Contos Insolentes

Correspondência do Dia

Por Carlos Gurgel - 12/02/2007

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Diabinho de dia. Aquela voz sussurrando do que se podia fazer quando se ficou sabendo que no sábado que passou, pessoas morreram, caindo na noite, como avisos de um tempo que não se faz mais amigos.

Foi assim. Hoje já não sou mais uma pessoa confiável. Já não guardo segredo do que me disseram, como uma colina que vai se desmanchando em dores, como óbito de uma festa, como a vontade de se dizer sempre ausente de aparições, filme de uma rua deserta, prolongamentos de silêncios e betumes.

O difícil que se diz é o sol que mata. Que não se lança no meio de uma conversa, com o mesmo traço vigente. Como vozes que alardeiam o desejo de não se acostumarem com o precipício da verdade. Reza de uma cantilena que não se larga no meio do mundo, como uma rosa que brilha, que ofusca o chão de quem se deseja discípulo de romarias e calos.

Sim, as pessoas mortas incomodam. Como susto de uma conversa bem dada. Circulada por fotos, colares, siris, batons e tilins. Como ponte que leva recado, pista de um dedal de espinhos e cactos. Como fogo que sobe morro, e vai se entardecendo de libélulas, fabrico, diurético do sangue de um coração que soletra estrondos e o viril de um lagarto que completa o ciclo de uma multidão sem pés. Escamas de uma longa palavra dada.

Mesmo que carregando gravetos de lágrimas. Improviso de uma emboscada que denuncia o grito público, praça de lua, imensa palavra cheia de cores, coma do azul da cor do céu, maravilha de uma assassina romaria que corta jacas e trilhas de tamanduás.

Diabinho de tarde. Lenta ventania de rostos, como promessa de uma língua que recorta o enorme horizonte de serrotes. Neófito pássaro que renova o pranto da amplitude de uma fala que não se escuta. Como eco das asas de um alpendre, como légua que abriga o lumiar de uma vastidão de varais, imensas flores-do-mato, como beleza de lirismos e jograis. Jogatina que no tempo de um pouco de prosa, roça o barro de um beiço de sanfona, vestido de guaxinim, velocípede de tantas rodas, casa-de-farinha que rebrilha o suor de uma enorme vala, reino de cruzes e bençãos.

O velocípede, mais uma vez, só teme os pés dos outros bichos quem andam sobre cardeiros e cordeiros. Achados que lambusam os olhares dos bem-ti-vis e que plantam a fé de um sonoro planeta. Velocidades de desculpas, paralelepípedos de jerimuns, geringonças de espaços que se tornam como cera do lombo de um boi, como membro, esparrela de bate-papo de calçada vendo o casamento do sol e da lua. De uma fileira de cuspes, amor que ficou de uma quartinha, filharada de juras e aéreas remelas, desgaste da rua principal, pipoca, alfinim, broa, fígado de tatu.

E no parque da roda-gigante da praça deserta, bailam fuxico de corpos, lingotes de chicletes mascados, palmas das mãos suorentas, palhaços de uma roupa engomada e cheia de vísceras. Gama de uma lembrança de filharada, carraspana do porre universal, entrechoques de liberdades que espalham risadas, gotas, puns punks.

Sei que a lei que impera na campa de quem ficou pobre de espírito, é como um girassol que nasce louco. Como uma lavanda que fere a ronda de marrecos e tarrafas. Linguiça. Lombriga. Bicho que fere o brejo de uma desregulamentada alegria de chão batido. Chicotes de visagens, miragens da serra da terra de quem só deu dó.

Diabinho de noite. Malícia de um chicote, carroça que frisa as tiras, prendem testas, frontes de um lago de jibóias e jias. Bicas do fel, manufatura de uma choupana, doce, gelatina, mousse de mãos calejadas, precipício de universo aduaneiro. Como gira o sol, raios de polis, pirulitos e pantins.

O furúnculo da jia, o versículo da jibóia, a bóia dos vadios, selvagens, arruaçeiros, giz da beleza da terra, como leito que destrava o doce de um olhar, o sorriso de uma serra e o inconfundível brilho dos bois sendo cortados pelos berros das facas, como cogumelos de um veneno que engole açafrões, intestinos de um povo gasto, usura de uma epidêmica vontade de incontinência.

Como verrugas de um olho que se esconde nos faróis da onça, poço de uma agonia, procissão que atravessa como véu instável, um pecado do mal nosso de cada dia, tarde e noite.

Como vultos que desprezam corpos e pés. Borralhos e enguiços. Alicate que destroe carcaças, arqueiros e jagunços. Vislumbres silenciosos. Poeira que corre solta. E o azedume de um sorriso que se esconde como crepúsculo de uma imensa legião de fãs.

2 Comentários para “Correspondência do Dia

oi gurgel sou eu marcelo gandhi,menino adorei o diabinho,ainda estou texturizado pelo fime do homonino video game silent hills,e vejo nesse teu texto todas as texturas que vi no filme essa dor essa coisa toda que tua crnica pos dark apocaliptica fala…como conversavamos sao dias de apocalipse,apocalipses muitos,micros todos nus vendo a roupinha do rei….e carnaval raraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa,,,beijim gugu…..

yuri hicaro comentou em 15/2/2007 às 7:32 am

Caramba Carlos,é magnífica forma como vc utiliza as suas palavras;oq ja posso crer q é exatamente uma caracteristica própria sua.Eu gostei.
Assim como eu tive q ler duas vezes o seu texto da preá n 17,tive q ler duas vezes esse tambm,para intender
apriximadamente onde vc qis chegar.
pocha,o mais imprecionante,é q
o desenrolar mórbido naum camufla
a conteporaneidade de estilo!
Gostei mestre(se posso chama-lo mesmo assim),parabms!!!

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