Cinemascópio

Os Desafinados é retrato sensível do “espírito da bossa nova”

Por Yuri Borges - 07/10/2008

Conseguir mostrar o clima de uma época sem cair em lugares-comuns ou personagens estereotipados não é tarefa para qualquer um. Mas é justamente por não ser qualquer um que Walter Lima Jr, veterano diretor do Cinema Novo, consegue fazer isso tão bem no seu mais recente filme, Os Desafinados, que está em cartaz em uma das salas do Moviecom. Como o nome do filme já sugere, o tema em questão é o período da Bossa Nova, o seu espírito, as transformações que essa fase da história trazia para a vida das pessoas e a relação delas com o trabalho artístico.

Mas não se engane, não se trata de um documentário disfarçado, nem um daqueles filmes repletos de inserções de imagens históricas manjadas, apesar do fato da Bossa Nova estar completando 50 anos (João Gilberto lança o disco compacto de Chega de Saudade em agosto de 1958). Conta-se a história de um grupo musical formado por quatro amigos (Rodrigo Santoro, Ângelo Paes Leme, Jair Oliveira e André Moraes) que sonham em fazer sucesso. A história começa em 1963, quando o estilo musical já era bem reconhecido e um americano realizava no Rio de Janeiro uma seleção para a escolha de grupos de Bossa Nova para se apresentarem em um show no Carnegie Hall, em Nova Iorque.

O quarteto não consegue ser classificado, mas dá um jeito de ir pra lá assim mesmo, em busca de reconhecimento. Eles vão acompanhados por um diretor de cinema amigo do grupo (Selton Mello), que está bolando o seu primeiro filme e quer registrar a estada deles pela cidade americana. Os Desafinados sequer conseguem entrar no Carnegie Hall no dia do tal show brasileiro, mas seguem tentando as coisas por lá, conhecendo clubes de jazz, compondo e chegam até mesmo a gravar algumas músicas. Nesse meio tempo, Joaquim (Santoro) conhece uma musicista brasileira chamada Glória (Cláudia Abreu) e começam um relacionamento. O problema é que Joaquim deixou a mulher, Luíza (Alessandra Negrini), grávida no Brasil.

Glória, a princípio, parece ter sido tudo o que o quarteto precisava. Ela ambienta os brasileiros na cidade e passa integrar o grupo como a voz feminina que estava faltando. Até aí vive-se o “clima bossa nova”, com sua leveza, inteligência, certa ingenuidade e otimismo. O grupo está na condição de ter o mundo por descobrir e de desejar oferecer de volta a sua música. Mas quando a coisa parece estar se engrenando pra eles, Glória descobre sobre o casamento e tudo começa a desmoronar. Joaquim se divide entre a nova paixão, as possibilidades e experiências novaiorquinas e o amor da mulher que o espera grávida no Rio de Janeiro.  Pra completar, Glória chega a ter um affair com Davi (Ângelo Paes Leme), como forma de se vingar de Joaquim. Por fim, Os Desafinados voltam ao Brasil, e voltam às vésperas do Golpe de 64.

Esse retorno e a vida deles pós-64 coincide, no enredo, com a perda da ingenuidade por parte dos personagens. Walter Lima Jr. (também roteirista do filme) faz aí uma bela síntese entre História e  vida pessoal e parece dizer que não existe amadurecimento sem sofrimento. Mas, do desenrolar da narrativa no Brasil, também se pode concluir que não é por causa disso que se vá deixar de ser generoso, consigo mesmo e com as outras pessoas, mesmo quando isso pareça ser algo difícil.

Trata-se de uma história simples e sensível, assim como é o próprio filme, que não procura se utilizar de artifícios narrativos complexos. A narrativa, aliás, emprega um recurso bem comum. O tempo passado da história é intercalado por um encontro de alguns dos músicos do grupo, já velhos, que relembram sua trajetória e dão depoimentos para que o cineasta Dico, aquele que os havia acompanhado a Nova Iorque na juventude, faça um documentário para a televisão sobre eles e sobre Glória.

E, por falar em Glória, Cláudia Abreu está ótima no papel e Santoro faz uma atuação até que passável. Além desses dois, os personagens de Selton Mello e Ângelo Paes Leme são os mais aprofundados e bem caracterizados na história, e ajudam a compor o painel de conflitos e transformações pelos quais os indivíduos passavam na época.

Merecedora de nota também é a bela imagem em plongé, no início do filme, do grupo cheio de expectativas, caminhando e se divertindo no calçadão de Copacabana. A seqüencia transparece muito do espírito daquele período e dá o tom de discreta nostalgia da história. Essa imagem vai ter seu contraponto no final da narrativa, com os enquadramentos fechados dos músicos, já marcados por suas histórias de vida, com conquistas e frustrações, dando seus depoimentos para o documentário de tv. Walter Lima Jr. faz um filme nostálgico mas sem idealizações, e ainda assim consegue ser generoso com seus personagens e com a vida, assim como generoso foi o período simbolizado pela Bossa Nova e retratado por ele.

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