Contos Insolentes

Passagens e Retornos: Uma Reflexão sobre o Real e o Tempo

Por Waldenor Júnior - 21/11/2007

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O puntual. Uma visão funilar, canalizada em uma diminuta porção de tentativas e erros dinâmicos, geométricos, estendidos para fora e para todos os lados e assim mesmo ainda dentro de si. Ainda que visto em vários ângulos, é um ponto, um nó. A matéria é um nó infinito, perturbando a tranqüilidade do morador de uma figura que não posso imaginar por faltar o substantivo, a substância, até o abstrato falta a ele, pois não tem imagem, nem é real, mas é a pura existência sem os nós. Talvez seja essa a morte. Para onde inexoravelmente se caminha o todo. E se ainda para aqueles que acreditam depois da carne acordarem, é porque verdadeiramente ela não chegou… até que venha.

Nesses nós, os pontos infinitesimais, que são os milhares, milhões de bilhões de bilhões e não há quem finde a conta, está esse universo extenso, grandioso, implacável. Dono de todos os segredos e barulhos verbalizados em sistemas e movimentos… Mas numa catarse… um estrondo… de fora para dentro, num sopro inacabável de retorno, aspiro do infinito ao meu instante, que converge a meu solo, a meu ritmo, a meu olho, ao que vejo, imagem decifrada em minha máquina de tecidos complexos, e tão simples quanto dizer como tudo é apenas pulso: o coração é pulso.

Este fala uma língua binária, onde expando, e ele se contrai nesse solver e coagular, escrevendo todos os pontos em um único texto… Decifro o zero que se conecta ao que vejo, meramente um simples instante paralisado nesse sopro sem distâncias e centros, e devoro o um que se conecta com meu palpitar elétrico, desconcertado, pedindo lugar real, centrado… E centrado me reencontro, e me vejo. Formidavelmente nunca me levantei do lugar onde estou agora. Vou explicar.

Estou viajando no ônibus que todos os dias tomo para ir ao trabalho e para retornar a meu lar. Nunca importa a direção, nem o ponto de vista do observador. Não há direção. O móvel se trafegasse para, supostamente, o leste, o estaria fazendo num instante infinito, ou se para oeste estaria se deslocando em um instante congelado nisso que chamamos tempo, portanto estou parado. Então estou paradoxalmente me movendo, e é isso o que acontece, tudo o que meus sentidos dizem é o real. Eles relatam o óbvio, o simples, o necessário, e eu os respiro e transformo em gás carbônico.

Então como todo ser que respira, e antes de tudo o que disse acima, eu estava no ponto de ônibus com uma multidão típica e entediada destes lugares. Esses, comigo esperando, por um período de tempo que não é muito, e sempre numa determinada hora. Vejo chegando meu transporte. O pego. E dentro deste sempre penso: estou indo para casa. Então há uma direção, um rumo, isso é um fato inabalável. Quebra-se um nó estático. Há o começo e o fim. Existem o passado e o futuro. Nada é sonho.

E é verdade pois logo desembarco, em um tempo que também não é muito… e é isso, eis que me vejo em casa. Meus sentidos registram e comparam e resolvem o problema das conexões enfadonhas de abres e fechas, empurras e puxas, paro e ando, salto e subo, falo e ouço, movo e se move… …e daí estou eu assistindo televisão sentado em minha sala de estar. Ainda não sei se antes ou depois do jantar. Isso não é um problema como se imaginaria que possivelmente eu esteja em devaneio, nem uma distração por falta de interesse naquilo que sustenta a vida. Apenas porque é algo que será resolvido instantaneamente… assim… desta maneira: estou jantando. Como se fosse um simples koan resolvido, e é.

Tudo é tão belamente resolvido e respondido, em uma descarga de hipertextos com links que não preciso saber a formatação e onde se insere o espaço que preenche a perfeição: o vazio. Assim me movo. Assim se movem. Ponto a ponto todos estes numa dança de conectude imperturbável e não-vacilante, sincrônica, onde quando se nasce com o infinito é plantado em um mapa circular e preciso no qual os objetos caminham em sua mesma geometria inseparável: os objetos no espaço infinito e o homem gerado.

Dai temos formada a máquina relojoaresca com seus segundos e milênios desencadeados, tique-taqueando o universo e esse homem, que há dois segundos atrás fora um símio, mas agora, nesse instante se tornara um conceito abstrato, um amontoado de planos, complexitudes e sincronias… melhor dizendo sincronicidades… …veja uma folha despencar do alto de uma frondosa mangueira. Ela passa bem de fronte a seu rosto sem tocá-lo, a poucos centímetros.

