Por Alexandre Honório - 21/03/2007

Muitos adoram Woody Allen por suas comédias; outros, pelos dramas que dirige; alguns detestam ambos os gêneros, preferindo suas experimentações cinematográficas. No entanto, seja em quaisquer terreno, a qualidade do trabalho de Allen se sobressai. Mesmo em filmes menores como Trapaceiros ou O Escorpião de Jade, seu talento é evidente. Por sua vez, com seus dois filmes mais recentes – Match Point e Scoop – temos muito da medida deste talento.
Escrevi sobre Match Point e sobre como este filme impressionante figurará durante muitos tempo dentro da filmografia de Allen e no imaginário de seus fãs – como Celebridades, para ficarmos em um exemplo da década passada. Não é tão somente a habilidade de Allen em reconstruir elementos da literatura de Dostoievski, mas como o enredo, apesar de seus referenciais evidentes – e do próprio Allen já tê-los explorados anteriormente em Crimes e Pecados -, não perde seu brilho; sua beleza intrínseca se mantém. Match Point a retomada por Allen de um aparente flerte com o Velho Continente – já que o Novo Continente vem lhe causando alguns dissabores…
É justamente neste velho continente – ainda na Inglaterra – que Allen desenvolve uma de suas comédias mais brilhantes em tempos: Scoop. Tendo por base parte da mitologia shakespeareana de Hamlet – a idéia de um fantasma que retorna para ajudar na captura de um assassino tem por, como afirmou o próprio diretor, inspiração na obra do Bardo Inglês -, Allen concebe uma divertida comédia tendo por pano de fundo a morte do jornalista Joe Strombel (Ian McShane, de Deadwood) e a busca por desmascarar um assassino em série que vem agindo nas ruas de Londres.
Como em Match Point, o grande trunfo de Allen é Scarlett Johansson, mais uma vez impecável e definitivamente a “menina dos olhos”; o talento de Johansson salta à tela graças à interpretação da curiosa jornalista Sondra Pranski. Durante um espetáculo de mágica em um teatro, ela, depois de ser convidada pelo mágico Sid Waterman (Woody Allen) a participar de um número, recebe a visita do finado Joe Strombel e este lhe entrega uma bomba: um aristocrata inglês seria o “assassino do tarô” procurado pela Scotland Yard.
É com este pano de fundo que Woody Allen conduz uma de suas mais sensíveis comédias. Com planos detalhados, diálogos precisos e interpretações igualmente cativantes, Allen reafirma seu talento como um dos poucos diretores que não fizeram concessões em torno de sua filmografia: tanto Match Point quanto Scoop, mesmo pertencendo a universos dramáticos diferentes, compartilham da mesma técnica – aquela que tem proporcionado que longas como Melinda, Melinda e Igual a Tudo Na Vida detenham a mesma urgência de todas as suas tramas.
Scoop é um exemplo capaz de calar os cinéfilos blasé que, indiferentes à trajetória de Woody Allen, preferem ficar discutindo se ele é melhor fazendo drama, comédia ou quaisquer gêneros que se mostrarem disponíveis. Scoop pode não possuir a mesma urgência dramática de Match Point, mas detém-se em pé de igualdade quando pretende responder a pergunta: qual o límite do talento de Woody Allen?
A resposta é a própria reinvenção: Tiros na Broadway, de 1994, fora apontado, na época em que foi lançado, como o filme definitivo de Allen; aquele que poderia representar sua aposentadoria. Em pouco menos de dois anos o diretor mandou para crítica e público três de seus melhores e mais experimentais filmes: Poderosa Afrodite, Desconstruindo Harry e Celebridades. Três longas que fazem uso genial de metalinguagem e reafirmaram para uma década inteira o talento, repito, de um dos mais completos diretores em atividade.
Ainda é cedo para afirmarmos por quanto perdurará o vigor de Allen e seu tesão pela sétima arte. O que nos interessa, por sua vez, é saber que, produzindo longas como Scoop e Match Point, muitas discussões em mesas esfumaçadas de bares ganharão mais relevância.
Kenia comentou em 22/3/2007 às 8:24 am
Woody Allen é bom até quando faz um filme sessão da tarde como Scoop. Divertido e sem grandes pretensões.
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