Por Alexandre Honório - 26/04/2010

Pai, filho e uma estrada que procura despedaçá-los. Assim tento compreender A Estrada, longa do diretor australiano John Hillcoat (A Proposta) que adapta o livro homônimo de Cormac McCarthy às telas. O livro, que conta a jornada de pai (Viggo Mortensen) e filho (Kodi Smit-McPhee) por um desolador futuro distópico, pode até não figurar entre as criações mais brilhantes de McCarthy, mas é simplesmente opressora.
John Hillcoat, apesar das dificuldades inerentes à transposição para as telas de um livro difícil (já que a trama fala sobre personagens sem nome em um lugar sem nome que vagam para lugar nenhum), se sai bem: A Estrada, o filme, consegue preservar muito da substância que o livro encerra, sem prejuízos aos dois lados, mantendo a atmosfera despersonalizante que impregna a trama.
Muitos interpretam A Estrada como uma parábola sobre o futuro da experiência humana ou, mais, o futuro da razão. Não por acaso, a metáfora da “chama” que pai e filho pretendem carregar nos dá pistas sobre a relação deles com o caos que reina: eles não são apenas pai e filho, mas os portadores autoinvestidos da razão em um mundo que sucumbiu à desesperança. Esta, no fim, a metáfora proposta por McCarthy para sua parábola.
O filme peca, no entanto, por desprezar um personagem importante para a narrativa: a própria estrada. Ela, no livro de McCarthy, é o norte de pai e filho; distanciar-se dela, por pouco que seja, significa perder o rumo e oferecer-se em sacrifício ao caos. Ela, a estrada, é o terceiro e mais significativo personagem da trama pois é em torno dela que todos se debruçam em busca de comida, significado ou, no fim, morte.
É ao longo da estrada que pai e filho veem a derrocada do espírito humano – canibais, famintos, ladrões, loucos, etc. – e sua substituição selvagem por um arremedo de existência. É descendo através desta mesma estrada rumo ao litoral – o aparente e único horizonte seguro – que pai e filho experimentam os humores convulsionantes de sua realidade distópica em desespero.
Em uma das cenas de A Estrada, quando pai e filho conseguem impedir que um ladrão roube o carrinho de supermercado no qual transportam algumas poucas latas de comida, percebemos no que ela, a estrada, transforma seus filhos: o pai obriga o ladrão a se despir à beira da estrada e assim, submetido ao relento, ignorando os apelos de seu filho que implora para que não o faça, o pai segue.
A estrada naquele instante, quando a câmera mostra à distância aquele arremedo de humanidade nu e entregue à própria sorte, supera a suposta chama da razão que pai e filho pretensamente pretendem carregar rumo ao fim do mundo.
A Estrada se mostra no fim um filme difícil. Não por sua história ou o que aborda, mas pela tradução de que a linha que separa humanidade e barbárie é tênue, volátil e por vezes cruel.
Paolo comentou em 11/8/2010 às 2:11 pm
O filme é muito bom; só peca um pouco pelo clima levemente “cristão brega”. Não achei que a estrada ficou de lado, ela foi na verdade estremamente resumida em uma última cena do filme.
Outro ponto bom do filme são suas cores e sua iluminação que atormentam.
waldenor comentou em 14/9/2010 às 7:04 pm
Só agora ví esse filme… e ufa.. que filme… rapaz.. duas coisas (apesar de que atuações e ‘desfiguraçoes’ de alguns atores estão sublimes e isso tb não me sai da mente) não me saem da cabeça… o açougue… e o sorriso que Garret Dillahunt faz tentando convencer de que eles ajudariam pai e filho lá no caminhão e que teriam comida… cara.. uma das melhores interpretações que ví (e por ser tão pequena passa despercebida) o cara me convence que é caipira, bruto, tá nem ai, dá para se tecer as origens desse cara só por aquela pequena interpretação… Atuações abominavelmente fantásticas do durval e do viggo… e bem.. Paolo (chapa que gosto muito) falou sobre o pecado do filme… um certo cristianismo piegas (mesmo que sutil) … acredito que não houve escapatória pela condição cultural dos personagens… não há como escapar… e olhe.. foi até muito bem explorada a quebra disso fazendo com que os personagens tenham uma descrença no criador. Imagine o quão católico seriam aquelas pessoas confinadas naquele matadouro humano, dando para imaginar que aqueles até poderiam ser de elite e donos daquela casa onde agora são comida. Imagine aquela região dos EUA… Protestante, ou Católica fervorosa até a raiz do cabelo… e é essa que está impregnada em personagens como o de Garret Dillahunt (o membro da gangue, como tá creditado), dando até para imaginar ele dizendo forçadamente amém depois do pai fazer a oração da refeição e dar um tapa na nuca dele para o forçar a fazer isso aos 5, 6, 7, 8, 9 e por ai vai de idade… viajei muito mas é porque não tem como não viajar e não deixar de ver os porques…. simplesmente digo que foi fantastico ver o filme.
Alexandre Honório comentou em 15/9/2010 às 3:55 pm
Você precisa ler o livro, cara: é indispensável e de cortar a alma. Cormac McCarthy é gênio!
waldenor comentou em 15/9/2010 às 9:41 pm
IMEDIATAMENTE VOU FAZER ISSO… ler esse livro…
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