Por Alexandre Honório - 28/08/2007

É o rodo; a rotina nossa aqui, playboy, é o rodo. É ele que manda: nós apenas puxamos ele de um lado pra outro. Se o “freguês” tem trocado, beleza; senão, bem, a gente vê como fica…
Faz dois anos que tô por aqui: todo o dia, das dez às dez – as vezes, até mais –, sempre passando o rodo, ganhando “não”, “cara-feia” e, nem sempre, umas “moedinha”. Nesse cruzamento, minha “casa” e de outros “chegado”, a gente fica e tenta descolar algum: às vezes, no fim do dia, dá pra livrar “a cara” e tal; outras vezes, nem “tal”.
Todo dia, a mesma coisa: passa o rodo, pede um “troco”, desce o vidro, leva “cara-feia”, escuta “não”… Se o “rodeiro” tem sorte, o motorista descola algum; na maioria das vezes, não é bem assim.
“Rodeiro” é profissão: tem que vender seu “serviço”; tem que insistir. Implorar, o caralho: insistir. Os “cabreiros” são os que liberam mais rápido. A gente sabe, trabalhando aqui, quando o “cara” fica “cabreiro” com “o serviço”: gagueja, fala rápido, gesticula e dá uma “pisadinha” no acelerador – só pra descolar e deixar a gente pra trás.
Mas tem que insistir: sem choro, nem vela. Na boa, tem que ter choro, sim. É na base desse “choro” que os “camarada” consegue descolar uns “real”: na maioria, entre R$ 0,10 e R$ 0,05; quando tá com sorte, o “rodeiro” leva entre R$ 0,25 e R$ 0,50; se a “alma” é caridosa, aí aparece R$ 1,00. Na maior, no final do dia, dá pra tirar uns R$ 40,00 livrado (conversa, dá até mais)…
Vou mentir, não: tem uns aqui que curti “pedra”; outros são chegados no “preto”; a maioria, quando sai, vai ao bar e toma umas “cachaçinha”.
Vez ou outra, um ou outro pensa que a gente é avião. Não é comum, não; as vezes, com a grana que aparece, uns até se “engraça” com a “parada”. Tudo nas “entoca”, na boa: mas, num vou mentir, rola…
Eu não – já fiz de tudo um pouco, mas agora não. Tenho filho pra criar. Já curti muito, “pirei” geral, mas, depois do “boy”, num entro nessa mais. O que tiro aqui é pra garantir o Luiz – o moleque tem “três”. Ele vive com a “velha” e, no fim do dia, deixo uma parte do “apurado” por lá. Deixo um “pedaço” da grana com a “coroa” também. Já engoliu muito sapo e, sei disso, não tem orgulho do que faço; não pra menos…
Virei “sujeira”. Dei trabalho e, agora, ela não quer saber. Não sei se isso vai mudar; não me importo. O que faço, dia após dia, é encontrar os “chegados” e ajudar a limpar a sujeira que a cidade deixa nos carros dos “playboy”.
Sei que, pra eles, a gente é parte dessa sujeira. Aqui, nesse cruzamento, já vi de tudo. “Neguinho” folgado tirando onda; puta bancando escrota; “cidadão de bem” dançando. Não me interesso mais por isso; pouco me importa. Não dá pra mudar depois que a gente se acostuma.
Livrando “meu trocado” no fim do dia, quero mais é que se foda. Por que me importar? Não tive sorte, já disse, mas nem me importo com a sorte dos outros. Um motorista me perguntou, como você, se tinha futuro por aqui. Respondi na “lata”:
- Nunca tive futuro, velho. Minha mãe me disse isso; minha “ex” me disse isso; até você acha isso. Meu futuro morreu. E agora? Tenho que garantir meu presente enquanto der, né não!?
Agora, velho, desculpa, mas tenho que voltar “pro batente”, valeu!? Pega o beco; vaza, “playboy”…
Hugo Morais comentou em 28/8/2007 às 3:26 pm
Dia desses, numa crise de alergia que essa mudança de tempo provoca nas crianças, estava com a minha, Maria Luisa, na clínica vizinha ao Nordestão. Entraram dois moleques lá pedindo dinheiro dizendo que tinham vindo a Natal atrás de emprego e não tinham conseguido nada, pior, tinham sido humilhados por policiais, que tinham inclusive roubado o dinheiro deles. Entraram na clínica para pedir dinheiro para voltar para casa, uma cidade do interior. Quando saímos da clínica demos de cara com eles tomando cana num carrinho de cachorro-quente na calçada do Nordestão, onde tem um posto policial.
