Por Aristeu Araújo - 08/05/2007
Era 1968. A revolução que havia sacudido a França em maio daquele ano modificava o jeito de pensar da juventude de esquerda no mundo inteiro. Em setembro do mesmo ano, Caetano Veloso, no Brasil, subia ao palco acompanhado pelos Mutantes. Guitarras em punho, ouviram uma das maiores vaias da história da música brasileira. Se não a maior, pelo menos a mais célebre. Engraçado, ele cantava Proibido Proibir. As vaias eram contra as guitarras, que no imaginário da época maculavam a verdadeira MPB, eram sinal de alienação cultural. O resultado é que Caetano desfiou um discurso exaltado, gravado posteriormente em disco.
Hoje, o slogan “proibido proibir” soa banal. É que o mundo mudou, perdeu as utopias ao longo dessas quase quatro décadas que nos separam do maio francês. O Brasil deixou para trás sua ditadura militar. E é nesse entendimento que reside a primazia do segundo filme de Jorge Durán. Um triângulo amoroso que usa como base a alienação da juventude carioca frente aos dramas e infortúnios sociais vividos por aqueles abaixo da linha de pobreza.
Proibido Proibir mostra de perto o convívio de três estudantes universitários, Paulo (Caio Blat), Leon (Alexandre Rodrigues) e Letícia (Maria Flor). Paulo cursa Medicina; Leon, Ciências Sociais; e Letícia, Arquitetura. São personagens típicos da fauna acadêmica. O de Caio Blat não leva a vida muito a sério, não tem um tostão e gasta o que não tem com cerveja e drogas. O seu amigo, Leon, é engajado, faz pesquisas de campo em comunidades carentes e se ressente porque isso é pouco, ínfimo. Letícia, namorada de Leon, é uma patricinha hippie, dessas que se vê muito por aí.
É acompanhando o relacionamento desses três, que o filme vai radiografar o estado das coisas. Ou melhor dizendo, o pensamento médio do jovem universitário frente a sua cidade, frente ao Rio de Janeiro. Mas é ao longo do filme, que a cidade e sua periferia vão trazer as modificações que eles achavam não serem necessárias para si mesmos. É quando a favela invade o filme, quando os conflitos dos personagens os obrigam a tomar decisões graves que os colocam em questões morais que ultrapassam seus padrões de conduta.
Um ponto interessantíssimo de Proibido Proibir é a capacidade de trazer o documental para dentro da ficção sem que soe falso ou professoral. Do mesmo modo, o retrato da periferia não tem nada de glamourizado, até porque as escolhas das locações primaram por geografias não conhecidas, favelas que ninguém fora dali costuma pisar, nem o Estado.
Por outro lado, Proibido Proibir parece ser um filme de outro tempo. Sua cara, sua mise-en-scène, é de um cinema que já tivemos e que não se encontra mais costumeiramente nas novas produções. Isso não é necessariamente ruim, talvez o problema esteja na pasteurização da imagem que o cinema nacional atual tem como padrão de qualidade, vide Os Dois Filhos de Francisco, Cidade de Deus, O Homem do Ano, entre tantos outros.
Talvez a conseqüência dessa estética seja o fato de que Jorge Durán não dirigia um longa-metragem há 20 anos. O anterior foi A Cor do seu Destino, de 1986. Mas Durán não é cineasta de poucos filmes. Na verdade, sua grande contribuição ao cinema se dá enquanto roteirista. São deles roteiros de filmes importantes como Pixote – A Lei do Mais Fraco, Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia e O Beijo da Mulher Aranha.
Existem algumas lacunas presentes em Proibido Proibir, como as atuações que oscilam e que em alguns trechos dão pouca credibilidade ao trio; ou como em alguns poucos momentos (principalmente nos minutos iniciais) em que os diálogos surgem um tanto pueris, às vezes didáticos. No entanto, ultrapassados esses problemas, o filme demonstra possuir momentos de força e beleza dignos de estarem na tela de cinema. Um deles é a seqüência em que a personagem de Maria Flor caminha pelo Rio e estuda sua arquitetura. O filme trabalha uma metáfora da degradação social/moral através das fotografias feitas por Letícia. Ela fotografa as ruínas, o pouco zelo com a história da cidade.
Uma outra bela seqüência é a que conclui o filme, arrebatadora. Mas essa eu deixo para vocês.
gabriel comentou em 8/5/2007 às 7:56 am
Só o fato de ser o primeiro filme dirigido por um cineasta experiente em 20 anos já me deixa curioso. Realmente a estética do cinema brasileira anda bem padronizada, com algumas exceções (Contra Todos?, Cinemas, Aspirinas e Urubus?). Agor é esperar uma chance ver Proibido Proibir por aqui, o q não deverá ser fácil. Abraços!!!
Tatiana Monassa comentou em 9/5/2007 às 11:11 am
oi Aristeu
legal seu texto!
só uma observação: Proibido Proibir é o terceiro filme do Duran. o primeiro foi O Escolhido de Iemanjá (produzido pelo Jece Valadão)
beijo
Aristeu Araújo comentou em 9/5/2007 às 11:24 am
Oi Tati, obrigado pelo toque. Já consertei no texto.
