Cinemascópio

Linha de Passe: um olhar sobre o país a partir da periferia

Por Aristeu Araújo - 16/09/2008

No jogo de futebol, linha de passe é a troca de bola entre os jogadores de um mesmo time. É um conceito que está em seu cerne, arraigado no ideal de cooperação mútua em prol da vitória do grupo. A linha de passe é o momento em que o jogador olha para o outro, em que abdica da posse da bola imbuído pelo ideal da coletividade.

No novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, o jargão futebolístico é título e metáfora para o olhar que o longa-metragem faz acerca da periferia paulistana. Linha de Passe trata exatamente da relação entre anonimato, identidade e cooperação que permeia seus personagens.

É assim que o filme vai narrar a história de uma família que vive em Cidade Líder, periferia de São Paulo. Cleusa tem quatro filhos e está grávida do quinto. Interpretada por Sandra Corveloni – ganhadora, com este papel, do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -, a personagem trabalha como doméstica e é apaixonada por futebol.

Seus filhos são a essência do filme. São os quatro fragmentos que pulverizam e unificam a trama. Um deles é Dario (Vinícius de Oliveira, a criança de Central do Brasil), que assim como a mãe tem predileção pelo futebol. Ele quer se tornar jogador profissional, mas, prestes a completar 18 anos, sabe que suas chances serão soterradas com a idade adulta. “O tempo é duro com o atleta”, ratifica um potencial empregador.

Dinho (José Geraldo Rodrigues) é frentista de um posto de gasolina. Hoje evangélico fervoroso, deixou para trás um passado obscuro. Dedica-se a sua fé com exemplar zelo e ajuda o pastor nos afazeres cotidianos da igreja.

Dênis é o irmão mais velho. Trabalha como motoboy, tem um filho e luta para poder conquistar algo nas ruas de São Paulo.

Reginaldo (Kaique Jesus Santos) é o caçula. Meio-irmão dos outros, não conheceu o pai. Negro em uma família de brancos, sente-se distante deles. Cleusa esconde a identidade do pai, mas Reginaldo o procura entre os ônibus da metrópole. A única informação que tem sobre o genitor é sua profissão: motorista de ônibus. Reginaldo passa horas do dia viajando dentro da cidade, observando os condutores, procurando alguma identificação.

Com Linha de Passe, Walter Salles e Daniela Thomas voltam a olhar o Brasil, a tentar – assim como fizeram em Terra Estrangeira e no O Primeiro Dia – traçar um entendimento sobre o país. Mas se em Terra Estrangeira havia a noção de repulsa pela terra natal, de busca da felicidade em outro lugar (numa terra distante), neste Linha de Passe o que há é a tentativa de reinvenção, de auto-resignificação. Transformação.

E a transformação para eles está coadunada com a noção de identidade, visibilidade. Em outra palavra, talvez, dignidade. Seja a de Reginaldo que necessita ser reconhecido e reconhecer o pai (negro como ele); seja a de Dinho, que se entrega na religião para ser visto por Deus, que se dedica a cada culto a testemunhar um milagre que nunca chega; seja a de Dênis, que anônimo como todos os milhares de motoboys de São Paulo, cruza a cidade em busca de uma sustentabilidade que não alcança e, pior, sabe que não alcançará; seja a de Dario, que almeja vestir a camisa de um time de segunda divisão, fazer gols, ouvir seu nome na boca dos torcedores.

O filme constrói, assim, o dia-a-dia dessa família na tentativa de quebrar com uma barreira que a deixa à margem. Pontua e sinaliza as poucas esperanças que pessoas como eles têm em alcançar algum status além daquele que lhes foi dado ao nascer.

Dentro desse viés, o longa-metragem apresenta um roteiro sem o maniqueísmo pungente de produções nacionais contemporâneas. Sua periferia é formada por pessoas que carregam suas belezas, suas amarguras, seus defeitos, seus crimes. Enfim, seus personagens nos são apresentados como pessoas com carne e sangue, algo bem distante dos estereótipos pós Cidade de Deus. Se alguém ainda não entende o porquê das críticas dirigidas contra o filme Tropa de Elite, basta assistir a esse Linha de Passe para perceber que o ser humano tem mais facetas do que José Padilha (diretor do Tropa) poderia imaginar.

Mas o cinema de Walter Salles é redentor. Sempre foi. Mesmo em situações limites, seus filmes sempre apontam para uma saída ou, como já sinalizado aqui, para uma transformação. Em Terra Estrangeira, Central do Brasil, Abril Despedaçado, O Primeiro Dia ou Diários de Motocicleta, há sempre uma conclusão que aponta para alguma esperança, para algum outro patamar. É por isso que na resolução de Linha de Passe seus personagens alcançam, cada um a sua maneira (cada um na sua história), um novo paradigma.

Eles não rompem com seu status social, mas alcançam alguma plenitude que justifica o título, porque é no olhar do outro e só apenas após o reconhecimento do outro, que podem ser encarados como um indivíduo.

Artigo publicado originalmente na Revista Moviola.

Um Comentário para “Linha de Passe: um olhar sobre o país a partir da periferia

Adriana Amorim comentou em 13/3/2009 às 11:39 am

Eu esperava mais do filme. Li entrevistas longas com Walter Sales, li críticas que elevaram o filme ao mais alto patamar do cinema nacional… No entanto, vi que o filme apenas retrata aspectos de uma realidade sem graça, vivida por uma família pobre, sem cultura e que continua a persistir no erro de proliferar-se… Não passa mensagem, não tem fim, não tem graça e nem esperança.

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