Por Alexandre Honório - 31/07/2009

John Dillinger foi um astro pop. Em uma América afundada pela Depressão, Dillinger foi o ideal de toda uma geração afundada até o pescoço e refém de um destino que não escolhera. Nenhum dos self-made men surgidos da catastrófica Depressão inspirou tanto a América quanto seu filho bastardo que adorava assaltar bancos, se comportava como um “Robin Hood on Jazz” e desafiava as forças da lei e da ordem nos quatro cantos da América.
Se entre seus pares Dillinger foi uma exceção, o filme do diretor Michael Mann, Inimigos Públicos, tenta reproduzir um pouco do mito deste vilão que marcou a face de um país em reconstrução e as fundações do seu principal órgão estatal de combate ao crime.
Mann não se preocupa em mostrar as origens de Dillinger – interpretado de modo brilhante por Johnny Depp; não se preocupa em mostrar as motivações que levaram seu protagonista a se transformar no “Inimigo Público Número Um” dos EUA pós-1929. Michael Mann escolhe mostrar Dillinger completamente envolvido por sua própria mitologia: cobre o personagem com a aura romântica que o cercara em vida e que “inspirara” gerações e gerações.
A verdade aqui é que Inimigos Públicos acompanha o começo do fim de uma era e os primeiros momentos de outra. Se por um lado somos apresentados à decadência da atmosfera romântica que recobria as ações espetaculares de John Dillinger e dos seus colaboradores, do outro vemos o surgimento aos trancos e barrancos de uma força nacional especializada no combate ao crime – no caso, o nascimento do FBI de J. Edgar Hoover e todas as implicações de seu parto.
As interpretações de Christian Bale, como o investigador Melvin Purvis, e de Johnny Depp, como o gangster John Dillinger, mantém um equilíbrio por vezes tênue do longa, uma vez que o roteiro se mostra irregular na condução da trama. Um problema em relação ao roteiro levado às telas por Mann é que, enxuto em demasia, termina por sustentar a trama mais em suas cenas de ação que na construção dos seus personagens e motivações – prova disso é a opção pelo romantismo que a relação entre Dillinger e Bettie evidencia.
Entretanto, mesmo com um roteiro que derrapa em muitos dos seus momentos, Inimigos Públicos alça novamente o talento de Michael Mann enquanto diretor. Seja na técnica ou na estética cinematográfica, o diretor demonstra novamente que a aposta no suporte digital para a produção de longas – no caso, a película digital – é algo incontornável e que esta não implica em realizar concessões à estética cinematográfica ou experiência em torno dela.
Como retrato histórico de uma época de contradições, Inimigos Públicos cumpre parte daquilo que propõe: os problemas da Depressão Americana, os reflexos dela nas classes mais e menos assistidas, a ascensão do crime organizado e a fundação de um novo período de combate a este mesmo crime são retratados. O pecado cometido por Mann, entretanto, é a dose deliberada e por vezes exagerada de romantismo que ele enxerta goela abaixo do espectador. Nada contra, mas, no fim, parece mais um recurso, uma compensação para a falta de algo mais que poderia ter sido explorado, que uma opção para melhor sustentar narrativa.
Um erro perceptível e que custou ao filme elementos que poderiam tê-lo tornado um pouco melhor. Inimigos Públicos não chega a deixar no espectador a sensação de Dillinger – Inimigo Público nº 1, de John Millius – mais encarniçado e frenético. Deixa um sentimento diferente; algo que o aproxima da filmografia recente de Michael Mann – que não é de todo ruim.
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