Por Alexandre Honório - 29/01/2009

Gosto de filmes despretensiosos. Creio que na despretensão reside de alguma forma uma inspiração que suplanta qualquer previsibilidade. No caso de “Vicky Cristina Barcelona” é justamente a atmosfera despretensiosa que rodeia a trama que transforma o filme em uma das grandes sacadas recentes de Woody Allen. Entretanto, tal despretensão traz algumas cartas nas mangas que, para os espectadores mais incautos, podem transmitir impressões tanto quanto equivocadas.
A primeira destas cartas é a presença de um narrador que introduz os personagens, seus propósitos e suas implicações. Os personagens e seus conflitos dão cores às melhores das cartas que Allen joga à mesa: não que Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) sejam personagens complexas, mas, envolvidas por uma sucessão de eventos que mais se assemelham a uma comédia tragicômica. Impressionantes mesmo são os personagens de Javier Bardem (o artista plástico Juan Antonio Gonzalo) e Penelope Cruz (a “musa” de Gonzalo, Maria Elena).
Bardem e Penelope, além da própria cidade de Barcelona, emprestam suas energias para Woody Allen contar uma brilhante trama. Vicky e Cristina são duas turistas americanas que, a procura de aventuras e, no caso de Vicky, conhecimento, visitam Barcelona. As duas, opostas em muitos aspectos, conhecem o artista Juan Antonio (Bardem) e, cada uma a sua maneira, são logo envolvidas pelo talento e os, digamos, maneirismos sentimentais do espanhol.
O grande trunfo de Woody Allen neste filme é desenvolver, a partir de um roteiro sem maiores surpresas, uma história que nos prende. O triângulo formado por Vicky, Cristina e Juan Antonio não há absolutamente nada demais; nada capaz de apimentar a trama e conduzir o espectador para um clímax relevante. É com a entrada em cena de Maria Elena (Penelope Cruz perfeita como uma artista plástica problemática) que a trama orquestrada e conduzida por Allen se transforma diante de nossos olhos.
Penelope Cruz e Javier Bardem crescem em cena: transformam toda a atmosfera da trama e seduzem o espectador com seus personagens e as esquisitices deles. É perceptível até o valor que Allen dá às interpretações dos dois, mas é na química que ele constrói conduzindo sua, como disse, tragicomédia – com uma boa aliviada na porção trágica da trama -, que percebemos o lugar ocupado pelos quatro personagens principais. Maria Elena e Juan Antonio pertencem a uma realidade que ofusca a percepção de Vicky e Cristina – estrangeiras e alheias às particularidades do que é ser barcelonês, da vivência que tal sentido detém.
Por isso a impressão que se tem em relação à trama em si é que estamos, juntamente com Vicky e Cristina, apenas de passagem; apenas provando um pouco do que é urgente em uma viagem em busca de novas perspectivas. Talvez por isso a sequidão que encerra o filme chame bastante a atenção – habituados como estamos às histórias fáceis, um ponto final as vezes muito bem colocado nos toma de assalto.
“Vicky Cristina Barcelona” não figura entre as obras-primas de Woody Allen, mas, certamente, não é um filme que desagradará seus fãs. No fim, é possível perceber isso, assistimos a uma bela e singela demonstração de que, como disse no início, alguma despretensão pode, sim, fazer uma boa diferença.
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