Por Aristeu Araújo - 28/11/2006

Iguatu é uma cidade de 92 mil habitantes cravada no centro do sertão cearense. É para lá que Hermila se desloca nos instantes iniciais de O Céu de Suely, segundo longa-metragem de Karim Aïnouz. Ela chega de ônibus, trazendo no braço o peso de um filho pequeno e da bagagem do que restou de dois anos em São Paulo.
Assim como em Madame Satã, primeiro filme do diretor, O Céu de Suely vai se construir na proximidade da câmera com sua protagonista, renegando artifícios puramente dramatúrgicos, focando-se no que há de essencial para a compreensão da personagem. Mas Hermila não tem a histeria de Madame Satã e se em seu primeiro longa-metragem Karim Aïnouz oscilou o foco de seus planos para acentuar a ira do protagonista, nesse segundo há uma delicadeza que busca os detalhes, as texturas da região, a dor de uma Hermila muito nova para ter um filho, grande demais para permanecer em sua pequena Iguatu.
Hermila retorna para viver ao lado de uma tia e de sua avó, enquanto espera a chegada do marido que permaneceu em São Paulo. Mas ele não vem e logo ela descobre que foi abandonada. A personagem, então, decide partir novamente, mas para arrecadar dinheiro para sua viagem, promove uma rifa na qual o prêmio é “uma noite no paraíso”. Hermila decide se prostituir por uma noite apenas, em troca de uma nova chance de estar longe de Iguatu. É daí que vem o título do longa-metragem, pois ela ao vender a rifa escolhe o pseudônimo Suely.
A protagonista é interpretada pela atriz pernambucana Hermila Guedes que, assim como os outros atores, empresta seu nome para a personagem. A escolha pelo batismo foi uma tentativa de aproximar os atores dos seus papéis, de deixá-los imersos na vida de seus personagens. Na verdade, esse foi apenas uma pequena parte da longa preparação feita por Fátima Toledo. No trabalho de preparação, os atores viveram por dois meses como moradores de Iguatu, usavam as roupas do próprio filme e tiveram que se mesclar à cidade, em um movimento de imersão que resultou em atuações orgânicas e no prêmio de melhor atriz feminina no Festival do Rio de 2006.Mas as interpretações de O Céu de Suley não são resultado apenas do trabalho de preparação de elenco, mas também da persistência de Karim Aïnouz em privilegiar as atuações. Além dessa imersão, a estrutura do filme foi montada sempre para servir aos atores. Nas filmagens, por exemplo, a própria claquete foi abolida, no intuito de afastar o maior número de elementos que pudessem interferir no trabalho dos atores.
Hermila Guedes empresta seu nome para a personagem de O Céu de SuelyO Céu de Suely é um filme de sensações. Embora nele seja possível identificar todo um esforço de roteiro para levar o espectador a acompanhar um enredo com começo-meio-e-fim, o que sobressalta é a sua forma de olhar. Um olhar sem julgamentos que está muito mais a serviço da personagem do que de maneirismos cinematográficos. Quando Karim Aïnouz deixa que a cidade interfira na linha narrativa do filme, é isso que está fazendo. Porque ele se apropria de um discurso imagético e auditivo que é característico da região e o faz a favor do filme. Um outro exemplo é a escolha da trilha sonora, que pontua o longa com músicas do chamado tecno-brega. São versões de músicas pops estrangeiras em ritmo de forró.
De certa forma, O Céu de Suely está localizado ao lado de outras produções recentes do cinema nacional. Aliás, produções que de algum modo tiveram participação do próprio Karim Aïnouz, como Cidade Baixa, de Sérgio Machado e Cinema Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Ambos os filmes têm a participação do diretor de O Céu de Suely no roteiro. O que emparelha esses filmes numa linha próxima é a vontade de buscar um cinema que não esteja propriamente ligado a uma narrativa no qual o conflito é a chave para o princípio e o fim. São filmes que também procuram não contar para melhor contar.
É óbvio que nada disso é novidade na historiografia do cinema, mas é interessante notar como de tempos em tempos há movimentos de idas e vindas e como se prestarmos atenção, é possível antever a chegada de outros nesta mesma linha.
A proximidade que o Céu de Suely tem com um modo de discurso fílmico não o subjuga em nenhum momento. Pelo contrário, os não ditos, os silêncios, a delicadeza dessa produção é o grande trunfo que os 90 minutos de filme dão ao público.
Alexandre Honório comentou em 28/11/2006 às 4:25 pm
Pelo visto você aprendeu a “tocar” o “maldito” WordPress. Não me fale deste filme: mesmo não tendo passado por aqui, Tiago não para de falar o “quanto Iguatu é bacana, rapaz”.
Como estamos em Natal/RN, devo assistir, quem sabe, em alguma sessão perdida por aí…
No mais, o texto é bacana pra caramba…
Yuri comentou em 29/11/2006 às 1:37 pm
Uma bela e arguta análise, que destaca alguns aspectos que não constam em nenhuma outra crítica ou resenha que li sobre o filme. Você está cada mais afiado, Ari. Quando vai trabalhar na SET?
Tiago Lopes comentou em 30/11/2006 às 3:40 am
Iguatu-tu-tu-tu!
Alexandre Honório comentou em 30/11/2006 às 7:48 am
Menos, Yuri, menos…
kkkkkkkkkkkkkk…
augustolula comentou em 3/1/2007 às 2:04 pm
Estou vendo que seu comentário não fala sobre o “fazer estético de um filme, conta apenas a historia (argumento). É preciso discutir a cinematografia também. Abraço.
Aristeu comentou em 3/1/2007 às 3:59 pm
Ô Lula, lê direito aí, pelamor…
augustolula comentou em 15/1/2007 às 5:18 am
“O que emparelha esses filmes numa linha próxima é a vontade de buscar um cinema que não esteja propriamente ligado a uma narrativa no qual o conflito é a chave para o princípio e o fim. São filmes que também procuram não contar para melhor contar.”
Lex comentou em 1/2/2007 às 4:52 pm
Caralho, Aristeu. Nem preciso mais assistir ao filme. Ótimo texto, quando crescer quero ser igual a você.
[...] em que a câmera parece ouvir o cochichar dos seus personagens. Longas-metragens recentes como O Céu de Suely, Proibido Proibir ou Cinemas, Aspirinas e Urubus são outros exemplos dessa representação [...]
alexsandra comentou em 22/8/2008 às 4:45 pm
o ceu de Suely não só é fascinante, como deixa uma pequena amostra de tantas outras Suely que estão ai, que conhecemos e amamos. Senti vontade de colocar Suely no colo e protegê-le. a tenho certeza que não poderia ter sido lugar melhor escolhido que a cidade de Iguatu.
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