Por Aristeu Araújo - 28/02/2007

Estela beira os oitenta anos. É a mais velha e a única viva das sete irmãs que sua mãe pariu e criou em verdes de pastagens e café. Estela carrega consigo essas vidas, sabe-se detentora dessas histórias: de Ana, que suicidou-se aos 17 anos, vítima do veneno que não era para ela, mas para os ratos que à cozinha freqüentava nas madrugadas; de Glória, que encontrou apenas aos 42 anos o médico com o qual se casou e não conseguiu salvá-la, anos mais tarde, de um enfarte numa manhã de segunda-feira; de Carmem, que bordou seu enxoval, na mesma cadeira, até sua morte senil e solteira; de Rebeca, que fugiu amando aos 16 anos, para só reaparecer em seu próprio velório, cinqüenta e um anos depois; de Ângela, que teve três filhos, dez netos e dormiu tranqüila para não acordar, após um jantar em que reuniu toda a família em seu aniversário de 70 anos; e de Constância, a caçula, que ninguém entendia seus arroubos comunistas e humanitários, até que um dia foi dada por desaparecida.
Estela teve um marido que morreu aposentado, dois anos após parar de fumar. Estela tem dois filhos. Artur, o mais velho, desligou-se cedo de casa após uma discussão que lhe rendeu a expulsão, quando o pai o descobriu gay, apaixonado pelo colega do primeiro ano de Direito. Artur só reencontrou Estela no velório do pai. Artur chegou sozinho e não teve coragem de ver o corpo, talvez para não sentir pena, ou quem sabe para não ousar o perdão. Artur chorou, mas não quis acompanhar o cortejo. André, o filho mais novo, deu três netos a Estela e por três vezes a viu sorrir. André tem um bom emprego e sustenta uma amante. Uma vez por mês André leva os netos ao apartamento de Estela e, com ela, passa a tarde de sábado comendo biscoitos. Artur a visita nos aniversários e nas noites de Natal.
Estela carrega apenas consigo seus quase oitenta anos, mas pendura-os nas paredes do apartamento onde mora, desde que saiu do campo para a cidade. E uma vez por semana, Estela ainda limpa, um a um, os seus quadros e porta-retratos. Retira primeiro dos pais a poeira na moldura ovalada. Depois, seguindo a genealogia, suas irmãs, marido, filhos, sobrinhos e netos. O museu fotográfico de Estela toma emprestado suas paredes, mesas de centro e o piano que há muito está encostado e desafinado.
Estela não toca piano. Aprendeu apenas uma melodia infantil na época da compra, mas os anos a fez esquecer. Nunca entendeu porque o marido a presenteou com o instrumento e porque o manteve afinado, ano a ano, até o dia da morte. Os filhos tentaram e desistiram de aprendê-lo. Foram raras as ocasiões em que o piano preencheu os espaços largos do apartamento de Estela, naqueles momentos em que a casa cheia, os convidados ébrios e a sorte presenteiam com a presença de algum estudado dos mistérios das pautas e das claves sonoras. Estela gostava de ouvir o piano, mas hoje se ressente impotente do cupim que brota pelos seus pés.
Estela dorme tarde, porque não tem sono antes das duas da madrugada. A insônia adquirida na velhice trouxe-lhe o hábito de reler os livros já esquecidos, trouxe-lhe o prazer de quase não ouvir o trânsito que de dia sobe sete andares e lhe alcança os ouvidos ainda sóbrios e alertas. A madrugada que lhe obscena a visão do alto da janela à esquina próxima — de travestis e freqüentes vícios — não é a mesma de seu antiquário pessoal. Estela foi cumpridora de seus preceitos católicos, imaculada até o matrimônio, sem prazer até a saciedade do pai de seus filhos. Estela acorda cedo, porque não tem mais sono após às sete da manhã.
Estela quando sonha, não sonha sobre seus retratos de quase oitenta anos. Sonha o que não possui coragem de possuir. Sonha com as ruas do seu bairro, com o mar próximo. Vê-se caminhando para a distância do templo construído e vai tão longe de casa que esquece-se de voltar. Enquanto caminha não pensa nos netos e filhos, tão pouco no marido aposentado e morto. Não pensa, e está bom assim sem pensar. Enquanto caminha aqueles passos bêbados de sonho, Estela é feliz como quando infantil, como quando os filhos falaram o primeiro dos milhares de vocábulos que não cabem no dicionário, como no primeiro dos passos que hoje não importa mais contar.
Estela acordada não sonha. Acordada, não caminha pelas ruas que circundam seu apartamento de sétimo andar. Desperta, não ousa abrir a porta da sala e descer o elevador. Estela toca nas maçanetas sem luvas, limpa a casa quando está suja e não acredita na repetição de gestos como um caminho para sua redenção.
