Por Alexandre Honório - 28/08/2008
Em “O Segredo de Joe Gould”, o jornalista Joseph Mitchell tratou de desfazer o que considerava uma lacuna na sua biografia: em uma espécie de acerto de contas com sua consciência, revelou, em uma reportagem memorável, o segredo daquele maltrapilho excêntrico que perambulava pelas ruas de Nova York. Porém, tal reportagem, considerada um dos principais exemplos do Novo Jornalismo, cobrou seu preço a Mitchell.
Com “Santiago”, a meu ver, o documentarista João Moreira Salles, envereda pelo mesmo caminho trilhado por Mitchell: um personagem único, revestido por singularidades, capturado sem o apreço que o autor inicialmente pretendia, revisitado tempos depois com a notável prerrogativa de fazer-se jus a sua natureza única.
Como documentário, “Santiago” representa o melhor de Moreira Salles, mas é nas suas entrelinhas, em sua técnica e sensibilidade agudas, que reside tal melhor. João Moreira Salles não revisita o personagem central da trama, o mordomo Santiago Badariotti Merlo, para se redimir dos erros e ver lançada uma homenagem àquele personagem que durante trinta anos fez parte de sua vida.
Longe disso, “Santiago” é o reconhecimento das limitações; uma espécie de crítica revestida por metalinguagem que, por mais que o diretor não queira, o assustava pela urgência com que cobrava tal acerto.Santiago Badariotti, novamente recorrendo ao personagem de Joseph Mitchell, é rico em suas particularidades.
Daí entendermos porque Moreira Salles se viu em débito com aquele mordomo que um dia lhe ensinara como servir os convidados de seus pais ou mesmo porque deveria vestir um smoking para tocar Beethoven ao piano.”Santiago” nos envolve, portanto, em decorrência do humano e, mais que isso, da improbabilidade de ser além-humano – como demonstram os artigos escritos pelo mordomo compilando “a aristocracia de todos os tempos”. Badariotti, como Joe Gould, construiu para si uma tarefa hercúlea, impossível, improvável: se este último pretendia um tributo à “história oral de nosso tempo”, Santiago pretendia a história dos protagonistas da história – de todos eles.
Como Mitchell, talvez, João Moreira foi ofuscado pela extravagante figura que conhecera desde cedo; talvez sentira a necessária urgência em lhe prestar tributo; talvez, como percebera depois, o ressentimento inconsciente da relação patrão-empregado o conduziu à empreitada. As hipóteses são variadas, mas, como resultado, o filme que originalmente foi concebido em 1992 não deixou as caixas de rolo.
O longa de 2007, além de lançar um outro olhar sobre o diretor que se iniciava com o personagem, lança um olhar-tributo em torno do personagem: o filme de João Moreira Salles é o mais elevado exemplo da beleza que reveste o documentário; exemplo de que, por mais que pretendamos o contrário, aquilo que nos interroga os sentidos deixa marcas indeléveis. Joseph Mitchell sabia disso, mas, diferente de Salles, decidiu carregar seu personagem até o fim de seus dias.
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