havia sido profetizada num antigo prurido, cujo odor era de cinzas. E, lá, havia uma assinatura química mais tarde identificada como a noção daquelas plantas para o Apocalipse. Era o gás expelido pelos motores do leviatã de aço.
Gustavo Ribeiro comentou em 27/3/2007 às 7:30 am
Esse golfinhos têm alguma familiaridade com os pré-coges, daquele filme com Tom Cruiser: A nova ordem?
Muito bom, Lekinho!
Txelo Andrade comentou em 27/3/2007 às 2:54 pm
Valeu Alex Luthor! Que lombra, véio… Acaso os golfinhos não foram os primeiros a fugir, no hitchhikers guide to da galaxy? whatever, chega de elogio pra não encher bola. Hugz
dantas comentou em 27/3/2007 às 8:51 pm
°_°
Moacy comentou em 28/3/2007 às 4:13 pm
Meu caro: Não é fácil escrever FC, hoje. Você sabe disso. Louve-se, pois, a sua iniciativa. O foco central do tema é bom, já que interessante em suas premissas futurístico-exploratórias. Talvez lhe falte um desenvolvimento conteudístico mais expressivo. Mas posso está equivocado. De qualquer maneira, valeu! Um abraço.
Paulo Ricardo comentou em 12/7/2007 às 3:47 pm
Véio o que foi que tu tomasse pra escrever esse texto? Eu quero também!
Que ficção… isso num existe. mas iiisso mermo!
waldenor comentou em 20/8/2007 às 2:06 pm
bom… não concordo com o comentário acima sobre a falta de desenvolvimento de conteúdo… putz.. vc escreveu para caber em um tubo de blog o que me parece ser o transcorrer de milênios a fio… para terminar em uma inusitada e inesperada construção civilizatória a base daquilo que nas raças ditas superiores geraria o feronômio… cacetada cacetada… eu já tentei imaginar coisas inusitadas… mas como… isso é demais… foi muito bom… no minimo… toda vida me dá vontade de escrever algo quando leio as FCs de Alex.
waldenor comentou em 20/8/2007 às 2:14 pm
putz… escreví feronômio… deve ser uma coisa relacionado a nome de quem leva seilá quem… ô neologismo infeliz… eu quis dizer FEROMÔNIOS…
… coisas das doidice de waldenor mesmo.
Nazarethe Fonseca comentou em 16/6/2008 às 7:21 pm
Simbólico,puro e real.Estanho como tudo que é colonizado perece.Ficção das boas, complexa e densa,acho que tem muito mais a mostrar Alex, que tal prosseguir?bj
danielle carcav comentou em 5/7/2008 às 3:06 pm
achei fantástico…nem com mil anos de estudos tecno-científicos eu conseguiria desenvolver algo tão singular…cara, que doidera!
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