Cinemascópio

Sobre um esquecido, um favorito e um azarão

Por Tiago Lopes - 23/02/2008

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Resenhas sobre três filmes em exibição nos melhores cinemas de outros estados e que, com alguma sorte por parte de vocês, chegaram (ou chegarão) por aqui com os devidos empurrões de premiações e afins.

darjeeling_menor.jpgThe Darjeeling Limited

Não quero usar Viagem à Darjeeling porque, mesmo sabendo da qualidade das traduções de títulos por esse país, os filmes do Wes Anderson sempre têm mais sorte que os dos outros (Três é Demais?!) e a viagem não é a Darjeeling, mas dentro do Darjeeling Limited, um trem que cruza a Índia e leva a bordo três irmãos, sendo que dois deles (Jason Schwartzman como Jack e Adrien Brody como Peter) ainda não sabem o motivo real da viagem, mas foram convencidos pelo mais velho (Owen Wilson como Francis Whitman) a ir “em busca de uma espiritualidade” e retomar o contato que foi perdido entre os três há um ano, logo após a morte do patriarca da família. F-A-M-Í-L-I-A. A reclamação mais freqüente feita sobre esse filme foi a repetição dos “cacoetes” que Wes usou em suas produções anteriores, como se cultivar um estilo único ou retomar temáticas abordadas anteriormente fosse algum demérito (no caso aqui, membros de uma família em busca de redenção). Como se esse tema fosse tão genérico e fácil de se esgotar que o Anderson tenha explorado todas as suas possibilidades em seu melhor filme: Os Excêntricos Tenenbaums (ele chegou bem perto, ao menos). Mas The Darjeeling Limited só mostra o quão é ingênuo imaginar que toda a complexidade de relações familiares pode ser resolvida com um simples “olá, bom dia”. A frustração, aqui, está mais presente do que em qualquer outro filme dele, por isso essa é a sua obra mais trágica. Graças às coisas que nunca acontecem como planejadas, que afastam todo tipo de desejo maior e a única maneira de se proteger de tudo isso é olhar para o nada e manter uma expressão melancólica, evitando assim qualquer tipo de emoção capaz de atrair outras pessoas. Mas, antes de perceberem a fatalidade da situação, os irmãos tentam se aproximar deles mesmos e de outras pessoas e eventualmente mudam essa expressão tão feita pelos personagens do Wes Anderson, tornando a coisa toda genuinamente engraçada ou profundamente triste. Aqui também tem Kinks (em lugar de destaque, já que nas três belas seqüências feitas em slow-motion tocam músicas do Lola vs. The Powerman and…), tem o Pagoda em pontas ao acaso, tem a família Wilson… A embalagem é sempre a mesma, toda colorida e quadrada, mas o que está dentro não é só uma variação do conteúdo entregue anteriormente, é algo novo, feito da mesma matéria-prima.

