Por Alexandre Honório - 25/09/2008

O principal mérito de Ensaio Sobre a Cegueira do diretor brasileiro Fernando Meirelles é o incômodo com que nos deixa logo quando se anuncia a entrada dos créditos. Ninguém normal sai incólume de uma sessão do longa, pois este nos provoca, assedia, incomoda e nos obriga igualmente a uma reflexão sobre a condição humana. Como o livro, o filme se debruça sobre esta linha tênue na qual o humano se equilibra.
A adaptação do livro de José Saramago, pelo que se vê na tela, foi feliz em construir um relato cinematográfico que preservou a perspectiva do autor e transpôs com fidelidade impressionante muito do que o livro detém. Meirelles foi feliz na escolha e aposta em um roteiro que preservasse a atmosfera de desesperança que permeia toda a trama de Saramago e, ao mesmo tempo, conduzisse os personagens ao seu fim: a redescoberta do que é a humanidade.
Como no livro, o lugar e o tempo onde a trama se desenvolve – além das pessoas envolvidas pela cegueira – dispensam nomes ou delimitações geográficas: segundo a premissa, como o desígnio perverso do destino, a cegueira se instala e leva seus portadores ao limite da sensatez e do humano.
A premissa é apocalíptica, ao menos quando somos confrontados com ela na tela, e envereda por contornos assustadores e que nos obrigam à reflexão. É verdade que muitos escreveram que o pessimismo seria a marca do filme, mas, ao contrário, é a necessária esperança que ele encerra que o transforma em obra única.
Quando nos deixamos levar não pela cegueira, mas pelo que passa à frente dos olhos da Mulher do Médico (Julianne Moore) – única não infectada pela epidemia e, portanto, testemunha dos extremos entre o ver e o não-ver -, somos conduzidos pelo deserto de sentimentos que a doença cria: alguém que, entre cegos, consegue ver o pior daqueles que se prostram ante o irracional.
No hospital, quando a doença se dissemina e suas primeiras vítimas são reunidas para “avaliação”, os infectados passam a operar por regras conduzidas pelo instinto: a maneira como o Atendente de Hotel e Rei Auto-proclamado da Ala III (Gael Garcia Bernal) se apresenta e passa a conduzir a distribuição da comida, como pretendia Saramago, ilustra o que o poder, mesmo quando pouco ou limitado, é capaz de fazer ao indivíduo.
A direção e a fotografia de Ensaio Sobre a Cegueira, além do roteiro conciso de Don McKellar, são igualmente relevantes para a forma como o longa nos sensibiliza. Edição, fotografia e direção – os dois primeiros eixos a cargo de Daniel Resende e César Charlone respectivamente – constroem um panorama sobre os estragos que a cegueira promove (individual e coletivamente) que nos remete à árida natureza que separa cada um dos personagens.
Talvez o único momento de todo o filme em que a desesperança e desumanidade não se manifestam é no batismo que a chuva promove e que concilia todos os envolvidos pela cegueira: um batismo que se apresenta como espécie de redenção; de recomeço, até. Meirelles, ao contrário do que tem-se dito sobre “Ensaio Sobre a Cegueira”, acerta novamente: nos brinda com um filme único, inspirado e que aponta para o que nos torna, em essência, humanos. Não à toa, Saramago aparentemente pensa o mesmo.
Hugo Morais comentou em 27/9/2008 às 7:09 am
O trailer chamou muito a atenção. Verei em breve.
Tádzio comentou em 2/10/2008 às 8:03 am
Faz duas semanas que a gente tenta dar uma capa pra esse filme. Mas cadê que ele estréia em Natal? :p
Alexandre Honório comentou em 2/10/2008 às 6:06 pm
Tive que aproveitar uma ida a Recife pra poder assistir, Tádzio. Se depender das salas daqui, estreará o próximo da Xuxa ou qualquer outra bosta antes de Ensaio. Triste, mas é a mais pura verdade…
Dedo comentou em 6/10/2008 às 1:23 pm
belo post Alexandre!
qualquer alteração da nossa percepção do mundo nos leva a algum tipo de reflexão , concordo!
nascer com a porta da visão aberta e depois dela fechada por imprevisto é sempre um tema para pensar…
um abraço
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