Por Alexandre Honório - 01/02/2008

A comparação com “Os Infiltrados” me parecia inevitável: “O Gangster” de Ridley Scott aparentemente não fugiria do formato e seria mais um filme sobre a “tradição” norte-americana; sobre a ascensão e queda de seus filhos pródigos. No entanto, percebi que manter tal perspectiva seria um equivoco: há uma distância separando os dois filmes; uma consistência no filme de Ridley Scott que, apesar de sua qualidade, não se apresenta em totalidade de Martin Scorcese.
O longa de Scott trata, na verdade, da construção de um império que soube aproveitar-se da falência de uma máquina (no caso, a que sustentava a Guerra do Vietnã) e a “histórica” contribuição desta para a consolidação da heroína como droga da vez em meados de 1960 e 1970 na Costa Leste dos EUA.
A história de Frank Lucas (Denzel Washington) nos mostra o fascínio que estes “heróis” do tráfico dos EUA exercem sobre o imaginário daquele país: um negro nascido na Carolina do Norte, que cresceu nas ruas do Harlem sob as asas de um gangster (no caso Raymond “Bumpy” Johnson) e se transformou em senhor do tráfico.
Um outro exemplo desta mesma fissura pode ser encontrada em “Profissão de Risco”, de 2001. Estrelado por Johnny Depp, o filme mostra como George Jung (Johnny Depp) – contemporâneo de Lucas e igualmente empreendedor -, saído da cadeia, se transformou no “cara” responsável por suprir o mercado da Costa Oeste dos EUA com toneladas e toneladas de cocaína transportadas com as bênçãos de “San Pablo Escobar”.
Se de um lado do continente os norte-americanos enfileiravam a valer, do outro a agulha corria solta: Frank Lucas, com uma visão aguda sobre os meandros do “negócio”, construiu uma ponte improvável que mantinha seu empreendimento. Como muitos, Lucas encontrou um modo de conquistar seu quinhão com a guerra que se desenrolava na Ásia e construiu um aparato que mantinha o olhar da polícia distante dos seus.
Droga barata, polícia corrupta, clientela crescente: tudo apontava para o sucesso inquestionável de Lucas. No entanto, no outro extremo da trama, sofrendo o “pão que o diabo amassou” devido a suas escolhas e crenças, somos apresentados ao policial Richie Roberts (Russell Crowe).
Incorruptível, diferente de muitos dos seus pares, o oficial Roberts é execrado por sua natureza – principalmente depois de transformar um milhão de dólares em prova -, mas logo se torna uma das peças-chave de uma divisão de combate ao tráfico e na caçada dos responsáveis pelo despejo de heroína nas ruas de Nova Iorque. Daí, como todo filme do gênero, tem início uma caçada que terminará com o “vilão” desconstruído e atrás das grades.
Ridley Scott conseguiu com “O Gangster” produzir seu melhor filme em tempos desde “Gladiador” – que não é tão bom assim. Com o domínio de câmera que é sua marca, Scott, apoiado por um roteiro redondinho, constrói um filme que, quer queiram ou não, distancia-se de seus pares; que, mesmo não sendo facilmente comparável a filmes como “O Poderoso Chefão” ou “Os Bons Companheiros”, detém as mesmas marcas destes dois.
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