Estela pede pizza e supermercado pelo telefone. Estela lê jornais e assiste o noticiário noturno pela televisão. Estela lembra da criancice no campo, do tempo que sabia correr e subir em árvores. Hoje, passos lentos a levam do quarto para a sala, da sala para o quarto. Estela nostalgia o tempo em que seu mundo era maior do que os 210 metros quadrados de hoje, maior e sem quatro paredes revestidas de fotografias velhas, velhas como Estela, velhas como seus quase oitenta anos. Trancada em seu mundo particular desde a morte do marido, desde que o enterrou e perdeu, sem entender bem o porquê, a coragem de descer os degraus que levam à rua, para longe do que ela sabe que é seu.
Estela ouve o mundo que não pode mais ter. Ouve a igreja que no quarteirão próximo badala seus sinos duas vezes ao dia; ouve o alarme da garagem do prédio abrir e fechar seus portões; ouve as buzinas dos carros que entram e saem da garagem, dos que entram e saem da avenida movimentada; ouve os gritos do porteiro com o encarregado da limpeza; ouve os gritos dos bêbados noturnos e diurnos; ouve o gemido infantil das máquinas caça-níqueis; ouve as sirenes dos carros de polícia, dos bombeiros, das ambulâncias; o chiado dos ônibus que freiam, das suas portas que abrem e fecham; as britadeiras que importunam fora de hora; o caminhão de lixo fora de hora; os tiros fora de hora; os helicópteros que zunem em busca de sabe Deus quem; os aviões que precisam pousar e decolar para longe; os freios que protegem dos acidentes; os acidentes que os freios não impedem; os atropelamentos; as batidas; os carros com janelas abertas e som alto; os carros de som; as promoções e seus saldos de última hora; os fogos de artifício na noite de ano novo, na vitória do time de futebol, na eleição disputada e vencida; o apito do guarda de trânsito; os apitos das crianças. Às vezes, na madrugada, quando não há carros, buzinas, tiros ou helicópteros, Estela consegue ouvir o estalar do semáforo mudando-se em verde, amarelo, vermelho.
Sábado, 29 de janeiro
Estela assistia TV. Sentada no sofá, via um homem de terno grafite falar do tempo, que haveria pancadas de chuvas no fim do dia. Já almoçara e esperava a visita mensal do filho. O homem continuava explicando a onda de calor, uma massa de ar quente impedia há dias a chegada de uma frente fria. Olhava ao noticiário sem interesse e abanava-se com um encarte de um jornal vencido. Estela havia tomado banho, mesmo assim suava.
Nesse dia acordou cedo, como seu costume insone sugeria. Aguou as duas samambaias que ficam na sala, preparou o café da manhã e o comeu em silêncio. Preferiu não ligar a TV como é seu costume de desejum. Depois varreu a sala e os quartos. Sentou para descansar e leu o jornal. Leu-o inteiro, embora tivesse a impressão de já havê-lo feito no dia anterior. Há muito tempo tinha a sensação de estar lendo sobre os mesmos fatos, as mesmas notícias sobre o calor, sobre a corrupção da polícia, do legislativo, do executivo. No caderno de cultura, leu sobre as estréias de peças, filmes e exposições que não assistiria. No caderno de TV viu as notas sobre as reprises que não voltaria a ver. Aproveitaria a noite para começar a reler mais um dos esquecidos livros da sua pequena biblioteca.
Já tinha almoçado e tomado banho, como sua rotina de sábado, fim de mês, sugeria. Esperava o filho e os netos enquanto assistia ao noticiário e não prestava atenção no que era dito. No forno, um bolo assava para receber as visitas. Não haviam ligado para marcar. Não era preciso, como nunca foi durante esses anos. Enquanto o bolo assava, Estela via a TV. Marcava o tempo de forno com os blocos da programação. Quando o jornal acabou ela desligou a televisão e se levantou. Era o momento de retirar o bolo. Caiu.
Talvez estivesse dormindo. Deitada no chão, se viu caminhando por uma praça. Depois lembrou que a praça é a que fica próxima à sua casa, mas que há dois anos não pisa lá. Lembrou que gostava de andar por ela nos dias quentes. Caminhava e se abanava vendo os aposentados jogando dominó, os pedintes deitados nos bancos. Gostava da luz que batia na praça à tarde, nos dourados dos dominós e das pedras portuguesas. Gostava de se demorar, sentar em um dos bancos e esperar o calor se acalmar. Ficava olhando as mães com seus filhos de bicicleta, as babás com os bebês de colo; olhava as velhas árvores da praça e escutava suas folhas mexerem com o tocar da brisa morna que chegava com o anoitecer. Pensava em alguma música para esquecer o trânsito que encerrava o turno de trabalho e esquecia-se de voltar.