Você nem a viu, foi instantâneo, e não houve importância nisso. Mas imagine, de todos os infinitos precedentes, deslocados ao longínquo atrás, uma proto-célula nasce, percorre inúmeros caminhos da tentativa e erro até chegar ao primeiro vegetal por sobre a face da terra, florescendo milênios depois em uma mangueira frondosa, plantada bem ali, e você algum tempo depois nasce justamente em algum momento atrás, num trajeto de vidas monstruosamente separados e encaminhados para que esse encontro aconteça numa mecânica precisa, em um cruzamento inexplicável.

Essa é a sincronicidade. Isso é o real… é a verdade. Alguns chamam esse fenômeno, numa tentativa de abarcá-lo com o pensamento ainda falho, de destino. Mas é a sincronia do banal que se junta com o teor mais complexo como os sonhos premonitórios que formam os caminhos. O emaranhado da teia hipergeométrica. O enigma de tudo está na sincronia. Esse é o segredo da vida.

Guardado nos círculos perfeitos e na geometria que Pitágoras tanto perseguiu. É o quando partimos, chegamos em um lugar, numa expectativa do ponto de vista do observador relativamente estático… e agora sou meu observador mais profundo, dinâmico. Inebriado com o fluxo de lembranças que penso estarem longe. Em meu círculo escuto o barulho do motor, esse ruído monótono que me põe a embalar. Estou agora no veículo indo para casa… por fim.

Puta merda… é isso o que vejo desde o começo da narrativa: a nuca do passageiro da frente. Todos os dias, quando consigo um lugar sentado, fito uma nuca diferente…. Espere, um momento…. deixa-me confessar algo… esse é o dilema: será realmente uma nuca diferente? Claro que é, óbvio. Ninguém jamais duvidará que não seja… Não. Quantas vezes já estivemos sentados em um ônibus? Milhares.

Nessa infinda sincronia que fez o metal se transformar em ônibus e objetos afins… e carbono que fabricou os organismos pluricelulares e objetos afins, a se tecer em uma dança circular num eterno retorno, nos sentamos milhares de vezes no acento de um ônibus. Será que são milhares, ou uma única vez? Quem poderá garantir a você e a mim com toda a resplandecente certeza que não fora uma única vez que você sentou no acento do ônibus?

A verdade então é essa: nunca saí deste lugar… não sei onde me encontro… e tão simples é a explicação e o pensamento que diz que tudo nesse regresso é um sonho. Todo o restante do que me lembro antes de tomar o lugar onde estou é meramente um desenrolar onírico postado por toda a mecânica inefável da não existência de um passar do enganoso tempo. Na verdade estou sentando ainda jantando, ou vendo televisão na sala de estar.

E quando me lembro de ter jantado, nunca fiz isso, apenas sonhei como quem dorme profundo e vê todas aquelas imagens, antes tão reais, e depois do despertar, percebemos o quão tolo fomos em acreditar em tudo aquilo. Até a brisa sentimos… até o medo de morrer nos assombrou. Mas lhe digo, depois de acordar, tudo não passa de uma lembrança enevoada, uma projeção de sombras na caverna. Então meu jantar foi uma ilusão… não, estar sentado na sala de estar é a ilusão. Nem uma dessas.

A realidade é o acento do ônibus e todo o resto é uma fantasia armada pelo desejo de significar o tempo, onde na verdade sou meramente um passageiro.

4 Comentários para “Passagens e Retornos: Uma Reflexão sobre o Real e o Tempo

Se um viajante numa noite de inverno,
Fora do povoado de Malbork,
Debruçando-se na borda da costa escarpada,
Sem temer o vento e a vertigem,
Olha para baixo onde a sombra se adensa,
Numa rede de linhas que se entrelaçam,
Numa rede de linhas que se entrecruzam,
No tapete de folhas iluminadas pela lua,
Ao redor de uma cova vazia,
Que história espera seu fim lá embaixo?

waldenor comentou em 21/11/2007 às 9:09 pm

vc me apresentou a italo… e a esse livro… foi absolutamente fantástico…

Elis comentou em 26/11/2007 às 11:23 am

Gostei do passeio (real? existencial? vivo!)

gabriel comentou em 27/11/2007 às 11:36 am

Gostei muito Wal! Escreva mais pro Disruptores. Aliás, eu tb quero retomar minha produção hehe!!

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