Cinemascópio

Uma alegoria da memória com ares de “road movie”

Por Alexandre Honório - 30/10/2006


Devo ter escrito um pouco sobre este filme. Não lembro se muito, mas, mesmo assim, vou retornar a ele agora. Impressiona saber que Uma Vida Iluminada seja o primeiro longa dirigido por Liev Schreiber. Não por se tratar de um ator que envereda pela direção, mas pelo resultado obtido. Uma Vida Iluminada guarda o espectador entre seus dedos; o solta no momento certo – para apreciar todo seu brilho.

O que mais chama a atenção no longa é – além da direção competente de Schreiber – a fotografia de Matthew Libatique.

O diretor de fotografia cria texturas e nos leva por um passeio sem igual pelas imagens de uma Ucrânia/República Tcheca pós-Guerra Fria que nos inebria. Schreiber e Libatique iluminam o caminho para contar a história de Jonathan Safran Foer (Elijah Wood) – autor do livro Tudo Se Ilumina (traduzido e lançado pela Companhia das Letras) -, personagem que é o mote central do filme.

Foer é um dos muitos judeus que viajam anualmente para a Ucrânia em busca de suas raízes. Alex Jr (Boris Leskin) é o filho de uma família especializada em promover viagens de “judeus a procura de judeus mortos”, explica. Para Alex, Foer seria mais um daqueles que, como todos anteriormente, buscavam respostas que os mortos não poderiam dar, mas mesmo assim estavam por lá; uma grana fácil, aparentemente.

Juntamente com o avô “cego” e a cadela Sammy Davis Jr Jr, Alex e Foer seguem a procura de um vilarejo que não existe mais; um lugar apagado da história. Guia e “turista” passam a conviver com suas diferenças sociais e culturais. Para acentuar esta dualidade constante, Schreiber brinca com elementos efetivos: vestuários, hábitos, língua e muito mais a mão.

Como disse no início, a beleza das imagens é o grande trunfo de Uma Vida Iluminada. A narrativa perde um pouco de seu fôlego nos primeiros trinta minutos da trama, mas, para o espectador menos atento, isto é o que menos importa. Um bom “road movie” nos toma de assalto pelos mais variados atributos, mas, no final, uma boa fotografia e um roteiro que valorize-a são os elementos que importam.

É com tais trunfos que Schreiber e Libatique jogam. A história contada por Alex e a trajetória percorrida por todos em direção ao coração de uma aldeia esquecida, com nomes esquecidos e apenas uma mulher responsável por manter reunida a memória de dias difíceis, provocam um nó daqueles na garganta.

Uma das cenas mais tocantes do filme é justamente o encontro dos quatro com o que restou da aldeia procurada por Jonathan. A fotografia ganha ares de sonho quando estes chegam a uma casa encravada numa plantação de margaridas. Na casa, como um arquivo vivo dos mortos pelas tropas nazistas, permanecem catalogados os pertences de centenas de pessoas. A memória que não se apaga, nos sugere Schreiber.

Este é o principal mote de Uma Vida Iluminada. Os catalogadores que aparecem no filme – Jonathan entre eles – reservam para si um pouco da história; guardam pedaços dela como que por medo de esquecê-la. Para tanto, por sua vez, não basta apenas guardar as lembranças – pois estas desvanecem –, mas juntar seus amuletos.

O filme de Schreiber é uma fábula sobre a memória; sobre a persistência dela e a necessidade que temos de mantê-la sempre altiva. Uma bonita fábula, diga-se, como há muito não via…

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design