Por Clodoaldo Damasceno - 26/12/2006

Era difícil reconhecer quem quer que fosse sob a máscara, mesmo que usasse a mesma, com tantas iguais. Com as mais comuns de silício ou as mais caras de aço ela modificava seus esconderijos, circulando pelas infindáveis filas nas infindáveis passarelas.
Há três anos, quando a última torre foi construída, tornando-nos a primeira civilização do universo próximo a consolidar a ocupação plena do globo e bilhões jogaram-se em sincronia dos topos das torres de onde viviam até os canais salgados – que ela me explicou terem sido, antes do degelo, usados nas ilhas em lugar das passarelas, viadutos, túneis e trilhos – foi também o dia em que tornou-se foragida. Havia cooperado na articulação do suicídio simultâneo, mas, na hora, não teve coragem de pular. Foi considerada traidora da raça, crime punível com extradição para a terra e pena impossível de ser aplicada, caso o réu não se entregasse.
Com toda a parafernália necessária para sobreviver, os meios de identificação tornaram-se absolutamente inseguros ou impossíveis. Os bilhões de corpos putrefatos só não extinguiram nossa civilização – quando inutilizaram os sistemas de ventilação, matando-nos ou por intoxicação dos gases ou por calor – devido ao acaso. Uma das inúmeras oscilações que meço na plataforma de energia tectônica explodiu milhares de torres, causando incêndios dantescos – fato absolutamente inesperado, pois havia 386 anos que o fogo havia sido proibido; a era do fogo fora-se e o que há quase quatro séculos causara-nos tanto medo alimentou-se com os gases sufocantes dos suicidas até extinguirem-se. Bilhões queimaram-se nos incêndios, o sistema entrou em colapso e os sobreviventes digladiaram-se cruelmente em desespero tentando atingir as torres mais altas. Milhares ruíram, milhões morreram de fogo, fome e peste.
Ela caminha pela passarela que liga uma das centrais de ordenação ao domo, apinhado. Diante de inúmeras câmeras pára, fala, acena. Apressados, empurrados, ninguém lhe vê. Pendura-se às barras e sobe, apitos soam, guardas correm. Treinada, vai até bem perto das lentes. Costas viradas para o precipício, o calor fétido dos canais sobe em ondas sulfurosas. Ela retira a máscara e as câmeras registram seu código tatuado na testa violácea. Respira fundo para apagar-se em segundos e, inerte, cair e estatelar-se numa das grades, sem atingir o canal.
Sua promessa não cumprira-se.
Rafael comentou em 27/12/2006 às 11:40 am
Precisei ler duas vezes, pois achei não entender. É como ler um livro ou ver um filme, você se preoculpa em não perder nada e termina sendo burocrata. Gostei mesmo! Onde foi que você aprendeu a escrever assim, já sei foi influenza de Norton e Solino.
Rafael Bezerra
Compadre Bigode comentou em 27/12/2006 às 11:41 am
O segredo da verbosidade?
É o endereço do meio-dia.
Larica comentou em 16/1/2007 às 10:48 am
clodô, vc é o cara…
sobrou máscara de oxigênio pra mim?
O.o
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