Por Tiago Lopes - 10/11/2006

A certa altura de A Vila, um dos melhores e mais subestimados filmes dessa década, o segredo sobre os monstros que cercam o vilarejo é desvendado, para os moradores e para a platéia. Mas numa das derradeiras seqüências, o pseudo monstro reaparece para assustar a garota cega, que procura no bosque a cura para seu amado.
O suspense criado nessa cena é um dos mais autênticos, já que se sabe quem está por debaixo da fantasia e, mesmo assim, o medo que se instala no espectador é o mesmo que toma conta da moça, como se houvesse um estado de cegueira geral.
Aqui, Shyamalan provou que o melhor de seus filmes não são as reviravoltas usadas em seus três anteriores (e muita gente ainda acha isso), mas sua capacidade de manipular tudo (personagens, cenário) e todos (platéia, crítica) ao seu gosto, com a maior verossimilhança. Em A Vila esse recurso foi sabiamente usado uma vez.
Em O Grande Truque, desde que o primeiro fotograma aparece na tela, o espectador mais atencioso já consegue ter uma idéia de todo o segredo da trama, mas isso é o que menos importa para Christopher Nolan, que, com esse exemplar, chega ao máximo de aproveitamento do tema mais recorrente em seus filmes: a obsessão. Alfred Borden (Christian Bale) e Robert Angier (Hugh Jackman) são parte de uma equipe que apresenta shows de mágica em palcos londrinos no século XIX.
Depois que Borden, acidentalmente(?), comete um erro que custa a vida da esposa de Angier durante uma apresentação, na frente de um teatro lotado, este se torna obcecado por vingar, de qualquer maneira, não só a morte da esposa, mas o fracasso que essa falha trouxe para sua profissão. Então começa a freqüentar as apresentações de truques mambembes do rival e procura sabotar qualquer número apresentado, de qualquer maneira.
Borden faz o mesmo e, enquanto o filme avança, as sabotagens vão se tornando mais silenciosas e com maiores consequências. Em certo ponto, Borden consegue criar O Homem Transportado, um truque tão perfeito que vira o verdadeiro objeto de obsessão e superação de Angier. Nesse ponto, todos os segredos usados por mágicos são aplicados no roteiro do filme e ser iludido é bem mais confortável do que saber a verdade.
A obsessão vai derrubando cada um que se relaciona com os dois. Borden mantinha um casamento estável com Sarah (Rebecca Hall, provando que um nome conhecido não é garantia de melhor atuação) que vai ruindo juntamente com a supremacia do seu maior truque; Angier faz de sua nova assistente, Olivia (Scarlett Johansson), uma amante que será mais útil observando o inimigo.
Há também Tesla – cientista interpretado com uma intencional picaretagem por David Bowie – a quem Angier recorre para, através de seus inventos, aprimorar o Homem Transportado e Cutter (Michael Caine), engenheiro de Angier e a única mente sã em toda essa esculhambação. Claro que nada disso é entregue numa narrativa linear, e as idas e vindas no tempo só ajudam a esconder ainda mais a verdade. Mas a platéia conhece o segredo do grande truque que, em ao menos dois momentos do filme, é contado. Mas admitir isso é constrangedor quando se paga para ser surpreendido. Então simplesmente acompanhamos a sucessão de sabotagens que irão culminar de maneira tão fantástica (o adjetivo não está sendo usado em vão) que o segredo se torna um Mcguffin.
O termo, criado por Hitchcock, existe para denominar um elemento na trama que serve para distrair a atenção do espectador e alavancar a ação do filme, mas que não passa de um pretexto para que o verdadeiro tema da obra seja abordado. A obsessão aqui vai muito além de uma vingança pessoal (como em Amnésia ou Batman), não basta só destruir o oponente, mas mostrar os restos para o maior público possível.
Nos últimos segundos do filme, a voz de Cutter aparece numa narração em off para explicar de que é feito um truque de mágica: a promessa, em que o ilusionista apresenta um objeto comum em circunstancias idem; a virada, em que algo de extraordinário acontece; e o “prestige” em que o ciclo se fecha, o objeto volta a um estado comum e a platéia se pergunta como aconteceu.
Enquanto a voz ecoa pelo cinema, a terceira parte do grande truque é mostrada na tela, criando um momento tão mórbido que, enquanto os créditos finais vão passando ao som de Thom York, a imobilidade corporal é totalmente justificada.
Davi Gustavo comentou em 14/11/2006 às 7:04 am
Muito bom o texto, Lopes! E melhor ainda esse espaço! O “Disruptores” acaba de se tornar leitura diária desse rapaz latino americano!
Alexis comentou em 17/11/2006 às 6:10 am
De fato, a bagaça toda é deveras previsível. Mas, como você próprio apontou, esse é o “prestige” do filme: a meia hora do fim, você já matou o segredo todo (em uma cena particular fica bem explícito), mas mesmo assim o filme não deixa de ser bom pra cacete.
E o Thom Yorke… pula essa parte.
Alex comentou em 6/12/2006 às 6:20 am
Rapaz, como eu só dou dez linhas pro sujeito dizer a que veio, só percebi que o artigo era sobre O Grande Truque depois de quinze dias. Isso é que é a verdadeira mágica…
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