Contos Insolentes

J. Histórias – Fábulas de um fudido (sic)

Por Moura Filho - 22/12/2006

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PARTE 1 – A APOSTA

J: Segura isso aí… (joga uma caixinha com algo dentro, dá um risinho curto) Hehe…

– Que é isso?

J: Só segura e escuta… (Acende um cigarro) Estava lá naquele bar do Centro. Um cara chegou na mesa que eu estava e falou: “Aê, ‘boe’, aposto contigo que dou três pauladas no meu ovo esquerdo com esse copo sem nem piscar. E aí? Encara? Valendo uma grade. Que tal?”. Eu demorei um pouco para entender porque já estava meio chapado. Olhei o cara… Ele usava um calção de listras, daqueles de escola mesmo, saca? Lembrava aquele jogador, personagem do Chico Anísio. Pô, Chico Anísio é uma… Então… Fiquei naquela.

– E o cara?

J: O cara insistiu. “Como é, velho? Vai encarar ou não?”. Aí eu perguntei o que porra era mesmo. Ele explicou novamente: “Simples ó: boto meu ovo pra fora e dou três pauladas com o fundo do copo. Sem tremer nem parar. Se rolar, tu me paga uma grade. Senão, tu que bebe. E aí?” Lembro bem. Tava perto das 3 horas da tarde. Eu sei porque o vendedor de limonada, aquele do assobio escroto tinha cabado de passar pela frente do bar. E todo dia ele passa nesse horário porque vai vender lá na Rui Barbosa, pra uma galera da loja de 1,99. Tudo cliente antigo dele. Eles compram pão na padaria da esquina e comem com limonada. Ei, dá pra crer que aquele figura mantém a família toda só com aquela grana? Se liga aí: a vida do cara depende de limão, água e açúcar. Né, não? Sim, mas então… O cara continuou perturbando co’o troço do ovo. Eu não tinha mesmo o que fazer resolvi bancar pra ver. No máximo ia ver aquele bebo se fodendo. Omelete de ovo de otário, é o que ia ser.

– Tinha muita gente?

J: Galera pouca. Os de sempre, uma decadência só.

– Por que tu sempre vai ali, se só tem fodido?

J: Porque ali me sinto lindo, melhor que todo mundo. Sobe minha auto-estima, saca? Os shoppings me deprimem porque não sou melhor que ninguém, sou só um fodido no meio da perfeição. Pelo menos é assim que me sinto. Parece até genético esse sentimento. Mas ali, podia ser deficiente, sem os dois braços e sem as duas pernas que ainda seria top. Jovem, saca? Ser jovem é tudo! Eu entro lá e sei que sou o único caralho que ainda fica de pé sem nada. E que ainda pode ser usado sem ter grana no meio. E também foi por isso que topei a aposta. Queria ver aquele filho da puta se foder na minha mão. Aqueles velhos escrotos acham que sabem tudo. Sempre aquele papo: “Eu lutei pra você ter essa liberdade hoje”. Foda-se. Foda-se. Foi por isso. Eu olhei pra ele e disse que casava a grade mas com uma condição: “Ó. Eu topo. Mas se sujar o bar vai ter de limpar antes de ir pro hospital. Não quero nem saber se vai sangrar se vai doer, foda-se. Tem que limpar e deixar um brinco. Com ovo ou sem ovo. E nem adianta ter pressa porque tá tudo em greve mesmo. Aceita?”. Ele me olhou meio desconfiado. Achei que ele fosse desistir. Mas não. “Essa porra tá muito doida”, pensei. “Vamo pro balcão”, ele disse. Eu fui. Nisso, o resto do pessoal que estava já tinha se ligado na história, tá ligado?

– E aí?

