Por Aristeu Araújo - 23/02/2008

Em tempos de guerra, de George W. Bush, de um povo que esqueceu no 11 de setembro qualquer tipo de crença no outro, surge um filme como este Onde os fracos não têm vez. O filme é um diagnóstico da hostilidade do tal Estados Unidos profundo, texano. Cenário dos filmes de Faroeste, gênero por excelência americano, o Texas não é apenas a terra natal do presidente, mas o celeiro do que há de mais reacionário e direitista naquele país. Onde os fracos não têm vez é uma subversão do gênero fílmico e do olhar antropológico norte-americano.
O filme dos irmãos Joel e Ethan Coen se foca no imaginário de uma sociedade bélica, armada de escopetas, que cultuam a liberdade através das armas, filhas de um fantasma chamado Vietnã. Seus personagens, à exceção de um ou outro, são homens e mulheres incrustrados na aridez do deserto na fronteira com o México. Às vezes são mexicanos que entram nos EUA para traficar, às vezes policiais de fronteira, às vezes apenas um povo perdido no meio do nada.
Em uma primeira leitura, mais óbvia, o filme é calcado na perseguição desencadeada pelo facínora, o homem sem resquícios de bondade, o monstro igualável ao terror de um Sexta-Feira 13 ou qualquer outro do gênero B. Ele encarna o inexorável avanço do mal, a falta de pudor, de amor, de compaixão. Não perceber, porém, os entreditos postulados no filme fará o espectador amargar a angústia do gato-por-lebre.
Mas Onde os fracos não têm vez é esquemático ao apontar esse erro de leitura. No seu término, a inconclusão da trama superficial é tão escancarada que só se pode fazer supor que, de duas, uma: ou esse roteirista enlouqueceu ou o filme não é sobre o que se pensava que fosse.
O personagem de Tommy Lee Jones, um xerife já fatigado, é quem dá a leitura de assombro ao filme. É dele o trecho em off, logo no início da fita, que fala sobre onde a violência chegou, sobre sua ascendência sempre voltada ao trabalho junto à lei. A partir daí, o que desenrola é uma série de assassinatos, rastros de sangue e uma enorme quantia de dinheiro. É o xerife quem olha para o passado e faz a constatação que algo de muito errado aconteceu com a sociedade.
Grande parte do filme se passa nos desertos. É lá que surgem os primeiros cadáveres e a mala, motor de toda a violência. A posse desses dólares é o estopim para a perseguição impetrada por Anton Chigurh, um Javier Bardem monocórdico e, também por isso, estranho o suficiente para atrair para si a áurea do mal.
Llewelyn Moss (Josh Brolin) caçava veados pelo deserto quando encontra a maleta com dois milhões de dólares em meio a uma cena que sugere uma negociação falha. São muitos mortos, carros metralhados e um veículo carregado com drogas. Assumir os riscos e ficar com o dinheiro; não acionar a polícia; envolver-se em uma perseguição de morte. São elementos típico de um trhiler que caem sobre a cabeça do personagem.
O cinema dos Coen é fortemente marcado por discussões morais. Ele sempre está levando narrativas a situações limites para colocar em questão os valores éticos de nosso tempo. Em Onde os fracos… não é diferente. Embora a direção extremamente arrojada aponte para outro caminho, para um cinema de mero entretenimento, são necessários olhos abertos para compreender profundamente um filme que parece, mas não é. Há um quê tarantinesco na obra, talvez uma espécie de elogio ao elogio que Tarantino faz ao cinema de gênero. Onde os fracos não têm vez é um faroeste sem heróis ou duelos redentores.
A grandeza do filme encontra-se nos detalhes, nos símbolos suscitados pelo dinheiro roubado: nas repetitivas sequências de pessoas sendo compradas; em como o dinheiro subverte a moral e gera uma violência desmedida. E embora escondida, há uma tese no filme, a de que o dinheiro corrompe, denigre, desvirtua a índole até dos mais puros. É daí que vem o título original (No country for old men), que explica de forma muito mais clara o filme. Um país que perdeu seus valores. O título se refere, sobretudo, ao personagem de Tomy Lee Jones, o xerife quase aposentado que percebe seu deslocamento, sua estranheza frente à violência do mundo contemporâneo.
É um filme amargo, árido como o deserto. Amargo como um tempo em que é crônica a não crença na alma humana; crônica a crença absoluta no consumo.
Aina comentou em 23/5/2008 às 6:16 am
Vi esse filme e, logo depois, ‘Os Indomáveis’. Realmente, a impressão é de que ‘No coutry for old man’ é um faroeste que substitui, devido às novas configurações atuais, os cavalos pelas caminhonetes na fronteira EUA-México, sem deixar espaço para ‘heróis ou duelos redentores’. Minha leitura do filme também recai sobre o xerife, que percebe que para sobreviver precisa sair de cena, ou melhor, entrar nela, mas não confrontar o assassino na cena da crime. De qualquer forma, achei a obra estarrecedora demais, onde a sensação de vazio, de falta de qualquer coisa impera. Sua leitura sobre o consumo, sobre o dinheiro pode suprir essa falta, quando faroestes anteriores também apontavam para a disputa por dinheiro. Entretanto, nestes últimos, outros valores relacionavam-se ao dinheiro. Em “No country’ não há bandos, lealdalde: é uma guerra de homens contra si mesmos.
Valeu Aristeu,
Beijos, AIna
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