Por Alexis Peixoto - 08/03/2009

Testemunho de um fã sinceramente arrependido, escrito com um fiapo de análise crítica e um punhado de piadas bestas, parágrafo primeiro: durante mais ou menos um ano e meio, desde que adaptação cinematográfica de Watchmen foi confirmada com Zack Snyder a frente do projeto, estive ocupado numa militância solitária e inútil contra a feitura filme. Qualquer informação nova a respeito das filmagens dava margem à velha ladainha do fã xiita, especialmente reforçada depois da quinta cerveja: “Watchmen é infilmável, eles vão mudar o final, sou contra esse filme, Zack Snyder é um bosta”. Com exceção dessa última afirmação, fui obrigado a engolir toda a minha campanha contra o filme entre as três e seis da tarde do dia 06 de março de 2009. Sim, Zack Snyder continua sendo um bosta, já que seus filmes anteriores não desapareceram da memória da humanidade. Mas se há uma lição a ser aprendida aqui é esta: mesmo os seres humanos mais abjetos são dotados de bom senso e, com as condições corretas, podem até conseguir fazer algo de bom na vida.
Então, a todos os convivas, subo na cadeira e admito em voz alta: gostei do filme de Watchmen. Pronto, taí. E, pior, nem precisou muito. Bastou o logo da DC surgir amarelo na tela e meus argumentos e preconceitos desceram goela abaixo com pipoca e Coca-Cola. E lá estava o Comediante sendo jogado pela janela, o Dr. Manhattan apertando a mão do presidente Kennedy, o Natal dos Minutemen. Tudo isso nos créditos de abertura, “The Times They Are A-Changing” ao fundo.
E por aí a coisa foi, com alguns altos e baixos durante o percurso. Horas depois da sessão, pensando a respeito do que havia visto e já tendo que suportar o terrível fardo de ter gostado de um filme de Zack Snyder, me lembrei de I’m Not There, a falsa cinebiografia de Bob Dylan por Todd Haynes. Assim como Watchmen, o filme de Haynes foi bolado, executado e embalado para agradar o fã, aquele sujeito que sabe de cor todas as falas, letras e mudanças de acordes, etc. E é nesse ponto onde está o maior acerto e a maior fraqueza dos dois filmes. No caso de I’m Not There, aquele porrilhão de referências só para iniciados, espalhadas de forma não-linear e um tanto alegórica demais acabou se revelando um ato falho de graves consequências que elevou o filme a um grau de chatice irrecuperável, ao menos sem Cate Blanchett na tela.
No filme de Watchmen, um sonho molhado que assombra os fãs de quadrinhos há vinte anos, é diferente. Basta ver Rorschach andando, falando e quebrando braços alheios na tela para que a satisfação do fã se manifeste. Uma revista em quadrinhos cultuada no mundo inteiro, todos hão de concordar, delimita limites bem mais sólidos do que a carreira errática de uma lenda pop semi-reclusa. E o maior mérito do filme, apesar do ritmo videoclíptico de Snyder e a superficialidade latente com que filma algumas cenas (a sequência da reunião dos vigilantes e o encontro de Laurie com o Comediante, uma das cenas chaves da história, tem tanta profundidade quanto a tela em que é projetada) é respeitar esses limites e, portanto, entregar de bandeja tudo o que os fanboys tanto querem. O revés óbvio está no fato de que quem não leu o original, nem dá muita bola para quadrinhos ou coisas do gênero tem grandes chances de acabar como a senhora sentada atrás de mim que no fim da sessão esbravejava de celular em punho, reclamando das três horas perdidas naquele que julgava ser o pior filme que já vira na vida e que, vai entender, ela só fora assistir porque pensava ser uma comédia.
Noves fora, Watchmen, o filme, não é uma obra-prima, nem deve sequer arranhar indicações em qualquer premiação que não seja tocada pelos editores da Wizard. É um bom filme mediano, sem grandes voos cinematográficos, mas dotado de um potencial de entretenimento que fura a estratosfera. Sim, o elenco é jovem demais e algumas as atuações ficam entre o constrangedor e o medíocre (notável exceção a Jackie Earle Haley como Rorschach), o final, apesar de essencialmente o mesmo, ainda é um pouquinho diferente e é difícil não pensar no que um torto como Terry Gilliam teria feito com essa bomba na mão. Mas a quantidade de smileys humanos saindo dos cinemas em todo o mundo põe tudo pelo ralo e deve garantir a Watchmen o status de cult movie entre os devotos de Alan Moore e aficionados em geral. Se você é um deles ou ao menos um dia pretende ser, pegue o rumo da próxima sala de cinema. Se não é, passe longe. Ou melhor, repita comigo: “Diário de Rorschach, 12 de outubro de 1985: Carcaça de um cão morto no beco hoje de manhã…”
Davi comentou em 10/3/2009 às 12:15 pm
“Um bom filme mediano”. Essa é uma boa definição para a adaptação, sem dúvida. Ainda acho que a trilha, salvo na abertura, incomodou um pouco.