Quando fazia o caminho para casa, o fazia já aliviada do calor, no momento em que o dia já se ia com a noite. Agora voltava andando devagar, pensando nos filhos com suas vidas distintas, quase ocultas; nos netos que cresciam sem serem vistos; nas irmãs mortas e penduradas na parede do apartamento. Uma pequena multidão de fim de expediente se aglomerava em pontos de ônibus, nas esquinas e nos bares da avenida. Passava por eles e alguns a reconheciam, perguntavam-lhe sobre os parentes, davam boa noite. Na padaria, cumprimentava o padeiro e a menina do caixa. Cumpria um ritual, comprava os pães e um litro de leite. Atravessava a avenida e entrava no seu prédio, dava boa noite ao porteiro e tomava o elevador. Quando chegava em casa, encontrava o marido, sempre do mesmo jeito, sentado na sala, com as luzes apagadas e aquele olhar distante, um pouco marejado. Quando chegava em casa, falavam sempre as mesmas coisas, sobre o calor, o trânsito, sobre a filha do vizinho que vai se casar e sobre a outra vizinha que fugiu deixando os filhos para o marido criar. Depois preparava o jantar. Quando chegava em casa, não era como dessa vez, que deixou os pães caírem com o susto. Não, também não tinha esse cheiro de queimado no apartamento. Nem o filho aparecia nesses dias. Era apenas Estela e o marido.
Deitada no chão, Estela sentia o cheiro do bolo queimando no forno. Viu o filho entrando pela porta, deixando cair o saco de papel que, sabia, eram os biscoitos que sempre trazia e não os pães de todos os dias ao anoitecer. Não era Estela que chegava dessa vez para fazer o jantar. No teto, o ventilador girava devagar como nos filmes policiais, até fazia o mesmo barulho, repetindo, repetindo. Enquanto o bolo queimava, Estela lembrava-se que deveria mandá-lo ao concerto. André esqueceu o saco de biscoitos na entrada, ao pé da porta. Chamou uma ambulância e também esqueceu de desligar o fogão. Estela não sentia dor, mas se entristecia por não conseguir avisar ao filho. Também ficou um pouco aborrecida porque, dessa vez, os netos não vieram.
Deitada no chão, o ventilador girando, o filho no telefone, um vizinho entrando assustado, o gato do vizinho, a outra vizinha e o bolo queimando no forno aceso. Uma dormência tomava o corpo de Estela. Não era dor. Era como se estivesse acordando, mas mesmo assim ainda dormisse. Seus pés não mexiam, suas pernas não dobravam e nem mesmo um músculo qualquer dava resposta. Só seus olhos pareciam acompanhar aquele sábado fora de rotina. André não entendia o que acontecia e ligou para Artur. Estela achou bom, um silêncio seria quebrado. Também gostou quando alguém lembrou de desligar o forno, mas não pode agradecer. Ficou ali, deitada, ouvindo o ventilador e aquelas pessoas que tentavam conversar com ela.
Não quiseram levantá-la porque não sabiam o que tinha acontecido, esperavam o médico. E Estela já ouvia as sirenes se aproximando, tão acostumada com os barulhos de fora. Subiram com uma maca e a levaram. O apartamento ficou em silêncio, apenas com o ruído do ventilador que esqueceram de desligar. Ficaria girando por mais uma semana, rugindo suas engrenagens enferrujadas e sujas.
No elevador, Estela via as luzes dos andares a levando para fora daquele lugar que aprendera a ser o único seu. Sete, seis, cinco, quatro… fechou os olhos. Um frio no estômago quebrou a dormência de uma tarde quase inteira. Ficou com os olhos fechados e, assim, não viu os assustados moradores que chegavam da praia; a expressão de pêsames do porteiro; as portas da recepção sendo abertas. Deitada na maca, com os olhos fechados, Estela deslizava sobre as pedras portuguesas. Sentia a brisa morna do fim da tarde, mas só os abriu quando se assustou com um solavanco da maca.
Abriu-os e viu os edifícios em fim de tarde. As nuvens por cima, amareladas, o céu azul. Era como antes. Foi apenas o que viu, porque era apenas naquela direção que poderia olhar. Mas o pouco foi suficiente. Sorriu. E era tímido o sorriso.
danielle carcav comentou em 5/7/2008 às 3:50 pm
vc fez parece tão simples e poético…tão sustentável…
Edmo Sinedino comentou em 30/1/2009 às 6:42 am
Lindo. Triste. Caro Astolfo você fez aumentar em 200% o meu medo da velhice, da solidão.
2007 ® Todos os Direitos Reservados
Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.
DZ3 Design