Por Alex de Souza - 13/12/2006

Era a primeira vez que caía num vácuo de eternidade, durante meus deslocamentos temporais. Primeiro, ao perceber a turbulência no fluxo sincrônico, fui tomado por um espanto e desespero, enquanto o painel se oxidava e desintegrava em frente aos meus olhos, para depois se reconstruir. Depois, lutei obstinadamente por vinte minutos para reiniciar os sistemas da nave. Foi quando lembrei do manual. Poucos casos de vácuos foram registrados na história da navegação temporal, mas a presença deles na literatura técnica era por demais peculiar para ser ignorada. Só restava uma coisa a fazer: esperar a recomposição do fluxo e torcer para ser tragado de volta. Com quinze dias, veio o tédio, precedido pelo desespero. Chorei e gemi, maldizendo minha desdita, por quase um mês. Depois, tive raiva. Esmurrei a máquina enquanto o resto do ano se passava. Pensei em me matar. Mas convenci a nave a me imobilizar na poltrona por mais um ano. Quando me controlei e fui solto, passei a ler e reler os diários de bordo e, no ano seguinte, comecei a registrar tudo que conseguia lembrar de minha própria vida. Quando as páginas acabaram, escrevi nas paredes, nos assentos, no teto. Perdi a razão com a chegada da primeira década. Resmungava e balbuciava coisas sem sentido. Louco, vaguei pela nave por dois séculos. Foi quando, ao reencontrar as páginas do diário, que eu rasgava e colava de volta vezes indefinidas, recobrei a consciência de tudo. Chorei por quatro noites e decidi me entregar à contemplação. Aprendi a meditar em três meses. Dominei minha respiração com mais dez anos de prática. O domínio das ondas alfas chegou após 150 anos. Passei quatro milênios em estado de iluminação. Por dois séculos, ri em regozijo. Foi quando começou o processo de estabilização da nave. Os comandos voltaram a se tornar operacionais e os sistemas deram sinal que responderiam a uma reentrada cronal. Mas eu não queria mais voltar. Só três séculos adiante entrei em dúvida. Passei ainda dez anos, frente ao botão, catatônico. Finalmente, decidi retomar a missão. Desfiz a trama temporal e me materializei no omni-terminal. Olhava estranhamente para meus pares. Eles não desconfiavam de nada. Num vácuo de eternidade, o viajante fica preso num intervalo com um pouco mais de três milésimos de segundos, que se quebram numa dízima periódica e lhe jogam do começo ao final deste intervalo por um período indefinido.
Davi Gustavo comentou em 14/12/2006 às 4:55 am
Definitivamente, essa linha de contos é muito divertida!
Alexis comentou em 14/12/2006 às 5:02 am
Gostei.Mas a propaganda é enganosa: esse não tem só um ponto final! Ou foi erro na postagem?
Clodoaldo comentou em 14/12/2006 às 5:43 am
Consegui me transportar, visualmente, para um tempo desconhecido. Muito bom.
Alex comentou em 14/12/2006 às 5:51 am
Na verdade, os pontos finais estão contabilizados entre os 2001 caracteres. A mais só o ponto final da proposta. É uma variação, estamos abertos a outras.
Aristeu comentou em 14/12/2006 às 10:42 am
Putz… isso ficou muito bom!
Joca Melo comentou em 14/12/2006 às 2:50 pm
buummm…muito bom, again!
waldenor comentou em 17/12/2006 às 8:16 pm
era tudo o que eu adoraria imaginar e escrever… uma dilatação milisecoidal de milênios… perfeito.. em um espaço menor do que plank poderia imaginar. Mas é maior que o infinito+infinito. Genial Alex, quero ler mais.
Jaime comentou em 18/12/2006 às 10:57 am
Caralho!
thaysa comentou em 20/12/2006 às 1:21 pm
Mto bom!! Vivi um pouco mais que 3 milésimos de segundos numa eternidade curiosa e instigante. pena que passou rápido. Quero ler mais.
Carlos Gurgel comentou em 21/12/2006 às 11:48 am
Na sua enorme e irrequieta escrita, o testemunho de quem é capaz de ir fundo, escafandro das delícias e dos tormentos da raça humana.
E muito obrigado, poeta, pelos comentários que tem feito a respeito dos meus resíduos verbais.
yuri comentou em 28/12/2006 às 8:26 pm
Bom, muito bom!
2007 ® Todos os Direitos Reservados
Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.
DZ3 Design