J: E aí que foi… Ele explicou que as cervas dele estavam disponíveis no balcão, se eu ganhasse. Era só falar com o dono. Pedro. Eu conheço. Perguntou pelas minhas. Eu mostrei pra ele uma nota de cinquenta; botei debaixo do cinzeiro e disse que ele podia tirar dali se conseguisse. Ele deu uma risadinha meio galada, saca? Pegou o cigarro, deu mais um trago, botou o resto na borda do balcão. “Esse galado vai abrir”. Foi o que eu pensei. Com a mão esquerda, assim (gesticula), puxou o calção e botou o ovo direito num daqueles bancos de madeira que tem o tampo redondo. “Esse bicho tá de onda”, eu dizia só pra mim. Ele pegou o copo com a mão direita, bebeu o resto da cerveja. Sempre olhando pra mim. “Ele só vai até aí”. Daí, ele levantou o braço, deu uma cuspidinha, olhou pra grana, olhou pra mim: “Se liga aí bóe”, disse assim. E PAH! PAH! PAH! Velho, no ovo! Nem vermelho ficou. Filho da puta!! Filho da puta!! Deu sem nem piscar. Três pauladas.

– Caralho! Sério? – coloca a caixinha de lado.

J: Tô dizendo. Num solta não (refere-se à caixa). Aquele velho filho da puta… Só fez guardar o ovo, pegar minha grana e rir depois. Com a maior calma. Velho filho da puta. Galado!

– Como?

J: Como é que eu ia saber. Não sabia como. Só fiz entregar a grana e ficar no meu canto. Me mordendo de ódio por não entender aquela malícia. Fiquei macambúzio mesmo. Bebi pampa e fumei também. O cara só fazia curtir e beber com minha grana. Galado.

– Cê foi embora sem saber?

J: Quase. Já estava de saída. Ele quem me impediu.

– Por quê?

J: Escuta só… O escroto chegou pra mim com a maior cara de rapariga e disse que tinha ido com a minha cara e que pra eu não ficar triste ia revelar o mistério do ovo. Achei que fosse tiração ou que ele fosse contar algum truque ou capacidade de resistir à dor. Que nada. O cara se chamava… É chamava (ri)… O nome dele era Ademar . Tinha sido jogador de futebol. Numa partida de final, há 12 nos, pra impedir de fazer o gol, um zagueiro fez falta nele. Chutou o ovo dele. A pancada tirou ele de jogo. E do futebol porque o dali ele desenvolveu câncer no saco. Foram seis anos de tratamento. Quimioterapia e o tudo. Enquanto ele ia se tratando, ia perdendo tudo. O cara que chutou ele conseguiu ir jogar no exterior. Mora lá até hoje. Se não tivesse rolado o câncer, era o Ademar quem estaria lá fora. Isso aí eu soube depois.

– Sim mas e daí? Qual era a de poder bater?

J: Ele me contou que fez parte do tratamento amputar seu saco. Imagina o vazio de uma vara sem trouxa? Pois é. “O médico me aconselhou encher com alguma coisa. O jeito foi por silicone, pra manter o equilíbrio, cê entende, né? Não sinto nada. Pode até morder se quiser”, ele me disse, tirando onda, rindo. E bateu com a bolinha no assento da cadeira. Silicone. Ovo de silicone. Dá pra crer?

– Caralho, que onda. Já tinha ouvido falar de ouvido saindo de rato, de olho artificial, o escambau. Mas ovo de silicone! Nunca. E ele trepa? Num incomoda não?

J: Hoje… (olha o celular, confere as horas)… Acho que num rola mais não ó.

– Como assim? E como é que tu sabe da história da vida do cara? Ele te contou tudo no bar? Cê ficou amigo do cara?

J: Não. Quer dizer. Mais ou menos. Fiquei curioso num troço. Queria saber como era. Se fosse legal, resolvi que ia ficar pra mim. E fiz uma visitinha surpresa pra ele.

– Visita?

J: É. Abre aí a caixinha que eu te dei…….

[CONTINUA]

3 Comentários para “J. Histórias – Fábulas de um fudido (sic)

Lex comentou em 26/12/2006 às 9:54 am

o lance da caixinha é escroto…

yuri comentou em 28/12/2006 às 8:19 pm

Engraçado esse lance de “continua”. Mas tô no aguardo.

Rafael comentou em 5/1/2007 às 11:56 am

Gostei, tanto do jeito de escrever como do desenrolar da estória, você não se preoculpa em querer escrever difícil, como a maioria está fazendo.

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