Por Elis Galvão - 14/08/2007

Vejo seu sorriso estampado no meio do céu quando escuto a música do Lupicinio. Se esta sensação estará datada antes da conclusão da próxima frase, não importa. Não , não se trata de uma dor-de-cotovelo. A música dá novos tons às minhas lembranças e às cenas em tua sala, decorada com retrato do Chico, dos Beatles e aquele ursinho de pelúcia dentro da gaiola . Este registro é uma continuação. Tiro as palavras das sombras como quem colhe frutos nas árvores .
O teclado sem acento para as palavras em português já rendeu várias piadas. Um passeio de bicicleta entre a Urca e o aterro do Flamengo é o seu motivo para fazer declarações de amor a cidade e anotar na parede do quarto. As ruas da Urca ficam mais íntimas quando são cruzadas de bicicleta. Não precisa da disciplina militar para atravessar as faixas de pedestres. O pôr-do-sol da Praia Vermelha mais melancólico do que nunca, todo cheio de rugas na face cinza da baia.
Menina, você encanta essa cidade inteira. Mudei o ângulo para olhá-la. Se você revelar o segredo, a geografia será outra. O riso pode ficar pela metade. Este jeito incompleto de mover a face traz presságios. Uma vez vi uma mulher sorrir assim. Semanas depois, descobri que era uma forma de anunciar sua despedida . Ela não gosta de dizer “até logo”, foi a minha primeira conclusão aleatória. A vida é um instante maior do que o presente. Não cabe numa folha em branco, nem numa foto dez por quinze. O nosso tempo está no tique-taque do relógio.
Viu como amadurecemos no último ano. Ficamos mais adultos em meses. E este foi o momento do nosso encontro mais certeiro . Conversa entre amigos, cerveja, presentes , confissões e, no final, o convite recusado por estupidez . Você se permitiu ser desde sempre. Bem , depois vieram os seus pincéis para os dias chuvosos . Estão na minha bolsa. Sei dessa sua preocupação com o bem-estar alheio e das tantas coisas no mundo sobre as quais você quer saber. Tenho a impressão que há algo cuja beleza fica atrás de uma idéia. Agora fico procurando o que existe atrás das idéais. Ainda me entrego totalmente ao mundo com esse jeito das pessoas primitivas.
Um de seus amigos não deixou de pensar em você um só dia dos 365. Ele foi um dos primeiros a se dar conta que hoje é dia 31 de maio. Ele falou da lembrança dos papos sérios, papos sem importância, da pura alegria e dos encontros inesperados . Tudo guardado nos olhos e no sorriso bonito dele.
Esse inverno está furreca. Precisava de você para pôr elegância nele. Assim , a vida fica melhor, mais digna, mais intensa. É bom o amargo do café nos cantos mais recônditos da boca. Combina com a estação e com seu lema de “vamos desobedecer com o sorriso doce de quem sabe que tem razão”. O que fazer diante da impossibilidade de rever uma pessoa? Faltou a senha para que as paisagens do Rio segurassem teu olhar e tua presença corajosamente livre.
Aristeu comentou em 15/8/2007 às 10:04 am
O texto é lindo. Tem um quê de Manoel de Barros… só que urbano.
Andréa comentou em 16/8/2007 às 5:34 am
Simplesmemte maravilhoso!
Pablo Araújo comentou em 16/8/2007 às 7:36 am
Gosto muito dessa tua crônica. Como já havia te falado, ela tem várias camadas, não é comum. Poderia ser um trecho arrancado do meio de um romance. Gosto do jeito como o texto coloca as imagens e circunstâncias num tom de conversa íntima (adorei a sensação que tive de mesmo não conhecendo os personagens e a história completa -minha imaginação- o que era dito era próximo e familiar) e estas várias camadas se deslocando e interpenetrando por toda a leitura, como um quadro de colagens bem-feitas. Um refinamento e delicadeza que soam naturais. E cada colagem que se tece deixa pontas soltas, deixando a crônica completa na incompletude. Gosto deste estranhamento.
Rosalia comentou em 16/8/2007 às 10:27 am
“O que fazer diante da impossibilidade de rever uma pessoa? Faltou a senha para que as paisagens do Rio segurassem teu olhar e tua presença corajosamente livre.”
Elis,
Destaquei esse trecho pq achei de uma rara beleza. Se estivesse ao vivo e em cores, faria outros comentários, com olhar de literata, é claro……..rs Teu texto é diferente, repleto de caminhos, de possibilidades, diria , labirintico mesmo.
Urca! belo cenário… amei…
Rosália.
Marco comentou em 16/8/2007 às 10:29 am
Adorei.
“vamos desobedecer com o sorriso doce de quem sabe que tem razão”
bjs
Marco
Ju comentou em 16/8/2007 às 10:30 am
Tem estilo, Elis. E o estilo é charmoso. Gostei muito! bjs
André Pessoa comentou em 16/8/2007 às 10:31 am
Sra. Elisinsbourg,
Li, bacana… Concordo com a Ju, e continue escrevendo; é um privilégio… Um dom. Um edredon.
gabriel comentou em 16/8/2007 às 12:56 pm
Nossa, Elis! Que texto incrível. Deu vontade de parar de escrever e retirar-me a minha insignificância!
Elis comentou em 17/8/2007 às 6:51 am
Obrigada a todos pelo olhar gentil.
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