Apesar de ter um final econômico e elegante, eu realmente pagaria para ver a reação do público ao ver o arremedo de Cthulu sendo teleportado para a Times Square.
Hugo Morais comentou em 11/3/2009 às 8:13 am
É né, cara de chibata, torceu o braço. Eu disse a tu que daqui a 15 anos vais estar dizendo que é um clássico. Senta que é de menta.
Milena Azevedo comentou em 11/3/2009 às 5:35 pm
Ah, eu gosto do Snyder. Sabia que filmar Watchmen seria algo dificílimo, até porque há nuances que apenas na mídia HQ se pode apresentar, mas o danado não me decepcionou. Ele soube condensar a história e fez uma adaptação muita boa (há quem gosta de catar “piolhos” como eu, ganhou um prato cheio, pois Snyder arrumou umas surpresinhas em várias cenas). Watchmen foi a melhor adapatação de uma obra de Alan Moore para o cinema. Não é perfeita, mas foi a possível. Valeu, Snyder.
Adriana Amorim comentou em 13/3/2009 às 11:31 am
É… os preconceitos existem para serem quebrados!
Fernando Aureliano comentou em 14/3/2009 às 7:28 pm
Eu tinha certeza, mesmo antes de assistir ao filme, que os puristas iriam tocar alcool e jogar o fosforo, mas acredito que se vc não olhar pelos olhos de um fanboy, nem pelos olhos de um cinéfilo, e sim como algo novo que precisar ser interpretado, verá que no final das contas é um bom filme, apesar de seus problemas, é um bom filme. Só o fato de Snyder ter feito algo que disseram ser impossível durante 20 anos, já vale o ingresso.
Milena Azevedo comentou em 15/3/2009 às 12:53 pm
Tomei vergonha e fiz um texto sobre minhas impressões da adaptação de Watchmen para o cinema. Para quem quiser ler: http://www.asfixia.net/asfixia
Breno Machado comentou em 19/3/2009 às 4:49 am
A minha recomendação para quem ainda não é fanboy é: assim que sair da sala de cinema, corra atrás dos quadrinhos (esses, sim, verdadeiro tapa na cara). Será um investimento para toda a vida porque ele será lido, relido e ainda vai precisar de outras releituras para atingir uma sensação parecida com completude do entendimento da obra.
Alan Moore é foda.
Patrício Jr comentou em 23/3/2009 às 10:54 am
Gostei muito do filme. Mas já desconfiava que quem não leu a HQ detestaria. Por isso, fiz uma brincadeira no meu blog: publiquei duas resenhas. Uma minha, um fanboy assumido da HQ (http://tinyurl.com/dlrzxn); e outra de uma amiga que nunca tinha ouvido falar em Watchmen (http://tinyurl.com/dkrnpq). A divergência de opiniões é gigantesca.
Fernando Aureliano comentou em 24/4/2009 às 5:55 pm
@patricio eu acho que é que “quem leu a hq” detestaria não? acho que vc inverteu. Bom. Boa oportunidade pra divulgar seu blog.
Buca Dantas comentou em 23/5/2009 às 7:52 pm
Alexis, gostei do seu texto. Entusiasta na defesa da obra à qual vc é fã – a revista. Gostei do filme. Não li a revista. Entretanto, o que me deixou latejando as veias do pensamento foi o fato de, no final do filme, o Dr. Manhattan não só concordar com as explosões nucleares, mas até mesmo encobrir a divulgação da verdade [assassinando um ex-parceiro], na vã crença de que a omissão do exercício da verdade [e compreensão das raízes de todo e qualquer conflito] menterá a paz. A Europa INTEIRA fez isso quando Hitler destruiu Guernica [Espanha/28/04/1937]. Fizeram vista grossa à destruição daquela pequena cidade pelas tropas alemãs…e a consequência [lá no final] foi exatamente a destruição de Hiroshima e Nagasaki por bombas nucleares [fruto do projeto Manhattan, que destruiu Hiroshima e Nagasaki...e que empresta o nome ao Dr da película]. E o filme não só concorda com essa versão, mas faz a sua apologia audiovisual. As coincidências não podem ser estranhas. Eu não creio que existam coincidências. O filme, como espetáculo de entretenimento, é bom. Mas se for uma fiel adaptaçao dos quadrinhos eu não quero nem ler, pois faz a apologia de uma ideologia com a qual não só discordo, mas faço questão de combater.
Buca Dantas comentou em 9/6/2009 às 4:09 pm
Li a obra…a série Wathcmen…ritmo bom, mas o enredo é tipicamente americanizado total…a história vista por trás dos tanques ianques…é como a CNN mostrando as guerras soba ótica de quem já entra ganhando…Watchmen é a visão pequeno burguesa de que as coisas tem que ter uma solução. os diálogosa, em muitos pontos, são auto-explicativos…e sinceramente eu não esperava isso, depois de ler tanta gente falando que a coisa é quase como uma coca-cola [casco de vidro] geladinha.
2007 ® Todos os Direitos Reservados
Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.
DZ3 Design