Cinemascópio

Vilões, anti-heróis e Jack Nicholson mostrando suas cartas

Por Alexandre Honório - 05/11/2006


Martin Scorcese devia estar com algum tipo de bloqueio criativo. Apesar de ter gostado muito de Gangues de Nova York e de O Aviador (este último, nem tanto assim), a impressão era que o velho Scorcese tinha deixado muito de sua magia nas três horas e alguma coisa de duração de Cassino – último longa onde os bandidos são o “miolo” dos fotogramas.

Demorou, é verdade, mas, com Os Infiltrados, seu novo longa, somos apresentados a um revigorado Scorcese. Fazendo aquilo que sabe de melhor – contar a ascensão e queda de “caras maus” -, o diretor passeia pelo universo da máfia irlandesa e seu flerte com os homens da lei. Os ratos passeiam pelos dois lados de toda a trama.

Os Infiltrados é uma refilmagem de The Infernal Affairs, do diretor chinês Andrew Law Wai-Keung – disponível nas locadoras locais, mas ignorado solenemente. A releitura tem muito do original, mas, claro, não conta com a magia que acompanha Scorcese.

O filme traça a história de Frank Costello (Jack Nicholson), um gangster irlandês à moda antiga – quando digo à antiga falo em litros e litros de sangue jorrando e balas sendo disparadas como em uma festinha de São João. Frank abre o filme com sua profissão de fé: narra as qualidades necessárias para se lidar com as ruas; seu “amor” pela comunidade negra de Boston; e seu talento para construir amizades sólidas. “Você não gostaria de ser eu”, afirma.

É nesta introdução que somos apresentados ao primeiro dos infiltrados. Aqui é necessário um comentário: no Japão Feudal existia a figura do Kusa – um espião infiltrado no seio de comunidades que necessitavam atenção a fim de investigar como andavam as atividades do feudo naquela localidade. Collin Sullivan (Matt Damon) é um Kusa engendrado no seio do Departamento de Polícia Estadual de Massachusetts. Um espião que não só cumpre as recomendações de seu mestre, mas gosta disso.

Costello se transformara em uma espécie de tutor de Sullivan antes deste ingressar na polícia e, após esta entrada , o gangster ganhara olhos privilegiados dentro da corporação. O outro lado da moeda é também apresentado: William Costigan (Leonardo DiCaprio), um policial infiltrado na gangue de Costello. O espinho no calcanhar do gangster, para sermos mais exatos.

A ação e argumento do longa pautam-se pelo jogo de gato e rato protagonizado por Sullivan e Costigan: o primeiro, buscando proteger um violento mafioso, sua gangue, conexões e o próprio pescoço; o segundo buscando de todas as maneiras recuperar sua identidade – já que, infiltrado, o policial tem sua vida literalmente apagada – e levar os “cabeças” da organização às grades – além de cuidar do próprio pescoço.

É sobre este rico universo de conflitos que Scorcese passeia sua câmera. Com uma fotografia que nos remete diretamente às produções policiais do final da década de 70 – em especial à série Dirty Harry -, o diretor nos transporta da Nova York do final do Século XIX (Gangues de Nova York) direto para o coração de Boston com um novo Bill “The Butcher” tão truculento quanto o original novaiorquino.

Em Os Infiltrados, Scorcese carrega e conduz dois trunfos que resolvem boa parte da magia de seu longa: as atuações inebriantes e brilhantes de Jack Nicholson e DiCaprio. O primeiro, na pele de Frank Costello, literalmente carrega o filme em suas costas – sem demérito da excelente direção de Scorcese, claro; o segundo, como nos dois últimos filmes de Scorcese, pelo talento com que constrói seu personagem.

A tensão ininterrupta, os reveses de seus personagens, as atuações, fotografia e, sobretudo, a marca de Scorcese, fazem deste filme uma das grandes apostas para a próxima edição do Oscar. Não é revolucionário; não brinca com seus sentidos; não tenta mergulhá-lo em reflexões existenciais (apesar de conduzí-lo em tal caminho). Os Infiltrados é Scorcese mostrando, uma vez mais, como contar uma história dos bastidores do mundo contemporâneo, seus atores e seus conflitos.

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