atonement_menor.jpgDesejo e Reparação

Sempre desconfio de um cineasta que só lança suas obras nos últimos três meses do ano, e todas são filmes de época e adaptações literárias e histórias de amores impossíveis (ugh!). E Desejo e Reparação é tudo isso. E, talvez, graças ao oportunismo de ter sido lançado só no fim do ano passado, está presente em todas as premiações, ocupando o espaço de algo como Zodíaco. Mas a sensação de que esse é o filme-oportunista da temporada e de que não possui nenhum mérito que irá escapar de reavaliações futuras, é dissipada já no primeiro ato. O filme inteiro poderia ser só o primeiro ato, seguido de textos na tela explicando o que aconteceu depois da tragédia que o encerrou. Os acontecimentos que irão culminar nessa tragédia, propulsora de toda a (menos impactante, mas agradável) ação posterior, são mostrados por dois pontos de vista: o de Briony Tellis, garota de 13 anos que nos é apresentada nos minutos iniciais concluindo sua primeira peça; e o do narrador imparcial, que mostra os acontecimentos reais, sem as subjetividades que impregnam o olhar da garotinha inventiva. Esse olhar é responsável pela separação do casal formado por sua irmã Cecilia e o filho da governanta da casa, Robbie. Basta dizer que a tragédia acontece, também, graças a um recadinho do coração estilo Nelson Rodrigues, feita por Robbie para ser entregue a Cecilia através de Briony. Depois desse primeiro ato, somos abandonados a uma narrativa linear, que mostra os desencontros do casal provocados pela II Guerra. Ele foi para o front e as irmãs se tornaram enfermeiras, mas ainda sem se encontrarem. Uma jovem Briony arrependida e um plano-sequência de 5 minutos numa praia com 300.000 soldados seguram as pontas até chegarmos as escolhas apresentadas no clímax, o VOCÊ DECIDE da temporada. A divisão de versões mostrada no primeiro ato, que foi camuflada durante boa parte da projeção, reaparece num final que tenta achatar toda a perversidade da história ao mostrar uma versão romantizada em detrimento dos fatos reais, aproximando-se cada vez mais dos corações dispostos a dar algum voto de confiança a trilhas sonoras grandiloqüentes e a belas imagens de um casal passeando na praia. Mas o bom espectador sempre tem memória suficiente para reter os poucos segundos em que a verdadeira tragédia é narrada e, só assim, o filme cruza a maçante alcunha de filme-de-oscar para se tornar uma obra de, vá lá, amor impossível convincente, capaz de suportar futuras reavaliações e não ser taxada de muito barulho por coisa pífia.

juno_menor.jpgJuno

Garota de 16 anos engravida e decide doar seu bebê a um casal. E daí? Daí que você cruza quase duas horas de filme sem sequer pensar na gravidade (hãhã) da situação. Toda a tragédia é amortizada pela compreensão de pais atenciosos, bons amigos, um namorado relapso e um casal bem de vida que aceita adotar o bebê, tirando o peso da futura responsabilidade das costas de Juno. Isso tudo te ajuda a NÃO pensar, por um momento sequer, que engravidar aos 16 anos é um problema sério, mas achar que é tão repentino e fácil de se “remover” quanto uma espinha. E, mesmo com toda essa bizarra boa vontade das pessoas ao redor dela para não tornar as coisas mais difíceis, ela ainda atrai a atenção de quem não deveria, tornando tudo um pouco mais complicado. Mas só depois que o filme acaba é que todos esses problemas citados começam a se parecer com PROBLEMAS. Porque o mundinho indie que a Juno (logo, o filme) se abriga, deixa tudo mais leve. De roupas às citações musicais, posters cools espalhados por todos os quartos que aparecem no filme, os diálogos rápidos e quase sempre sarcásticos, até mesmo o fato de ela gostar de filmes trash a torna ligeiramente mais agradável do que outros personagens que tenham aparecido por ai durante o ano. E toda essa simpatia da moça parece incomodar algumas pessoas que insistem em criticar o filme pelo seu excesso de “indismo”, como se, ao assistir, por exemplo, Amadeus, fosse legítimo reclamar do excesso de “erudismo” do filme do Milos Forman (“ai, quantos espartilhos, muito violino, pra quê tanta peruquete?”). Não é a toa que o nome do filme é o mesmo de sua principal personagem, em nenhum momento você tem outra visão da ação a não ser a da Juno: os personagens secundários são apresentados por ela em frases rápidas, é ela quem vai numa clínica de aborto sozinha, é ela quem arranja o casal para adotar seu “it”, e a idéia de fazer sexo numa tarde entediante também foi dela. Nada mais justo que o filme esteja impregnado de JUNO e das coisas que ela mais gosta. E, admita, grande parte do que agrada a Juno cai bem no gosto de vocês, digníssimos leitores desse site. Stooges, Patti Smith, Dario Argento. A garota possui boas credencias e o filme só as torna mais visíveis para desviar a sua atenção de um par de tragédias que estão lá, mas não incomodam. Tornar desgraças aceitáveis é sim algo que mereça algum elogio.

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