Cinemascópio

Uma frenética parábola sobre a Índia por Danny Boyle

Por Alexandre Honório - 06/02/2009

Slumdog Millionaire, novo e ora celebrado filme de Danny Boyle, é uma fábula moderna. Não, não encontraria outra palavra para definir o longa senão recorrendo à perspectiva de analisar a produção como uma pequena maravilha. Um filme que pode causar surpresas contraditórias nos seus primeiros minutos – especialmente se você divagar comparando-o com outro filme que lida com a miséria cosmopolita representada pelos grandes conglomerados urbanos (no caso, Cidade de Deus de Fernando Meirelles).

Entretanto, é Danny Boyle que está no controle. Quando digo que Slumdog Millionaire é uma fábula moderna não pretendo me referir somente à história de um garoto que, vindo de uma das muitas favelas de Mumbai, na Índia, se transforma no grande vencedor de um programa milionário de perguntas e respostas. Não. Slumdog Millionaire é uma fábula moderna porque sua trama não busca somente o choque, mas implica uma reflexão; clama por ela.

Em pelo menos três filmes Boyle fez uso de recurso semelhante: Trainspotting (filme de 1996 que o lançou ao estrelato entre os diretores de sua geração) e, algum tempo depois e ainda colhendo os louros do retumbante sucesso de Renton e seus amigos, A Praia (2001), com Leonardo Di Caprio, e o meu favorito: Por Uma Vida Menos Ordinária (1997). Nestes três filmes somos como que envolvidos eventos absurdos, parábolas pós-modernas e narrativas frenéticas: tudo o que faz de Slumdog Millionaire o que ele é.

slumdog_poster_smEntretanto, no caso da mais recente produção de Boyle, a mística Índia não tem lugar. Não passa na telenovela: sequer dá à mínima para os indianos de araque. O que se vê em seu lugar são as vísceras desta mesma Índia; o que o país tem de melhor e pior ao alcance da mão, mas sem que ninguém venha passar a mão em sua cabeça ou contar uma bela e acessível história de amor. O amor entre Jamal (Dev Patel) e Latika (Freida Pinto) é visceral: difícil, entrecortado e martirizado por toda a violência e dor que o rodeia. As vidas de Jamal e Latika dão a tônica de boa parte da trama e é o fio condutor, o tecido, que interliga tanto o que acontece no palco, na prisão ou mesmo nos recortes que Boyle costura construindo o sentido de toda a narrativa e as motivações de Jamal para, inclusive, desafiar seu irmão Salim.

Jamal não conta somente sua história através das perguntas que responde em um auditório lotado para uma nação em polvorosa: Jamal conta a história de como é equilibrar-se à beira dos abismos; formula, portanto, uma fábula singular e impressionante. Muitos provavelmente partirão para a comparação fácil com Cidade de Deus depois desta parábola/fábula sobre até onde se pode chegar para superar a adversidade e buscar a redenção.

Entretanto, juntamente com O Lutador, de Darren Aronofsky, Slumdog Millionaire se transformará em um clássico indispensável para a compreensão da filmografia de um diretor ainda brilhante. Se Boyle levará o Oscar? Quem se importa: se tivesse um filme como esse no currículo, estaria simplesmente pouco me ferrando para a porcaria de um boneco de metal…

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