Por Moura Filho - 19/01/2007

Hei de ser gigante um dia. Tenho fé. Hei de ser gigante um dia e vou crescer por entre os prédios do Centro de surpresa, do nada, como que resultado desse calor de agora. Os cidadãos desesperados correrão para salvar-se. Mas isso não será possível para a maioria. Eu, o gigante, coisa irreal, imensa e forte – ante a correria – darei início ao meu tempo. Com uma mão apenas pegarei três vendedores de vales-transporte; o aleijado que usa a imobilidade de seus membros inferiores para extorquir dinheiro; o dono da carrocinha de cachorros-quentes e a dona do carrinho de milho; três das garotas que oferecem empréstimo especial aos idosos e – por capricho – o mímico que se pinta de prateado. Arrancarei uma perna de cada. Depositarei os corpinhos – fazendo um montinho – no meio do principal cruzamento do Centro. Formará uma poça enquanto eles dão suas últimas debatidas. A rua é inclinada, o que dará uma direção ao que escorre: o rio. Com um pedaço de aço retirado de alguma laje farei uma circunferência na qual engancharei as pernas (uma a uma), como que num chaveiro. A perna do aleijado não servirá, seca que é. Substituirei-a pela perna da senhora que ficou escondida – em choque – atrás da banca de lanches. Será mais um corpo no montinho do cruzamento. Ao final da operação, terei mesmo um chaveiro de pernas humanas. E frescas. O prazer de ter um objeto do tipo consiste em poder jogá-lo para cima: ele gira e se abre como uma flor voadora, um catavento livre. Tendo como fundo o céu azul, o chaveiro de pernas respingará vermelho para todos os lados. Haverá muito silêncio após isso. Pois ali, a partir daquele momento, será a terra do gigante: eu. Em minha terra, com calma, provarei ser mais forte que tudo existente. Quase nunca sairei dali. Somente quando tiver fome. Ou desejar fazer crueldades com pessoas. Coisas que já planejam e me enlevam: arremesso de gordos contra montanhas ou prédios (como tomates); lançamento de crianças para vê-las quicar na superfície do oceano (e saber quantos filhos vou ter); atiramento de jovens ao espaço (tentar varar a órbita terrestre); entre outras. E é claro, a minha preferida desde sempre: pingar plástico (de lona) incandescente em meio às megalópoles, ver as gotas cair em meio à multidão apavorada, como tanto gostava de fazer quando criança (com formigas). Serei muito feliz. Eu, o gigante; e meu mundo: um local onde tudo – exceto eu, claro – permanecerá pequeno e vil, porém muito, muito mais humano. Enfim, será a paz na terra.
Alexandre Honório comentou em 19/1/2007 às 4:29 am
Com certeza serás um gigante, oh, “grande” Moura…
Mas, dando uma passada pelas quebradas, um grande amigo nosso mandou lembranças para você: o Haver no Presente do Indicativo… Ficou puto contigo porque tu esqueceu dele.
No geral, o texto acima está bem melhor que a tua produção recente; ao menos acertou a mão dessa vez…
Lex comentou em 19/1/2007 às 8:11 am
O conto tá fuderoso, parece saído dos Cantos de Maldoror.
…
Na minha terra, “ei” é freio de burro.
Moura comentou em 19/1/2007 às 6:29 pm
Se vergonha fizesse crescer, minha estatura já seria superior à do gigante. Peço perdão aos meus leitores pelo deslize.
PS.: O senhor Alexandre – que é o ‘editor-chefe’ dessa seara – não deveria verificar essas “freadas”, não?
Isso está exalando preconceito. Ficarei atento.
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