Por Pablo Capistrano - 14/11/2007

Demorou, mas finalmente eu assisti ao filme Tropa de Elite. Esperei o feriado do dia 15 de Outubro, dia dos professores e aproveitei a segunda feira sem aula para ir ao cinema. Depois de mais de duas horas de sessão voltei para casa esgotado.
Precisei tomar quase um litro de chá de camomila para dormir e, de vez em quando, ainda hoje, um bom tempo depois, quando fecho os olhos sou possuído por alguma das cenas do filme. Isso só prova uma coisa: o filme é muito bom. A interpretação do Wagner Moura é espantosa. É preciso ver esse filme umas cem vezes para se convencer que o jovem ator baiano possa ter posto algo fora do lugar na composição do seu personagem.
Fiquei curioso para ver esse filme desde que um aluno meu, que é policial me disse: “professor, o Senhor já assistiu o filme do BOPE?”. Diante da minha negativa ele respondeu: “Pois veja, professor! Veja! Só de me lembrar desse filme eu me arrepio” e me mostrou o braço ouriçado como se tivesse sido atravessado por uma descarga elétrica. O que poderia fazer um policial, acostumado ao dia a dia profissional esgotante em uma capital brasileira se arrepiar?
Muita gente apontou para a direita dizendo que o filme era comprometido. O diretor José Padilha apareceu em público para se defender. Apareceu gente dizendo que o filme apresentava vários aspectos do problema da violência urbana, e que as imagens e a narrativa desmontavam o discurso do Capitão Nascimento (personagem do Wagner Moura). Pelo que eu entendi, o diretor (já anotei o nome dele na minha lista de melhores diretores brasileiros) tentou deixar claro que o discurso do protagonista do filme iria ser desmontado pelos fatos que cercavam o seu estado psicológico.
Parecia que ele estava tentando fazer o que o cineasta russo Andrei Tarkovski fez em “O Sacrifício”, um filme de 1986, no qual o diretor cria um descolamento ansioso entre as imagens que passam na tela o discurso dos personagens. Mas não foi isso que eu vi. Me desculpe amigo Padilha, mas eu vou ter que discordar de você. O discurso do capitão Nascimento no filme Tropa de Elite é o que condiciona a forma como as imagens são percebidas e o modo como a narrativa é captada. Não há dicotomia. Não há mal estar. Não há ambigüidade. Tropa de Elite não é o filme do BOPE. Tropa de Elite é o filme do Capitão Nascimento e de seu discurso fascista. Isso se dá devido a um fato simples: a força do narrador.
Por mais bem cuidada que seja a produção das imagens e o colorido violento da selva urbana do Rio de Janeiro; por melhor que seja construída a superposição de discursos, como os da ONG dos estudantes universitários, o de Foucault expresso pelo policial que tenta virar advogado, o do policial corrupto e descrente com o sistema, o do traficante, todas essas falas são amarradas a partir da voz do Capitão Nascimento. Ele é o narrador e, quem faz literatura sabe, o narrador cria a realidade do texto. Dar voz a um narrador é uma atividade perigosa, ainda mais quando o narrador é um personagem. Discordo de quem acredita que toda obra de arte tem um conteúdo político. Acho que existem filmes que não trazem nada de ideologicamente mais profundo. Mas o filme Tropa de Elite não é um desses.
Comparando as cenas do treinamento militar do BOPE no filme, com as que um outro grande cineasta (olha só Padilha, com quem eu estou te comparando) Stanley Kubrick, em seu Full Metal Jack (1987), pode-se compreender bem porque Tropa de Elite é tão polêmico. Diante das crueldades do treinamento dos fuzileiros norte americanos no filme de Kubrick ficamos enjoados, abalados, chocados. Nauseados com a brutalidade da guerra e entristecidos com o gênero humano.
Diante do treinamento dos militares do BOPE no filme de Padilha, temos vontade de rir e saímos arrepiados, com vontade de pular e trucidar algum traficante ou socar um “maconheiro sem vergonha”. Repetimos o tempo todo “É assim mesmo. Tem que ser assim.”. Hoje, se alguém me perguntar sobre o filme, direi: o filme não é só de direita, não. O filme é fascista. Muito fascista. Quer tirar a prova? É só seguir o capitão.
Marcelo comentou em 15/11/2007 às 7:24 pm
Excelente texto, Pablo. Concordo com a sua visão do filme. Não sei se você assistiu, mas recomendo o documentário ÔNIBUS 174, também dirigido por José Padilha, e superior (na minha opinião) a Tropa de Elite, e passa longe do facismo.
gabriel comentou em 16/11/2007 às 12:51 pm
Gostei do texto, embora não concorde com esse lance de q o narrador é fascista. abs
olegario passos comentou em 5/12/2007 às 8:29 am
A forma percepitiva das imagens visuais e auditivas,é consequencia do acúmulo experencial,intelectual,cultural e perfil ideológico de cada um.Tu que muito admiro, nesse texto foi limbal e a sua justificativa,para julgar e rotular o filme de fascista,me acontece como prima-irmã do rótulo.
Yuri Kotke comentou em 12/12/2007 às 5:38 pm
A discussão sobre o filme renderia horas de debate, Pablo, mas discordo do comentário sobre o filme ser fascista. Na verdade, concordo com isso quando você fala que “Tropa de Elite é o filme do Capitão Nascimento e de seu discurso fascista.”. E eu creio que esse é o objetivo. Isso é perigoso em uma sociedade na qual precisamos cada vez mais de um discurso para preencher esse vácuo na nossa identidade, mas é um processo que se vê em obras contemporâneas. O discurso de Kubrick é humanista, brechtiano até. O olhar em “Full Metal Jacket” é o olhar do Comediante, que aparentemente também é o olhar do Kubrick. O autor não precisa incluir sua posição tão claramente na obra (e estou falando de uma perspectiva na qual o diretor é o autor, conceito da época da Nouvelle Vague que, infelizmente, ainda está em voga).
Comparando o “Tropa” com outro filme, “Clube da Luta, vemos semelhanças. O protagonista, tanto em um quanto em outro, não age de acordo com o que chamaríamos de justo ou correto, mas as ações são plenamente justificadas segundo sua lógica interior. Não há discurso “moral” maior que amarre o filme como um todo. O que existe são as pessoas e os olhares presentes são todos provenientes delas. E essas pessoas estão inseridas numa situação que altera seus respectivos pontos de vista (como se vê na citação que abre o filme).
Obviamente, tem cretinos que querem entrar para a PM logo após ver “Tropa”, assim como tem imbecis achando que entrando no cinema em que está passando “Clube da Luta” e fuzilando a platéia estão fazendo algo para mostrar ao mundo que “vocês não são seus carros”. Mas é o risco que se corre. O assassino de John Lennon lia “O apanhador no campo de centeio” e se achava o Holden Caulfield com uma 9mm. Essas coisas acontecem, e não acho que seja por isso que devamos produzir apenas arte que mostre como violência é enojante, cruel e horrível. Às vezes precisamos notar que temos identificação com certos discursos, até fascistas mesmo (por quê não?), para então podermos nos conhecer melhor.
E, fora esse papo, o filme é realmente muito bom, né?
Danilo Sanches comentou em 1/2/2008 às 7:06 am
É uma pena que falta lucidez à imensa maioria para reconhecer essa postura fascista e barrar o impulso de “vamos matar o maconheiro sem vergonha”.
O filme é bom mesmo, mas não pelo que as pessoas que põe o funk (tema do filme) como toque de celular acham.
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