Jorge Durán comentou em 11/5/2007 às 2:30 pm
Quem lhe escreve é Jorge Durán
Aristeu. Ajudando a esclarecer: O escolhido de Iemanjá, produzido por Jese Valadão, era originalmente um piloto de 52 min para um seriado de televisão, ficção. Um dos 23 produzidos pela Embrafilme, num intento de colocar imagens de cineastas brasileiros na TV. Mas nenhum desses filme passou nunca na TV. Dirigi o piloto e, mais tarde, Jece montou uma versão de 78 min, exibida faz pouco tempo no canal Brazil.
Eu assumo o piloto de 52 min como parte dos filme que dirigi. A versão de longametragem é responsabilidade do Jece. É por isso que considero A Cor Do Seu Destino meu primeiro longametragem. E um curta que fiz em 80, chamado Rio de Janeiro.
Em relação as imagens de PROIBIDO PROIBIR. A forma do filme é proposital, não há defazagem porque não filmei durante muitos anos. Foi tudo estudado e decidido metodicamente.
Há quem goste de glamourizar a imagem. Eu me sinto proximo e admiro os filmes de Ken Loach, alguns, os filmes ingleses de (nao lembro o diretor ) quem fez Samy And Rose, My Beautiful Laundrette, e principalmente, do cinema dos irmãos Dardene, que fazem filmes muito densos, com imagens simples. Filmes que mostram o que vêem sem nenhum enfeite de filtros, movimentos de câmera estetizantes, etc. Para mim essa parafernália tida por moderna, deixa os filme fora do contexto ao que pertencem. De tal forma que tanto dá se o filme (ou drama) ocorre no Rio, em NY, ou em Paris. Vejo que ha uma corrente que considera ultrapassado o realismo. Isso é ridículo: os filmes pasam, o realismo não.
Como nada é regra no cinema, no pxmo filme não sei ainda como vou filmar o que vejo. Não estou interessado em como os outros olham o Brasil. Estrou interessado em olhar o brasil e filmar o Brasil como o vejo.
Um abraço e obrigado pelo seu interesse no nosso filme.
Jorge
Aristeu Araújo comentou em 12/5/2007 às 10:59 am
Olá Durán, obrigado pelos esclarecimentos. Quanto às referências ao filme A Cor do seu Destino, no texto já recoloco-o como o teu primeiro longa-metragem.
Quanto à imagem, acho que essa estética não glamourizada é um ponto importante para entender melhor o filme. Quando digo no texto que o filme parece ser de outra época, é porque hoje – em grande maioria – os filmes parecem se afirmar por um olhar “moderno”, como você também escreveu. Em Proibido Proibir há, no entanto, uma simplicidade que rompe com isso. E essa simplicidade é tão evidente que chega a ser brutal.
Não sei se concordo com você integralmente, pois a parafernália da qual você se refere (filtros, composições arrojadas etc.), de algum modo, também são características dessa “realidade”. Não falo aqui de valores artístico ou coisa parecida, mas de que dentro de um imaginário da sociedade atual, esse é um modo de representação padrão.
Mas que bom que não há regras para isso, e filmes que têm a coragem de negar essas correntes.
Grande abraço,
Aristeu
Luanne comentou em 13/5/2007 às 1:29 pm
Engraçado isso do filme parecer de outro tempo. Eu não achei isso, mas algumas pessoas que conheço acharam. A ponto de se surpreenderem quando o computador aparece!
Eu gosto do filme, de uma maneira geral. Senti alguns problemas de roteiro, concordo com você Aristeu, quando disse que alguns diálogos pareciam didáticos, tanto nos momentos que pareciam querer elucidar a ideologia dos jovens quanto nos momentos que tinham a função de explicar o caráter dos personagens.
Algumas coisas da decupagem também me incomodaram, principalmente quando o filme se utiliza do plano e contra plano. Nada contra esse recurso, mas neste contexto me pareceu fora de lugar, uma quebra no ritmo.
O final é muito belo, também acho. Os três estão muito bem nos papéis, com destaque para o Caio Blat, que fez um Paulo muito interessante. O Alexandre tbm tem momentos muito bons. É um filme tocante e o saldo é certamente positivo.
Postado por Abutre comentou em 14/9/2009 às 10:53 pm
Ironia juvenil sem pretensão alguma de “glamourizar” este cotidiano urbano, um quadro degradante.
Acabei de ler na Super Interessante uma matéria sobre o tráfico na favela, ta certo que a idéia não é ensinar as pessoas a criarem sua pópria boca, mas eles detalharam tanto que da até pra começar um negócio.
[...] sem possíveis comparações. À época do lançamento do seu filme anterior, o belíssimo Proibido Proibir, escrevi que aquele longa-metragem parecia ter sido filmado em outro tempo. Justamente por não se [...]
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