Por Alexandre Honório - 26/03/2009

“Valsa com Bashir” é um acerto de contas. Não foi por acaso que o documentário em animação de Ari Folman levou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro: o filme reconstrói as memórias do diretor e de outros que participaram de operações durante a primeira Guerra do Líbano e, de modo mais específico, do papel destes em torno dos massacres de Sabra e Shatila – quando milhares de palestinos refugiados em Beirute foram massacrados por militantes cristãos sob o olhar do Exército de Israel.
O próprio Folman afirma que o filme resultou de uma percepção preocupante: o diretor não tinha lembranças claras daquele período; não recordava as operações do Exército Israelense e também o que fizera quando de sua passagem como soldado. Constatou que sua memória fora bloqueada: um bloqueio traumático, diga-se.
O filme de Folman, portanto, é uma tentativa de reconstrução daquele período a partir dos relatos do próprio diretor, de amigos que com ele militavam e de outros que participaram das ações do Exército Israelense em Beirute. “Valsa com Bashir” se inicia e se encerra com duas cenas perturbadoras: uma matilha de 26 cães raivosos que atravessam Tel-Aviv e se colocam a latir contra a janela de Boaz, amigo do diretor, em um pesadelo recorrente; e uma multidão de mulheres aos prantos e que tiveram os seus massacrados por militantes cristãos, enquanto cenas deles, empilhados entre becos e vielas, tenta reproduzir algo da dor sentida por elas.
As seqüências evidenciam o caráter de sonho que envolvia as memórias de todos os que, entrevistados por Folman, narravam o período que se encerra com os massacres dos refugiados palestinos em Sabra e Shatila.
A escolha pela animação em detrimento de uma produção em “carne e osso” me parece acertada: muitos dos eventos narrados em entrevistas pelos ex-soldados, repórteres e vítimas são reproduzidos em suas diversas matizes.
O filme é incisivo, poético e doloroso em muitos momentos – como quando Folman descobre sua atribuição frente ao Exército Israelense durante a ocupação de Beirute.
Entretanto é na valsa que um dos soldados parece executar durante uma incursão do destacamento de Folman em Beirute que reside uma das mais belas seqüências de todo o filme e que resume muito do que Folman pretende retratar: ali, diante da imagem de Bashir Gemayel – comandante das falanges cristãs libanesas e escolha israelense para controlar Beirute depois de suas operações na região -, frente todo o caos e loucura, o delírio reproduzido por aquela seqüência nos envolve e, em um só tempo, vai do belo ao obsceno – já que a barbárie é, em si, uma obscenidade cabal.
“Valsa com Bashir” transita entre imagens de sonho, relatos em torno do ainda revolto caldeirão de barbáries que reveste o conflito entre israelenses e palestinos e a capacidade humana de solapar sua própria percepção. Quando Folman descobre que ele era responsável por iluminar o caminho para que os soldados da IDF pudessem fazer o “trabalho sujo”, compreendemos o porquê de seu inconsciente esconder este detalhe nos recônditos de sua memória.
Ari Folman promove uma revisão do seu passado, mas, ao mesmo tempo, com a história recente: “Valsa com Bashir” ajuda a explicar porque nenhuma justificativa para a barbárie pode ser válida e porque o esquecimento por vezes se manifesta involuntariamente.
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