Cinemascópio

Uma apocalíptica visão do futuro pelas lentes de Alfonso Cuarón

Por Alexandre Honório - 18/01/2007

Uma apocalíptica visão do futuro pelas lentes de Alfonso Cuarón

Um planeta em fúria à espera de um milagre. Uma frase assim, piegas e apocalíptica, pode resumir muito do que o espectador ganha com Filhos da Esperança (Children of Men), novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuarón (E Sua Mãe Também, Grandes Esperanças).

Baseado em um best-seller da escritora britânica P. D. James, The Children of Men, o filme nos apresenta um mundo no qual os seres humanos perderam sua fertilidade; as sucessivas catástrofes nucleares e as agressões ao ambiente levaram a humanidade à esterilidade. É neste panorama que somos apresentados a Theo Faron (Clive Owen), um ex-ativista político britânico.

Enquanto toma um café e assiste o noticiário em um bairro no centro de Londres, Theo toma conhecimento de que a pessoa mais jovem do planeta – o “bebê Diego” (espécie de jovem-símbolo) – foi morta e que seu assassino fora linchado por uma multidão enfurecida. É o prenúncio do que virá a seguir.

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Cartaz norte-americano deFilhos da Esperança, longa de Alfonso Cuarón, em cartaz nos cinemas brasileiros

Depois de uma visita a um amigo, o cartunista Jasper (Michael Caine), Theo é procurado por sua ex-mulher, Julian (Julianne Moore) para uma missão que esta considera importantíssima para o futuro da humanidade: transportar uma jovem refugiada para uma ilha fora do continente. O que torna importante esta missão? Bem, a jovem está grávida e, em um mundo à beira do colapso por sua infertilidade, garantir a sobrevivência desta “nova Eva” é algo urgente.

No entanto, mesmo com todos os seus esforços, Theo compreenderá que tal tarefa estará longe de ser fácil. A Londres retratada em Filhos da Esperança, no ano de 2027, encontra-se a beira de uma guerra civil; a Inglaterra é uma das últimas nações sobreviventes e seus moradores encontram-se divididos em grupos e células revolucionárias que constantemente estão em conflito.

Além disso, o governo totalitário que se instalou persegue os imigrantes e refugiados, como forma de garantir certa estabilidade ao Estado. Para transportar Kee (Claire-Hope Ashitey), Theo vai de encontro a um grupo que pretende utilizar a gravidez da jovem para fins políticos; uma maneira de apaziguar os ânimos e tentar restabelecer a ordem. Contra este grupo, Theo pretende entregá-la em segurança a um grupo de cientistas para que possam descobrir os motivos porque a humanidade deixou de reproduzir-se.

Um dos principais méritos de Filhos da Esperança é o emprego constante da “câmera ativa”. Planos seqüência e outros recursos de câmera atribuem ao longa uma relação de proximidade com espectador única. Some-se a isso a fotografia e composição/cenografia da produção.

No caso da fotografia, Cuarón faz uso de uma parceria muito bem vinda: a relação que mantém com o cinematógrafo Emmanuel Lubezki – parceiro de longas anteriores do diretor e um dos melhores fotógrafos do recente cinema. Para os planos-seqüência, Cuáron recorreu à empresa Doggicam Systems para que esta desenvolvesse um suporte que permitisse a filmagem pretendida por ele. Uma destas seqüências detém pelo menos dez minutos de duração e tem papel importantíssimo no desenvolvimento da trama. E este é um dos três principais planos-seqüência presentes no longa.

Filhos da Esperança é, sem forçar a barra, um dos melhores exemplos de ficção-científica recente. Cuarón consegue compor um quadro nada promissor do futuro fazendo uso de uma temática atual e recorrente. O panorama apresentado em Filhos da Esperança chega a ser preocupante, mas, como toda ficção-científica que se preze, detém seu diálogo pertinente com a realidade.

2 Comentários para “Uma apocalíptica visão do futuro pelas lentes de Alfonso Cuarón

Lex comentou em 18/1/2007 às 12:28 pm

Os (bons) filmes de sci-fi recentes têm primado por não usar muito de efeitos especiais ultra-sofisticados, bastando para o filme uma boa história. Um bom exemplo é Código 46. Parece que finalmente a lição de Tarkovski foi aprendida.

Aristeu comentou em 19/1/2007 às 11:21 am

Tarkovski!

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