Outro dia estava lanchando no Pé-de-Moleque e um menino, engraxate, me pediu dinheiro. Dei R$ 0.95 para ele, todo o troco. Depois de alguns minutos ele voltou para devolver: -Tio, você me deu R$ 0.95.
Duas histórias, duas faces da mesma moeda.
Aristeu comentou em 29/8/2007 às 9:26 am
Pra quê tanta aspas, brou?
Alexandre Honório comentou em 29/8/2007 às 10:27 am
Sei lá… Um modo de evidenciar gírias e variantes. Senão isso, estaria “frescando” com a norma, “né não”?
Aristeu comentou em 30/8/2007 às 11:49 am
Né não. O texto é em primeira pessoa. O personagem, acredito, não teria esse pudor com a norma, ô Norman.
Alexandre Honório comentou em 30/8/2007 às 5:31 pm
Não há pudor, mas, para quem escreve, acentuar estes maneirismos é importante. Gírias e neologismos pedem este tipo de coisa, não. Senão, aqueles alheios a tais códigos, terão maior dificuldade de compreender o texto…
Aristeu comentou em 31/8/2007 às 10:10 am
Hmmm…. não me convenceste, não. Vê lá o Guimarães.
Alexandre Honório comentou em 1/9/2007 às 11:56 am
O Rosa foi um esteta, Aristeu. Entretanto, é justamente tal aspecto que torna a obra dele uma “pedreira” – com aspas mesmo.
Os neologismos e afins que ele introduziu – e cuja maioria saiu de sua própria “cachola” – transformam seus livros em verdadeiros desafios à compreensão.
Não pretendo isso: como disse para Alexis, esta crônica saiu como uma tentativa de algo cru; uma espécie de entrevista-conto.
Daí, a princípio, meu julgamento quanto à necessária inclusão das aspas.
Hugo Morais comentou em 3/9/2007 às 12:28 pm
Alguém tem uma cerveja aí?
Alex comentou em 3/9/2007 às 1:53 pm
Concordo com aristeu. tira as aspas que fica beeeeem melhor.
Alex comentou em 3/9/2007 às 1:55 pm
As aspas evidenciam ou um caráter artificial à narrativa, ou um quê meio alienígena. “Bom, gente normal não fala assim, então tenho que colocar as aspas para marcar”. Sei que você não pensou assim, mas essa é a impressão. Acaba quebrando a naturalidade do discurso do personagem, já que essa é norma bengell culta pra ele.
waldenor comentou em 10/9/2007 às 2:30 pm
para mim o texto com as aspas passa a impressao de que se quer evidenciar um mundo… os maneirismo para a gente os comuns, playbas, etc… ficar inteirado que é um mundo alheio.. as aspas.. por norma.. evidenciam o que um terceiro está dizendo e o primeiro transcrevendo… é como se alexandre evidenciasse essa entrada dele nesse mundo apenas transcrevendo….
Filipe Mamede comentou em 19/12/2007 às 5:42 am
Pois é Alexandre, nem mesmo tinha chegado aos comentários e tambem tinha atentado para o uso indiscriminado das “”"”… uma catadupa de aspas, não é mesmo? Querendo ou não você acabou distanciando ainda mais o leitor do personagem, na medida que você marca o discurso, aparentemente, errado do rodeiro. Bem, não sou linguista nem muito menos catedrático. Não aprecio, de todo, o cunho vernáculo dos vocábulos, estou mais para a gíria do que para as palavras de terno e gravata. Enfim, sem tantas aspas, o discuros deslancharia com mais naturalidade…
Um abraço.
danielle carcav comentou em 5/7/2008 às 4:10 pm
As aspas evidenciam ou um caráter artificial à narrativa, ou um quê meio alienígena. “Bom, gente normal não fala assim, então tenho que colocar as aspas para marcar”. Sei que você não pensou assim, mas essa é a impressão. Acaba quebrando a naturalidade do discurso do personagem, já que essa é norma bengell culta pra ele.”"
falando delas…as aspas…são extremamente importante para evidênciar ações, palavras, colóquios…porém são contrárias ao natural, ou original, sei lá…perdoe-me mas o que quero dizer é que se perde o vínculo ao se imaginar a situação real…
2007 ® Todos os Direitos Reservados
Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.
DZ3 Design